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O brasileiro parou de atender o telefone — e isso deveria nos assustar

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 1 dia
7 min de leitura

Durante décadas, o telefone tocava e alguém atendia.


Era quase automático.


Poderia ser um familiar, um cliente, uma empresa, uma oportunidade de trabalho, uma emergência. O toque do telefone significava simplesmente que alguém queria falar conosco.


Hoje, no Brasil, acontece algo completamente diferente.


O telefone toca, o brasileiro olha para a tela, vê um número desconhecido e pensa: “É golpe.


Essa mudança aparentemente banal revela algo muito maior. Estamos diante de uma deterioração silenciosa da confiança entre pessoas, empresas e instituições. O telefone, uma das ferramentas mais importantes de comunicação já inventadas, tornou-se para milhões de brasileiros um objeto de suspeita.


E os números ajudam a explicar por quê.


Uma máquina de ligações


O Brasil recebe mais de 1 bilhão de ligações abusivas por mês, segundo estudo divulgado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em 2026.


Entre junho de 2022 e dezembro de 2024, foram aproximadamente 743 chamadas abusivas por habitante no país.


Em 2025, o cenário atingiu uma escala ainda mais impressionante: foram registradas 161,16 bilhões de chamadas de curta duração, aquelas com até seis segundos. Segundo o levantamento, muitas são realizadas automaticamente para verificar se determinado número existe e se alguém atende.


Mesmo com mecanismos regulatórios de bloqueio, aproximadamente 24,1 bilhões dessas chamadas chegaram aos consumidores.


O Idec aponta ainda que 92% das pessoas que recebem ligações abusivas não possuem relação com as empresas responsáveis pelo contato.


Não estamos mais falando simplesmente de vendedores insistentes.


Estamos falando de uma infraestrutura gigantesca de chamadas automáticas, telemarketing, validação de números, cobranças e, misturadas a tudo isso, tentativas de fraude.


A própria Anatel reconhece que entre as origens das chamadas abusivas estão não apenas ofertas legítimas, mas também sistemas destinados a identificar números ativos e práticas ilegais, como golpes e fraudes.


O problema é que, para quem recebe a ligação, todas essas categorias chegam exatamente pelo mesmo caminho: o telefone toca.


34 bilhões de tentativas de golpe


Quando ampliamos a análise para o universo digital, a dimensão se torna ainda mais perturbadora.


O relatório O Estado dos Golpes no Brasil 2026, da Global Anti-Scam Alliance (GASA), estimou aproximadamente 34 bilhões de tentativas de golpes contra brasileiros entre março de 2025 e fevereiro de 2026.


Isso representa uma média de aproximadamente 201,6 tentativas de fraude por adulto brasileiro em apenas doze meses.


É uma tentativa a cada aproximadamente 44 horas.


Evidentemente, isso não significa que cada brasileiro receba uma ligação fraudulenta a cada 44 horas. O levantamento engloba diferentes canais digitais.


Mas justamente aí está o problema.


O golpe deixou de morar em um único lugar.


Ele está no telefone.


Está no SMS.


Está no WhatsApp.


Está no e-mail.


Está nas redes sociais.


Está no falso anúncio.


Está no falso investimento.


Está no falso boleto.


Está no falso funcionário.


Está no falso gerente do banco.


O crime aprendeu a ser omnichannel antes de muitas empresas.


O golpe aprendeu a conversar


Talvez a transformação mais preocupante não esteja na quantidade, mas na qualidade dessas fraudes.


Segundo levantamento divulgado em agosto de 2026, 40% dos indícios de fraudes financeiras no Brasil já envolvem engenharia social.


Somente no primeiro semestre de 2026 foram identificados mais de 9 milhões de indícios de fraude, entre ocorrências suspeitas e confirmadas. Mais de 3,6 milhões estavam relacionados à engenharia social.


É importante compreender o significado disso.


Engenharia social significa atacar o ser humano.


O criminoso não precisa necessariamente quebrar a criptografia do banco.


Ele precisa convencer você a abrir a porta.


Por isso existem falsas centrais de atendimento, falsos funcionários de bancos, falsos departamentos de segurança e até criminosos simulando operações policiais.


O Banco Central alerta especificamente para as chamadas de falsas centrais de atendimento, nas quais criminosos se apresentam como funcionários de instituições financeiras e convencem a vítima a entrar no aplicativo bancário, clicar em links, instalar programas ou realizar operações supostamente destinadas a cancelar uma fraude.


