
Vergonha de ser brasileiro e a inquietação do Ser Miragaia

Nestes últimos dias, você e eu fomos bombardeados por notícias lamentáveis vindas do Distrito Federal e de seus Poderes. E confesso: fui tomado por um sentimento que jamais imaginei experimentar — vergonha de ser brasileiro.
É uma frase pesada. Talvez até injusta.
Porque o brasileiro comum tem pouco a ver com aquilo que diariamente assistimos acontecer nos palácios de Brasília.
O Brasil real não acorda em gabinete.
Acorda às cinco da manhã.
Pega ônibus lotado. Enfrenta trânsito. Abre comércio sem saber quanto venderá. Trabalha oito, dez, doze horas. Faz faculdade à noite. Parcela supermercado. Pesquisa preço de combustível. Espera atendimento médico. Paga impostos sobre praticamente tudo e ainda encontra forças para acreditar que amanhã poderá ser melhor.
Esse é o Brasil real.
Do outro lado está o Brasil oficial.
O Brasil dos palácios, tribunais, ministérios, gabinetes, cargos, verbas, emendas, benefícios e intermináveis disputas pelo poder.
E talvez seja justamente no espaço entre esses dois Brasis que nasce aquilo que chamo de Ser Miragaia.
Ser Miragaia não é pertencer a uma família, carregar um sobrenome ou defender determinada posição política.
É uma maneira de olhar para o mundo.
É olhar para aquilo que todos aprenderam a considerar normal e perguntar: Por quê?
Por que aceitamos tanto?
Por que pagamos tanto e recebemos tão pouco?
Por que privilégios públicos conseguem sobreviver enquanto milhões precisam fazer contas para comprar comida?
Por que determinados princípios parecem absolutos quando interessam a um lado e relativos quando interessam ao outro?
Por que esquerda e direita conseguem identificar imediatamente os abusos cometidos pelos adversários, mas desenvolvem uma curiosa miopia quando os mesmos abusos acontecem dentro da própria trincheira?
O Ser Miragaia desconfia das certezas fáceis.
Principalmente das próprias.
Porque questionar somente aquilo que o adversário acredita não é pensamento crítico.
É torcida organizada.
E talvez o Brasil tenha se transformado exatamente nisso: uma enorme arquibancada política onde milhões discutem quem venceu enquanto alguém continua cobrando o ingresso.
Existe o Brasil que paga a conta.
E existe o Brasil que decide como gastá-la.
No primeiro está o trabalhador, o professor, o médico, o motorista, o agricultor, o policial, o comerciante, o empresário, o estudante, a mãeque transforma salário em sobrevivência e milhões de brasileiros anônimos que mantêm este país funcionando.
No segundo está uma máquina pública que frequentemente parece discutir muito mais sobre si mesma do que sobre aqueles que deveria servir.
É nesse ponto que minha vergonha começa a mudar de significado.
Talvez eu não tenha vergonha de ser brasileiro.
Tenho vergonha daquilo que permitimos que se tornasse normal no Brasil.
Normalizamos corrupção porque “sempre existiu”.
Normalizamos privilégios porque “estão na lei”.
Normalizamos violência porque “é perigoso reagir”.
Normalizamos burocracia porque “o Brasil funciona assim”.
Normalizamos hospitais superlotados, escolas precárias, cidades sem planejamento, enchentes previsíveis, saneamento insuficiente, infraestrutura abandonada e uma carga brutal sobre quem trabalha e produz.
Mas existe uma expressão ainda mais perigosa:
“É assim mesmo.”
O Ser Miragaia rejeita essa frase.
Porque aceitar que “é assim mesmo” significa transformar indignação em resignação.
E uma sociedade resignada oferece terreno perfeito para qualquer forma de abuso.
Talvez por isso o problema brasileiro seja maior do que direita contra esquerda.
Se o acusado pertence ao nosso lado, buscamos contexto.
Se pertence ao outro, queremos condenação.
Se determinada instituição toma uma decisão que nos beneficia, defendemos as instituições.
Se amanhã a mesma instituição nos prejudica, descobrimos subitamente os perigos do excesso de poder.
Mudam os personagens.
A incoerência permanece.
O Ser Miragaia procura escapar dessa armadilha.
