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A humanidade tornou-se grande demais para ser salva?

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 3 dias
5 min de leitura

Na altura do campeonato, torna-se impraticável investir na humanidade. Cabe ao ser humano investir no indivíduo.


Talvez essa frase pareça pessimista. Não é. É uma mudança radical de perspectiva.


Durante séculos, construímos grandes projetos destinados a melhorar a humanidade. Criamos sistemas políticos, instituições, escolas, constituições, organizações internacionais, códigos de direitos, modelos econômicos, religiões organizadas, movimentos sociais e incontáveis teorias sobre como construir uma sociedade melhor.


E, apesar de todo o avanço material, científico e tecnológico, continuamos convivendo com corrupção, violência, intolerância, guerras, exploração, mentira, egoísmo e uma impressionante capacidade humana de repetir erros que já conhecemos.


Talvez exista um problema na pergunta.


Talvez não devêssemos perguntar “como transformar a humanidade?”, mas: “Como transformar o ser humano?


A humanidade é uma abstração. O indivíduo é real.


A humanidade não acorda pela manhã.


A humanidade não toma decisões.


A humanidade não mente.


Não rouba.


Não perdoa.


Não ama.


Não trai.


Não assume responsabilidades.


Não muda de opinião diante da verdade.


Quem faz tudo isso é o indivíduo.


Quando dizemos que “a sociedade precisa mudar”, criamos uma formulação confortável porque transferimos para uma entidade abstrata uma responsabilidade essencialmente pessoal.


A sociedade precisa ser mais ética.


Os políticos precisam ser honestos.


As empresas precisam ter responsabilidade.


As pessoas precisam respeitar umas às outras.


O mundo precisa melhorar.


Sempre alguém precisa começar.


E quase sempre esse alguém está do lado de fora de nós.


Talvez aí esteja uma das maiores armadilhas intelectuais do nosso tempo: exigimos coletivamente comportamentos que frequentemente não estamos dispostos a praticar individualmente.


Queremos honestidade institucional, mas relativizamos pequenas desonestidades particulares.


Queremos políticos responsáveis, mas frequentemente premiamos discursos convenientes em vez de verdades desagradáveis.


Queremos empresas éticas, mas toleramos pequenas transgressões quando elas nos beneficiam.


Queremos respeito, desde que nossas próprias convicções não sejam confrontadas.


Queremos justiça, mas temos enorme dificuldade em aceitá-la quando somos nós os julgados.


É relativamente fácil defender virtudes quando o preço delas será pago por outra pessoa.


O fracasso das grandes soluções


Existe uma sedução perigosa nas soluções coletivas.


Quando alguém promete mudar uma sociedade inteira, existe algo grandioso nisso. É muito mais emocionante falar em “transformar o mundo” do que ensinar uma criança a assumir responsabilidade pelos próprios atos.


Entretanto, a história deveria ter nos ensinado alguma cautela.


Grandes projetos de transformação humana frequentemente começam com palavras extraordinariamente nobres: igualdade, justiça, liberdade, progresso, ordem, prosperidade.


O problema começa quando alguém conclui que possui a fórmula definitiva para produzir essas virtudes em milhões de pessoas.


Nesse momento, a tentativa de aperfeiçoar o ser humano pode transformar-se justamente em uma máquina de esmagá-lo.


Porque existe uma diferença fundamental entre criar condições para que indivíduos floresçam e determinar aquilo que indivíduos devem se tornar.


A primeira possibilidade preserva a liberdade.


A segunda frequentemente exige coerção.


A revolução silenciosa


Talvez a verdadeira transformação social seja muito menos cinematográfica.


Ela acontece quando um pai educa corretamente um filho.


Quando uma professora desperta pensamento crítico em uma criança.


Quando alguém decide não participar de uma corrupção aparentemente insignificante.


Quando um empresário compreende que lucro e caráter não precisam ser adversários.


Quando alguém aprende a discordar sem desumanizar.


Quando uma pessoa admite que estava errada.


Quando alguém escolhe cumprir sua palavra mesmo quando quebrá-la seria mais vantajoso.


Nenhum desses acontecimentos será manchete.


Nenhum deles derrubará governos.


Nenhum deles viralizará necessariamente nas redes sociais.


Mas talvez sejam exatamente esses pequenos acontecimentos que sustentem uma civilização.


Porque instituições não possuem caráter próprio. Elas refletem, em alguma medida, o caráter das pessoas que as ocupam.