A ironia é cruel: o golpista liga dizendo que quer protegê-lo de um golpista.


Quando ninguém mais acredita em ninguém


É aqui que surge uma consequência pouco discutida.


O prejuízo provocado pela fraude não termina quando alguém perde dinheiro.


Existe um segundo prejuízo, coletivo e muito mais difícil de calcular: a destruição da confiança.


Quando milhões de pessoas são submetidas continuamente a ligações abusivas e tentativas de fraude, o comportamento social começa a mudar.


O desconhecido deixa de ser apenas desconhecido.


Ele passa a ser considerado potencialmente perigoso.


Número desconhecido?


Não atenda.


SMS do banco?


Desconfie.


WhatsApp de uma empresa?


Pode ser golpe.


E-mail solicitando confirmação?


Não clique.


Ligação dizendo ser da operadora?


Desligue.


O comportamento é racional do ponto de vista individual. Diante da quantidade de fraudes existentes, desconfiar passou a ser um mecanismo de defesa.


Mas existe uma consequência paradoxal.


Para nos protegermos dos criminosos, estamos tornando cada vez mais difícil a comunicação entre pessoas legítimas.


O telefone perdeu seu contrato social


Existe algo chamado confiança implícita.


Quando utilizamos determinados sistemas, partimos do princípio de que a maioria das interações é legítima.


Uma pessoa entra em um elevador sem imaginar que alguém adulterou seus cabos.


Compra um medicamento presumindo que aquilo que está escrito na embalagem corresponde ao que existe dentro dela.


Atende uma ligação acreditando que a pessoa do outro lado provavelmente é quem diz ser.


Quando essa confiança desaparece, o sistema continua existindo fisicamente, mas perde parte de sua utilidade.


É exatamente isso que estamos fazendo com o telefone.


O aparelho continua funcionando perfeitamente.


A rede funciona.


As antenas funcionam.


As chamadas chegam.


Mas o ser humano decidiu não atender.


A tecnologia não quebrou. A confiança nela, sim.


O preço invisível


Os golpes também produzem perdas econômicas gigantescas.


O relatório da GASA estima que aproximadamente 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro em golpes no período analisado.


O prejuízo total estimado chegou a R$ 21,2 bilhões, com perda média de aproximadamente R$ 1.287 por vítima.


Mas talvez nem esses números capturem todo o dano.


Existe o empresário que tenta ligar para um cliente e não consegue.


O médico cujo paciente ignora uma chamada.


A empresa tentando falar com um candidato.


O banco tentando alertar sobre uma movimentação verdadeira.


O entregador tentando localizar o destinatário.


O vendedor tentando falar com seu cliente.


O familiar ligando de um telefone diferente.


A ligação legítima passa a carregar o custo reputacional produzido pela ligação criminosa.


É uma espécie de imposto invisível da fraude sobre toda a sociedade.


A fraude está contaminando a economia da confiança


Toda economia moderna depende de confiança.


Contratos dependem dela.


Crédito depende dela.


Comércio eletrônico depende dela.


Sistema bancário depende dela.


Relacionamento entre marcas e consumidores depende dela.


Quando o cidadão passa a pressupor que qualquer comunicação inesperada pode representar uma tentativa de roubo, surge uma sociedade permanentemente defensiva.


E existem sinais concretos dessa realidade.


Pesquisa divulgada em agosto de 2026 apontou que aproximadamente 45 milhões de usuários de internet brasileiros com 16 anos ou mais — cerca de 32% do total pesquisado — relataram tentativas de golpe envolvendo seus dados pessoais.


Entre eles, 20% afirmaram ter sido efetivamente vítimas.


Não estamos mais discutindo episódios isolados.


Estamos discutindo escala social.


A tecnologia tornou o crime industrial


Durante muito tempo, aplicar um golpe exigia tempo.


O criminoso precisava abordar uma vítima.


Conversar.


Convencer.


Tentar novamente.


A automação mudou essa matemática.


Agora sistemas podem realizar milhares ou milhões de contatos.


Bases de dados podem ser cruzadas.


Robôs podem verificar números ativos.


Mensagens podem ser disparadas automaticamente.


Vozes podem ser sintetizadas.


Imagens podem ser manipuladas.


