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Que Rei Sou Eu? — Quando o brasileiro precisa se endividar para pagar o Estado

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
16 de ago.
6 min de leitura

Em 1989, Cassiano Gabus Mendes colocou no ar uma das sátiras políticas mais inteligentes da televisão brasileira: “Que Rei Sou Eu?”. Embora ambientada em 1786, às vésperas da Revolução Francesa, a novela nunca pretendeu falar apenas de reis, rainhas, nobres e revolucionários. O fictício Reino de Avilan era, deliberadamente, uma caricatura do Brasil daquele final dos anos 1980. A própria Memória Globo descreve a obra como uma paródia do país: em Avilan, a população convivia com governantes corruptos, sucessivos planos econômicos, moeda desvalorizada e altos impostos. (Memória Globo⁠)


Passaram-se 37 anos. Mudaram a moeda, a Constituição, os presidentes, os partidos, os planos econômicos e as tecnologias. Avilan, entretanto, continua estranhamente familiar.


Talvez seja justamente essa a genialidade de Que Rei Sou Eu?. O exagero era utilizado para provocar o espectador. Havia um conselheiro dos Mares em um país que sequer possuía saída para o mar; uma guilhotina importada da Alemanha a peso de ouro que não funcionava; autoridades desconectadas das necessidades da população; reformas monetárias; burocracia; privilégios e uma elite governante tentando resolver os problemas que ela própria ajudava a produzir. (Memória Globo⁠)


Era engraçado porque era absurdo.


E era desconfortável porque era reconhecível.


Quando Avilan encontra o Brasil de 2026


Hoje vivemos uma situação que talvez merecesse um capítulo escrito pelo próprio Cassiano Gabus Mendes: pessoas físicas e jurídicas recorrendo ao crédito não necessariamente para consumir, expandir ou investir, mas para conseguir cumprir suas obrigações financeiras e tributárias.


É preciso fazer uma distinção importante. Crédito não é, por definição, um problema. Uma empresa saudável pode tomar empréstimos para financiar estoque, ampliar instalações, comprar máquinas, contratar pessoas ou antecipar investimentos. Isso é alavancagem financeira e, quando bem administrada, pode produzir crescimento.


A distorção aparece quando o crédito deixa de financiar o amanhã e passa a financiar o ontem.


Quando uma empresa precisa buscar capital de giro para preservar caixa diante das obrigações correntes, alguma coisa merece atenção. E quando parte desse dinheiro serve para pagar tributos, surge uma situação quase kafkiana: o empresário toma dinheiro emprestado, paga juros ao sistema financeiro e utiliza o recurso para cumprir sua obrigação com o Estado.


O crédito, que deveria funcionar como combustível para expansão, transforma-se em oxigênio para sobrevivência.


O Estado recebe primeiro. A empresa descobre depois como continuará respirando.


Essa discussão poderá tornar-se ainda mais relevante com a transformação do sistema tributário brasileiro. Uma das preocupações manifestadas em relação ao split payment, previsto na implementação da reforma tributária, está justamente na liquidez das empresas.


No novo mecanismo, os tributos poderão ser separados automaticamente no momento da liquidação financeira da operação. Isso reduz o período durante o qual parte desses recursos permanece no caixa empresarial. Estimativa divulgada recentemente aponta que as dez maiores varejistas brasileiras poderiam perder aproximadamente R$ 12 bilhões em liquidez, aumentando potencialmente a necessidade de crédito, especialmente entre empresas menores. (UOL Economia⁠)


Aqui aparece o paradoxo.


O Estado deseja aumentar a eficiência da arrecadação — objetivo legítimo.


A empresa precisa preservar sua capacidade de financiar estoque, folha de pagamento, fornecedores, aluguel, logística, tecnologia, expansão e investimentos — necessidade igualmente legítima.


O problema surge quando a equação começa a produzir uma economia na qual o Estado recebe cada vez mais rapidamente enquanto quem produz precisa recorrer ao sistema financeiro para continuar produzindo.


É nesse momento que Avilan reaparece.


O contribuinte que financia o próprio direito de continuar contribuindo


Imagine a sequência.


A empresa vende.


Paga funcionários.


Paga fornecedores.


Paga aluguel.


Paga energia.


Paga logística.


Paga juros.


Paga impostos.


E, quando o caixa não suporta simultaneamente todas essas obrigações, toma crédito.


Depois paga juros sobre o crédito utilizado, inclusive, para cumprir suas obrigações tributárias.


Temos então uma inversão econômica importante: o contribuinte passa a assumir dívida para financiar sua capacidade de continuar sendo contribuinte.


Não se trata de defender ausência de impostos. Nenhuma sociedade organizada existe sem arrecadação. Saúde, educação, segurança, infraestrutura, Justiça, políticas públicas e funcionamento institucional precisam ser financiados.


A questão correta não é: “Devemos pagar impostos?


E sim: “Qual é o limite economicamente saudável entre aquilo que o Estado arrecada e aquilo que precisa permanecer com quem produz, investe, emprega e consome?


