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Quando o empresário perde a confiança, a economia sente depois

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 5 dias
3 min de leitura

Em praticamente todas as reuniões de negócios das quais participo ultimamente, existe algo que os relatórios talvez demorem um pouco mais para revelar, mas que os rostos já demonstram: há um desconforto crescente entre empresários brasileiros.


Não estou falando apenas de pessimismo. Estou falando de cautela.


E existe uma enorme diferença entre os dois.


O pessimista acredita que tudo dará errado. O empresário cauteloso simplesmente começa a proteger aquilo que construiu. Reduz investimentos, posterga contratações, controla estoques, preserva caixa, diminui exposição ao crédito e passa a analisar cada novo projeto não pela oportunidade que representa, mas pelo risco que carrega.


É justamente aí que começa o problema.


A percepção das reuniões começa a aparecer nos números


Em agosto de 2026, o Índice de Confiança Empresarial da FGV recuou pelo segundo mês consecutivo e chegou a 91,1 pontos. A confiança do comércio caiu para 84,2 pontos e a confiança industrial sofreu uma queda ainda mais acentuada.


Portanto, aquilo que observo nas salas de reunião não pode simplesmente ser tratado como uma impressão isolada.


Existe um movimento mensurável de deterioração das expectativas.


E confiança empresarial não é uma variável emocional irrelevante.


É confiança que antecede muitas decisões de investimento.


O dinheiro continua caro


Mesmo depois da redução promovida pelo Banco Central em agosto, a taxa Selic permanece em 14% ao ano.


Para uma PME, entretanto, Selic não significa necessariamente o custo final do dinheiro.


O empresário acessa crédito acrescido de spreads, avaliação de risco, garantias, tarifas e demais condições estabelecidas pelas instituições financeiras.


Isso produz uma equação bastante simples: se o retorno esperado de um investimento não compensar adequadamente o custo do capital e o risco assumido, o empresário não investe.


Ele espera.


E milhares de empresários esperando ao mesmo tempo começam a produzir consequências macroeconômicas.


O pequeno empresário vive a economia antes da estatística


Existe uma diferença fundamental entre analisar uma economia e operar dentro dela.


O empresário está na ponta.


Ele percebe quando o consumidor começa a parcelar mais.


Percebe quando o cliente posterga uma compra.


Percebe quando fornecedores renegociam condições.


Percebe quando estoques começam a girar mais lentamente.


Percebe quando contratar alguém deixa de representar expansão e passa a representar risco.


E percebe, principalmente, quando precisa trabalhar mais simplesmente para preservar o mesmo resultado.


É por isso que deveríamos prestar muito mais atenção ao humor das PMEs.


Porque são justamente elas que sustentam uma enorme parcela da economia real


A pequena e média empresa não possui a mesma capacidade de absorção de choques de uma grande corporação.


Não possui acesso ao capital nas mesmas condições.


Não possui departamentos gigantescos para administrar complexidade tributária, jurídica, trabalhista e regulatória.


Muitas vezes existe apenas o proprietário, alguns gestores e uma equipe tentando simultaneamente vender, produzir, pagar impostos, financiar capital de giro e manter empregos.


Quando o ambiente econômico se deteriora, portanto, é nesse empresário que a pressão aparece rapidamente.


Existe uma sequência perigosa


Primeiro surge a incerteza.


Depois vem a cautela.


A cautela reduz investimentos.


Menos investimentos reduzem expansão.


Menos expansão significa menos contratações.


Menos contratações limitam renda futura.


Menor expectativa de renda reduz consumo.


Menor consumo reduz faturamento.


E o empresário, diante da redução da demanda, torna-se ainda mais cauteloso.


O círculo se fecha.


O Brasil precisa observar algo além do PIB


Uma economia pode apresentar indicadores aparentemente administráveis e, simultaneamente, desenvolver uma deterioração nas expectativas de quem efetivamente precisa colocar dinheiro em risco.


É possível estimular consumo.


É possível ampliar crédito direcionado.


É possível criar programas governamentais.


Mas existe algo que nenhum decreto consegue fabricar: confiança.


Confiança é construída quando existe previsibilidade.


Quando existem regras minimamente estáveis.


Quando o empresário consegue calcular riscos.


Quando consegue projetar custos.


Quando consegue enxergar alguns anos à frente sem precisar transformar cada decisão empresarial em uma aposta sobre o que o país fará amanhã.


E talvez essa seja a pergunta que realmente importa


Nas reuniões de negócios das quais participo, tenho observado rostos preocupados.


Empresários mais defensivos.


Decisões sendo adiadas.


Investimentos sendo questionados.


Isso não significa necessariamente que o Brasil esteja diante de um colapso econômico.


Significa algo talvez mais importante: há sinais de perda de confiança que merecem ser levados a sério.


Porque a pergunta fundamental para uma economia não é apenas: “Quanto o país está crescendo?


Existe uma pergunta anterior: “Quem produz, emprega e investe ainda acredita que vale a pena continuar colocando seu dinheiro em risco aqui?


Se a resposta começar a ser “não sei”, existe um alerta.


Se passar para “melhor esperar”, existe um problema.


E se um número significativo de empresários chegar ao “não vale mais a pena”, então o problema econômico já terá ultrapassado os gráficos.


Terá chegado ao lugar onde riqueza, emprego e desenvolvimento efetivamente começam: à decisão de alguém de empreender.

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