Não porque seja neutro.
Neutralidade absoluta também pode ser uma confortável forma de omissão.
Mas porque princípios verdadeiros precisam sobreviver à troca dos personagens.
Se considero errado quando fazem contra alguém de quem gosto, preciso considerar errado quando fazem contra alguém de quem discordo.
Caso contrário, não estou defendendo um princípio.
Estou defendendo uma conveniência.
Talvez seja justamente essa ausência de coerência que esteja provocando nossa verdadeira combustão humana espontânea nacional.
Não precisamos de invasores estrangeiros para destruir nossa confiança.
Nós mesmos conseguimos.
Transformamos brasileiros em inimigos.
Famílias brigaram.
Amizades terminaram.
Pessoas passaram a avaliar caráter por voto.
Primeiro perguntamos em quem alguém votou.
Depois decidimos se vale a pena ouvi-lo.
E políticos que provavelmente jamais saberão nossos nomes conseguiram ocupar nossas casas, nossas conversas e até nossas relações pessoais.
Enquanto isso, o Brasil real continua acordando cedo.
Porque boleto não possui ideologia.
Inflação não pergunta em quem você votou.
Violência não verifica partido.
Desemprego não consulta sua posição política.
Uma criança esperando atendimento médico não é de direita nem de esquerda.
É brasileira.
E talvez seja exatamente aí que o Ser Miragaia encontre sua razão de existir.
Não para oferecer respostas prontas.
Mas para continuar fazendo perguntas que incomodam.
Não para dizer ao brasileiro o que pensar, mas para provocá-lo a perguntar por que pensa aquilo que pensa.
Não para criar outra tribo.
Mas para lembrar que existe algo maior do que nossas tribos: o Brasil.
Por isso retiro parte daquilo que disse no início.
Não sinto vergonha do brasileiro que trabalha.
Não sinto vergonha da enfermeira que atravessa a cidade para cumprir plantão.
Do professor que insiste.
Do pequeno empresário que enfrenta burocracia.
Do agricultor que produz.
Do motorista que começa antes do amanhecer.
Do estudante que trabalha durante o dia e estuda à noite.
Da mãe que realiza diariamente uma espécie de milagre financeiro para fazer o salário chegar ao final do mês.
Dessas pessoas eu não sinto vergonha.
Minha vergonha nasce quando percebo que um país capaz de produzir tanta gente extraordinária consegue aceitar tão frequentemente comportamentos tão medíocres daqueles que ocupam posições extraordinárias de poder.
O Brasil real está tentando viver.
O Brasil oficial parece permanentemente ocupado consigo mesmo.
E o Ser Miragaia permanece no meio dessa contradição, observando, questionando e recusando-se a aceitar que indignação tenha se tornado sinônimo de radicalismo.
Talvez amar verdadeiramente um país não seja defendê-lo de todas as críticas.
Talvez seja exatamente o contrário.
É gostar suficientemente dele para não aceitar aquilo que ele se tornou.
Por isso minha vergonha não significa desistência.
Significa inconformismo.
Porque enquanto ainda houver brasileiros capazes de olhar para o absurdo e perguntar “por quê?”, ainda existe possibilidade de mudança.
O perigo começará quando ninguém mais perguntar.
Quando corrupção não surpreender.
Quando abuso não incomodar.
Quando incoerência não constranger.
Quando privilégio não revoltar.
Quando injustiça depender apenas de quem é a vítima.
E quando finalmente olharmos para tudo isso e dissermos: “É assim mesmo.”
Nesse dia, Brasília não precisará destruir o Brasil.
Nós teremos desistido dele.
E talvez a essência do Ser Miragaia seja justamente esta: não desistir.
Não aceitar.
Não se acomodar.
Não terceirizar a própria consciência para político, partido, ideologia ou instituição.
Questionar inclusive aquilo em que acreditamos.
Porque antes de escolher direita ou esquerda, existe uma escolha muito mais importante: escolher permanecer consciente.
Isso é Ser Miragaia.
Pensar para não ser pensado pelos outros.
Questionar para não ser conduzido pelo absurdo. E incomodar-se enquanto o Brasil ainda puder ser muito maior do que aquilo que fizeram dele.




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