Identidades podem ser reproduzidas.


Inteligência artificial pode produzir mensagens extremamente convincentes em segundos.


O custo marginal de tentar enganar mais uma pessoa aproxima-se de zero.


E isso cria uma assimetria perigosa.


O criminoso pode errar 10 mil vezes.


Ele precisa acertar apenas algumas.


Quem paga essa conta?


Existe uma tendência confortável de atribuir a responsabilidade exclusivamente à vítima.


Não deveria ter clicado.


Não deveria ter passado a senha.


Não deveria ter acreditado.


Não deveria ter atendido.


É uma maneira conveniente de simplificar um problema estrutural.


Evidentemente, educação digital é indispensável.


Mas não podemos construir um sistema financeiro e de telecomunicações sofisticado e depois colocar sobre uma senhora de 75 anos a responsabilidade integral de identificar uma operação criminosa desenvolvida profissionalmente para manipulá-la.


Operadoras têm responsabilidade.


Instituições financeiras têm responsabilidade.


Plataformas digitais têm responsabilidade.


Empresas de tecnologia têm responsabilidade.


Reguladores têm responsabilidade.


O Estado tem responsabilidade.


E nós, consumidores, também temos responsabilidade.


Segurança precisa ser uma arquitetura, não uma cartilha entregue à vítima depois do golpe.


O Brasil criou uma sociedade que desconfia do toque do telefone


Talvez daqui a alguns anos olhemos para esse período e percebamos que aconteceu algo sociologicamente importante.


Uma tecnologia criada para aproximar pessoas passou a provocar ansiedade.


Um telefone tocando deveria significar: “Alguém quer falar comigo.


Passou a significar: “Alguém quer me vender alguma coisa.


Depois: “Algum robô encontrou meu número.


E finalmente: “Alguém pode estar tentando me roubar.


Essa transformação não aconteceu de um dia para o outro.


Foi construída ligação após ligação.


SMS após SMS.


Golpe após golpe.


Bilhões de vezes.


O crime roubou algo que não aparece no extrato bancário


Os R$ 21,2 bilhões estimados em prejuízos financeiros são mensuráveis.


É possível contabilizá-los.


Existe, porém, um patrimônio que não aparece em nenhum balanço: a confiança social.


Quanto vale poder atender tranquilamente uma ligação?


Quanto vale acreditar que uma mensagem enviada pelo seu banco realmente veio do seu banco?


Quanto vale uma empresa conseguir conversar com seus clientes sem precisar primeiro provar que não é criminosa?


Quanto vale uma sociedade na qual o primeiro reflexo diante de um desconhecido não seja desconfiar?


Não sabemos colocar esse valor em uma planilha.


Mas estamos descobrindo o preço de perdê-lo.


O Brasil chegou a um ponto em que milhões de pessoas desenvolveram um mecanismo simples de sobrevivência digital: não atender. Não clicar. Não acreditar.


Individualmente, talvez seja prudência.


Coletivamente, é um alerta.


Porque uma sociedade não funciona apenas com tecnologia, leis, bancos, empresas e sistemas de segurança.


Ela funciona porque, em algum nível, ainda acreditamos uns nos outros.


E quando o crime consegue destruir essa confiança sem sequer precisar roubar nosso dinheiro, talvez tenha conseguido algo ainda mais grave.


Transformou a desconfiança em comportamento padrão.


O telefone continua tocando.


A pergunta é: até quando haverá alguém disposto a atender?


Os números centrais usados na tese são sustentados por levantamentos recentes: o Idec aponta mais de 1 bilhão de chamadas abusivas mensais e 161,16 bilhões de chamadas curtas em 2025; a Anatel inclui golpes e fraudes entre as origens das chamadas abusivas.


Já o relatório O Estado dos Golpes no Brasil 2026 estima cerca de 34 bilhões de tentativas, 201,6 abordagens por adulto, 16,5 milhões de pessoas com perdas financeiras e aproximadamente R$ 21,2 bilhões de prejuízo.  A dimensão da engenharia social40% dos indícios de fraude financeira — vem de levantamento da Quod divulgado pela Agência Brasil.


Se bilhões de chamadas abusivas utilizam uma infraestrutura comercial de telecomunicações, quem paga para originá-las, quem recebe por transportá-las e terminá-las e quanto dinheiro esse gigantesco tráfego movimenta?

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