
O Brasil não descarrilhou ontem

Existe um momento exato em que uma nação perde o rumo?
Existe um dia em que podemos olhar para trás e dizer: foi ali que a ética começou a desaparecer, que a moral deixou de estabelecer limites e que aquilo que deveria causar indignação passou a fazer parte da paisagem?
No caso brasileiro, provavelmente não.
O Brasil não descarrilhou ontem.
O que vivemos hoje não nasceu de um único governo, de um partido, de uma eleição, de uma decisão judicial ou de uma crise econômica. É resultado de algo muito mais profundo, desconfortável e antigo: décadas e, em determinados aspectos, séculos de tolerância, conveniência, omissão e transferência de responsabilidade.
Talvez estejamos procurando o culpado errado porque é muito mais confortável apontar para Brasília do que para o espelho.
Uma nação não apodrece de repente
O colapso moral de uma sociedade raramente acontece por meio de um grande acontecimento.
Ele ocorre aos poucos.
Começa quando aquilo que ontem era considerado inadmissível passa a ser relativizado.
Depois, o relativizado passa a ser tolerado.
O tolerado torna-se habitual.
E aquilo que se torna habitual finalmente deixa de causar vergonha.
É assim que uma sociedade modifica seus limites morais sem perceber que os está modificando.
A corrupção, nesse sentido, não começa necessariamente quando alguém desvia milhões dos cofres públicos. Existe uma corrupção anterior, muito mais silenciosa: a corrupção da consciência.
É quando o indivíduo passa a acreditar que determinada regra deve valer para todos — exceto quando ela o prejudica.
É quando condenamos o privilégio do outro enquanto procuramos alguma forma de conquistar o nosso.
É quando exigimos honestidade absoluta dos governantes, mas relativizamos pequenas desonestidades quando elas nos favorecem.
É quando aquilo que é errado deixa de ser errado e passa a depender de quem está fazendo.
Nesse momento, já existe alguma coisa profundamente comprometida.
Brasília não caiu do céu
Existe uma frase desconfortável que precisamos enfrentar: os políticos brasileiros são brasileiros.
Deputados, senadores, prefeitos, governadores, ministros, empresários, magistrados, servidores públicos e presidentes não foram importados de uma sociedade moralmente inferior.
Eles nasceram aqui.
Foram educados aqui.
Conviveram conosco.
Foram formados dentro dos mesmos códigos culturais que formaram todos nós.
Isso não significa diminuir a responsabilidade daqueles que exercem o poder.
Muito pelo contrário.
Quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade.
Quem administra bilhões pertencentes à sociedade possui uma responsabilidade incomparavelmente maior do que aquele que comete uma pequena infração cotidiana.
Mas seria intelectualmente desonesto acreditar que podemos produzir permanentemente instituições corrompidas a partir de uma sociedade absolutamente íntegra.
Existe uma relação entre as duas coisas.
O Estado também é um reflexo da sociedade que o produz.
O perigoso “jeitinho”
Durante muito tempo romantizamos uma característica brasileira: o famoso jeitinho.
Em sua versão positiva, ele representa criatividade, adaptação e capacidade de resolver problemas.
Mas existe outra versão.
Muito menos simpática.
É aquela que transforma regras em obstáculos a serem contornados.
“Conheço alguém.”
“Dá para resolver.”
“Todo mundo faz.”
“Não vai acontecer nada.”
“É só desta vez.”
“Não estou prejudicando ninguém.”
Essas frases parecem pequenas.
Mas carregam uma filosofia inteira.
A filosofia segundo a qual a regra é rígida para o desconhecido e flexível para mim.
Quando milhões de pessoas passam a operar dentro dessa lógica, não deveríamos nos surpreender quando ela chega às estruturas de poder.
O pequeno favor transforma-se no grande favorecimento.
O conhecido transforma-se no apadrinhado.
A exceção transforma-se no privilégio.
E o jeitinho, quando encontra bilhões de reais e poder institucional, ganha outro nome: corrupção.
A indignação seletiva
Talvez exista ainda um fenômeno mais perigoso.
Passamos a escolher aquilo que nos indigna de acordo com quem pratica o ato.
Se alguém pertencente ao grupo político que rejeitamos comete determinada irregularidade, exigimos punição exemplar.
Quando comportamento semelhante ocorre do nosso lado, aparecem imediatamente justificativas, circunstâncias, interpretações e relativizações.
A ética deixa então de possuir princípios universais.
Passa a possuir torcida.
E quando a moral depende da camisa de quem está jogando, ela deixou de ser moral.
Transformou-se em conveniência.
Uma sociedade verdadeiramente ética não pergunta primeiro quem fez.
Pergunta: o que foi feito?
E somente depois atribui responsabilidades.
O problema não começou neste governo
É preciso afirmar isso claramente.
O problema brasileiro não começou no atual governo.
Também não começou no anterior.
Não começou há dez, vinte ou trinta anos.
Nossa relação problemática entre poder público, interesses privados, privilégios e patrimonialismo atravessa diferentes momentos da história brasileira.
Mudaram governos.
Mudaram Constituições.
Mudaram moedas.
Mudaram partidos.
Mudaram discursos.
Mudaram personagens.
Mas determinados comportamentos demonstraram extraordinária capacidade de sobrevivência.
Talvez porque tenhamos tentado inúmeras vezes trocar os homens sem transformar suficientemente a cultura que os produz.