Investir no indivíduo


Investir no indivíduo não significa defender individualismo egoísta.


É justamente o contrário.


Significa compreender que responsabilidade coletiva sem responsabilidade individual é uma construção vazia.


Investir no indivíduo significa desenvolver consciência, educação, caráter, autonomia intelectual, capacidade de discernimento e responsabilidade.


Significa ensinar alguém não apenas o que pensar, mas principalmente como pensar.


Ensinar que liberdade possui consequências.


Que direitos convivem com deveres.


Que escolhas possuem custos.


Que nem todo sofrimento é injustiça.


Que nem toda frustração é opressão.


Que discordância não significa violência.


Que convicção não substitui argumento.


E, principalmente, que ninguém deveria terceirizar completamente a responsabilidade pela própria existência.


Esse indivíduo é muito mais difícil de manipular.


E talvez seja justamente por isso que sociedades verdadeiramente livres dependam dele.


O perigo da multidão


O indivíduo possui consciência.


A multidão possui impulso.


Quando inserido em grupos, o ser humano pode experimentar uma curiosa redução de responsabilidade. Aquilo que jamais faria sozinho pode parecer justificável quando milhares fazem junto.


A história humana oferece exemplos suficientes disso.


Por isso, preservar a individualidade intelectual talvez seja uma das maiores necessidades deste século.


Vivemos em uma época na qual algoritmos conseguem agrupar pessoas por comportamento, opiniões, medos, desejos e indignações.


Somos permanentemente convidados a escolher uma tribo.


Direita ou esquerda.


Nós ou eles.


Progressistas ou conservadores.


Ricos ou pobres.


Crentes ou ateus.


Patrões ou empregados.


Cada classificação pode possuir alguma utilidade analítica.


O problema começa quando a categoria substitui a pessoa.


Porque, quando deixamos de enxergar indivíduos e passamos a enxergar somente grupos, torna-se muito mais fácil amar abstratamentea humanidade” enquanto odiamos concretamente seres humanos.


Começar por um


Talvez não possamos salvar oito bilhões de pessoas.


Provavelmente jamais conseguiremos eliminar completamente a ganância, a violência, a mentira, a corrupção ou a crueldade da experiência humana.


Essa constatação não deveria produzir desistência.


Deveria produzir foco.


Se não conseguimos transformar oito bilhões, podemos influenciar cem.


Se não conseguimos cem, talvez dez.


Se não conseguimos dez, talvez uma pessoa.


E existe uma pessoa sobre a qual possuímos uma responsabilidade incomparavelmente maior: nós mesmos.


Essa é provavelmente a revolução mais desconfortável de todas.


Porque lutar contra “o sistema” permite encontrar culpados externos.


Transformar a si próprio exige encontrar um espelho.


A humanidade começa no singular


Talvez tenha chegado o momento de abandonar certa arrogância histórica de querer reconstruir permanentemente a humanidade e recuperar algo muito mais simples: formar seres humanos.


Pessoas capazes de pensar.


Capazes de assumir consequências.


Capazes de produzir.


Capazes de amar.


Capazes de discordar.


Capazes de reconhecer limites.


Capazes de exercer liberdade sem transformar liberdade em licença para destruir o outro.


Não precisamos desistir da humanidade.


Precisamos compreender onde ela realmente existe.


Ela não está nas grandes declarações.


Não está nas bandeiras.


Não está nos discursos.


Não está nas multidões.


A humanidade existe dentro de cada ser humano.


Portanto, na altura do campeonato, talvez seja realmente impraticável investir diretamente na humanidade.


Ela é grande demais, complexa demais e contraditória demais para ser moldada como um único organismo.


Mas ainda podemos investir no indivíduo.


Na consciência.


No caráter.


Na responsabilidade.


Na educação.


Na liberdade acompanhada de consequência.


E talvez exista aí uma ironia extraordinária: quando desistimos da pretensão de transformar toda a humanidade e começamos a transformar indivíduos, finalmente encontramos uma maneira possível de transformar a humanidade.


Porque nenhuma sociedade se torna melhor por decreto.


Nenhuma civilização supera seus vícios apenas por discursos.


Nenhum país se torna ético simplesmente porque escreveu boas leis.


A transformação coletiva é consequência.


A transformação individual é origem.


E toda vez que quisermos saber por onde recomeçar, a resposta continuará desconfortavelmente próxima: por um indivíduo de cada vez.


E o primeiro deles está diante do espelho.

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