Porque existe um ponto a partir do qual aumentar a pressão sobre o setor produtivo deixa de significar simplesmente aumentar arrecadação. Pode significar reduzir investimento, postergar contratações, elevar preços, diminuir margens e aumentar endividamento.


Pessoa jurídica e pessoa física: dois lados do mesmo Avilan


O mesmo raciocínio alcança as famílias.


Quando o orçamento doméstico deixa de ser suficiente para acomodar despesas, compromissos financeiros e tributos, o cidadão passa a utilizar cheque especial, cartão, parcelamentos ou empréstimos para reorganizar o fluxo de caixa.


A mecânica muda; a essência permanece.


No caso da empresa, falta capital de giro.


No caso da família, falta renda disponível.


Nos dois casos, entra o crédito.


E existe uma enorme diferença entre tomar crédito para construir patrimônio e tomar crédito para pagar obrigações recorrentes.


No primeiro caso, a dívida pode financiar riqueza futura.


No segundo, frequentemente apenas transfere o problema no tempo — acrescentando juros.


A extraordinária atualidade de “Que Rei Sou Eu?


Quando a novela estreou, o Brasil vivia uma sucessão de experiências econômicas e monetárias. O Plano Cruzado havia sido lançado em 1986 e, em janeiro de 1989, apenas um mês antes da estreia da novela, o Cruzado foi substituído pelo Cruzado Novo. A trama ironizou exatamente esse ambiente: em Avilan, a moeda chamada “caduco” foi substituída pelo “duca”, com a retirada de três zeros. (Memória Globo⁠)


O humor funcionava porque o brasileiro reconhecia imediatamente a referência.


Cassiano Gabus Mendes utilizou um reino europeu fictício do século XVIII para falar do Brasil do século XX.


Talvez hoje pudéssemos utilizar o Brasil do século XXI para escrever uma nova temporada de Avilan.


Não precisaríamos sequer de um conselheiro dos Mares em um país sem mar. Bastaria imaginar um reino no qual cidadãos e empresários recorressem aos bancos para conseguir dinheiro suficiente para pagar ao próprio reino.


O roteirista provavelmente seria acusado de exagerar.


O problema não é apenas tributário. É estrutural.


Reduzir toda essa discussão simplesmente à frase “o Brasil cobra impostos demais” seria intelectualmente pobre.


O verdadeiro debate envolve carga tributária, complexidade, eficiência do gasto público, produtividade, juros, segurança jurídica, burocracia, custo de capital e retorno oferecido à sociedade pelos recursos arrecadados.


Um país desenvolvido não é necessariamente aquele que cobra pouco imposto.


É aquele em que existe uma relação minimamente compreensível entre arrecadação, eficiência do Estado, qualidade dos serviços públicos e capacidade produtiva da sociedade.


Quando essa percepção se rompe, nasce um problema que não cabe apenas nas planilhas da Receita ou dos departamentos financeiros.


Nasce uma crise de confiança.


O cidadão começa a perguntar não apenas quanto paga, mas o que recebe.


O empresário começa a perguntar não apenas quanto deve recolher, mas quanto ainda lhe resta para investir.


E ambos começam a perguntar até que ponto trabalham para construir seu próprio futuro e até que ponto trabalham simplesmente para sustentar a máquina que deveria servi-los.


Quem sustenta quem?


Essa talvez seja a pergunta central.


O Estado existe porque existe uma sociedade produtiva capaz de financiá-lo. Empresas não existem para sustentar governos; governos existem, entre outras funções, para criar condições institucionais para que cidadãos e empresas possam produzir, trabalhar, investir e prosperar.


Quando essa relação se desequilibra, ocorre uma inversão perigosa.


O Estado deixa de parecer uma estrutura financiada pela sociedade e começa a ser percebido como uma estrutura que consome progressivamente a capacidade financeira da própria sociedade que o sustenta.


E se pessoas e empresas precisam recorrer ao endividamento para manter suas obrigações com essa estrutura, temos algo que merece muito mais do que uma discussão tributária.


Temos uma discussão sobre o modelo de país.


De Avilan ao Brasil


Em 1989, Que Rei Sou Eu? utilizava o passado para satirizar o presente. Era uma novela de época apenas na aparência. Por trás dos castelos, figurinos e carruagens estava o Brasil olhando para si mesmo.


Na cena final, a metáfora praticamente desapareceu. Jean Pierre se dirige ao povo e a referência deixa de ser apenas ao fictício reino de Avilan: surge explicitamente o Brasil. (Memória Globo⁠)


Talvez essa seja a razão pela qual a novela permaneça tão provocadora décadas depois.


Porque governos passam.


Moedas mudam.


Planos econômicos recebem novos nomes.


Sistemas tributários são reformados.


Tecnologias substituem papéis por algoritmos.


Mas algumas perguntas sobrevivem.


E diante de um Brasil em que uma pessoa física ou jurídica pode chegar ao ponto de tomar dinheiro emprestado para conseguir pagar suas obrigações com o Estado, talvez Cassiano Gabus Mendes ainda nos obrigasse a olhar para Avilan e perguntar:


Quem é o rei?


Quem é o súdito?


Quem trabalha para quem?


E, sobretudo: Que rei somos nós?

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