E então fazemos novamente aquilo que sabemos fazer muito bem: esperamos pelo próximo salvador.
A eterna procura pelo salvador
O Brasil possui uma perigosa fascinação por personagens capazes de resolver o país.
Periodicamente surge alguém prometendo reconstruir tudo.
A esperança é depositada naquela pessoa.
Milhões acreditam.
Alguns anos passam.
A frustração chega.
E começamos novamente a procurar outro.
Talvez porque seja muito mais confortável acreditar que um homem destruiu o Brasil e outro homem poderá salvá-lo.
Se o problema estiver concentrado em Brasília, nossa responsabilidade praticamente desaparece.
Podemos assistir.
Reclamar.
Votar.
E esperar.
Mas talvez nenhuma transformação profunda aconteça enquanto continuarmos procurando um salvador para evitar nossa própria responsabilidade.
A responsabilidade que ninguém deseja assumir
Esta talvez seja a parte mais incômoda desta reflexão.
Nós participamos da construção do Brasil que criticamos.
Não necessariamente praticando crimes.
Mas muitas vezes tolerando comportamentos.
Silenciando quando era conveniente.
Escolhendo representantes sem responsabilidade.
Defendendo aquilo que condenaríamos caso fosse praticado pelo adversário.
Aceitando pequenas vantagens.
Normalizando pequenos desvios.
Transformando esperteza em qualidade.
E ensinando, consciente ou inconscientemente, às próximas gerações que ser correto é importante desde que não custe muito caro.
Depois olhamos para o resultado coletivo e perguntamos: Como chegamos até aqui?
Talvez tenhamos chegado exatamente pelo caminho que construímos.
O maior perigo não é a corrupção
Corrupção pode ser investigada.
Dinheiro pode ser rastreado.
Crimes podem ser julgados.
Leis podem ser aperfeiçoadas.
Instituições podem ser reformadas.
Existe, entretanto, algo muito mais difícil de recuperar: a consciência moral de uma sociedade.
Porque quando uma população começa a acreditar que todos são corruptos, que nada mudará e que honestidade é ingenuidade, surge uma consequência devastadora.
O indivíduo começa a justificar sua própria transgressão.
“Se todos fazem, por que eu não faria?”
Nesse instante, o problema deixa de estar exclusivamente no Estado.
Ele entra dentro de casa.
Talvez o Brasil esteja à deriva há muito tempo
Não porque não existam brasileiros extraordinariamente honestos.
Existem milhões.
Não porque todas as instituições estejam destruídas.
Não estão.
E não porque não exista possibilidade de reconstrução.
Existe.
O problema é outro.
Talvez tenhamos nos acostumado demais com aquilo que deveria continuar nos incomodando.
Uma nação começa a perder o rumo quando o absurdo deixa de ser absurdo.
Quando a indignação dura algumas horas.
Quando um escândalo é substituído pelo próximo.
Quando aquilo que deveria produzir vergonha transforma-se apenas em conteúdo.
E seguimos.
O Brasil não precisa apenas de novos governantes
Precisamos de instituições melhores, evidentemente.
Precisamos de transparência.
Fiscalização.
Justiça independente.
Responsabilidade fiscal.
Educação.
Segurança jurídica.
Combate permanente à corrupção.
Mas existe uma reforma que nenhuma Constituição poderá realizar por nós.
A reforma do indivíduo.
Precisamos reconstruir a ideia aparentemente simples de que existem coisas que não fazemos mesmo quando ninguém está olhando.
Não porque exista uma câmera.
Não porque exista um fiscal.
Não porque possamos ser punidos.
Mas porque estão erradas.
Isso se chama caráter.
E nenhuma democracia consegue funcionar indefinidamente tentando substituir caráter por legislação.
O espelho
Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando: “O que fizeram com o Brasil?”
É uma pergunta legítima.
Governantes precisam responder por seus atos.
Instituições precisam prestar contas.
Crimes precisam ser investigados independentemente de quem os tenha cometido.
Mas existe outra pergunta.
Muito mais difícil.
Porque não podemos direcioná-la ao Congresso.
Ao Supremo.
Ao presidente.
À esquerda.
À direita.
Ao empresário.
Ao funcionário público.
Ela precisa ser feita diante do espelho: “O que nós permitimos que o Brasil se tornasse?”
E imediatamente depois: “Qual foi a nossa participação nisso?”
Talvez seja justamente aí que possa começar alguma transformação.
Porque o Brasil não descarrilhou ontem.
Descarrilamentos históricos são construídos lentamente.
Concessão após concessão.
Silêncio após silêncio.
Conveniente indignação após conveniente indignação.
Governo após governo.
Geração após geração.
E uma nação que levou décadas para chegar até determinado lugar provavelmente não encontrará o caminho de volta em uma eleição.
Será necessário reconstruir algo anterior à política.
Anterior às instituições.
Anterior às leis.
Será necessário reconstruir o limite entre aquilo que podemos fazer e aquilo que, mesmo podendo, decidimos não fazer.
Porque talvez a verdadeira crise brasileira não seja apenas econômica, política ou institucional.
Talvez seja uma crise de responsabilidade.
E nenhuma nação encontra novamente seu rumo enquanto continuar acreditando que o culpado pelo descarrilamento está sempre sentado no vagão ao lado.
O Brasil precisa olhar para o espelho.
Não para encontrar um único culpado.
Mas para finalmente encontrar aqueles que terão de reconstruí-lo: nós.




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