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O Mundo Jaz no Maligno: Quando o Mal Deixa de Chocar e Passa a Fazer Parte do Sistema

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 8 de ago.
  • 4 min de leitura

(…) e que o mundo inteiro jaz no maligno.” — 1 João 5:19


frases bíblicas que atravessam séculos sem perder sua capacidade de confrontar a realidade. “O mundo jaz no maligno” é uma delas. À primeira leitura, pode parecer uma afirmação exclusivamente religiosa, destinada a explicar espiritualmente a existência do mal. Entretanto, quando observamos com atenção o comportamento humano, as relações de poder, as instituições e a transformação dos valores sociais, percebemos que essa declaração contém também uma profunda reflexão sobre a natureza humana e sobre os sistemas que construímos.


O texto não diz simplesmente que existe maldade no mundo. A palavra “jaz” transmite uma condição mais profunda: algo que permanece, repousa ou se encontra submetido a determinada realidade. Sob essa perspectiva, o problema não está apenas nos atos extraordinariamente perversos que eventualmente chocam a sociedade. Está também na capacidade humana de normalizar aquilo que deveria causar indignação.


Talvez essa seja uma das manifestações mais perigosas do mal: quando ele deixa de parecer mal.


Quando a mentira recebe o nome de estratégia, a manipulação passa a ser chamada de inteligência. Quando a ganância é apresentada como ambição saudável, a exploração pode ser confundida com eficiência. Quando princípios são flexibilizados conforme a conveniência, o oportunismo passa a vestir a roupa do pragmatismo.


E assim acontece uma transformação silenciosa.


O mal raramente precisa apresentar-se anunciando sua verdadeira identidade. Muitas vezes ele prospera justamente porque aprende a utilizar palavras aceitáveis, justificativas sofisticadas e narrativas moralmente confortáveis.


Hannah Arendt, ao desenvolver sua reflexão sobre a chamadabanalidade do mal”, trouxe uma provocação importante para o pensamento contemporâneo: grandes estruturas de injustiça não dependem necessariamente de indivíduos que se percebam como monstruosos. Elas também podem funcionar por meio da obediência, da ausência de reflexão crítica, da burocratização das responsabilidades e da transferência permanente da culpa.


É justamente nesse ponto que a advertência bíblica ganha enorme atualidade.


Uma sociedade não começa a se deteriorar apenas quando pessoas deliberadamente perversas assumem posições de influência. Ela começa a se deteriorar quando pessoas comuns deixam de questionar aquilo que sabem estar errado.


Quando o silêncio se torna mais conveniente do que a verdade.


Quando pertencer ao grupo se torna mais importante do que preservar a consciência.


Quando defender uma ideologia, uma empresa, uma instituição, uma liderança ou um interesse pessoal passa a justificar comportamentos que seriam condenados se fossem praticados pelo adversário.


Nesse momento surge uma das formas mais sofisticadas de corrupção moral: a moral seletiva.


O indivíduo deixa de perguntarisso é certo?” e passa a perguntar “quem fez?”.


Se foi alguém do meu grupo, encontro justificativas. Se foi alguém do grupo adversário, encontro condenações.


A verdade deixa de ser princípio e transforma-se em instrumento.


Esse fenômeno pode ser observado na política, nas empresas, nas redes sociais, nas relações pessoais e até mesmo dentro das instituições religiosas. Afinal, nenhuma organização humana está automaticamente protegida contra aquilo que existe no próprio coração humano.


E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais desconfortável da afirmação “o mundo jaz no maligno”.


É relativamente fácil identificar o mal fora de nós.


Difícil é reconhecer sua possibilidade dentro de nós.


Podemos denunciar corrupção e sermos desonestos em pequenas situações. Podemos exigir transparência dos governantes e manipular informações quando nos beneficia. Podemos condenar intolerância enquanto tratamos com desprezo quem pensa diferente. Podemos defender justiça enquanto somos extremamente indulgentes com nossos próprios erros.


Por isso, a mensagem cristã não permite que essa passagem seja utilizada apenas como uma acusação contra “o mundo.


Ela exige introspecção.


Existe ainda outra distinção fundamental: dizer que “o mundo jaz no maligno” não significa afirmar que o maligno seja soberano. Na cosmovisão cristã, influência não significa soberania. O mal pode ocupar espaços, seduzir consciências, contaminar sistemas e atravessar gerações, mas não possui a palavra final.


Essa diferença impede dois erros igualmente perigosos.


O primeiro é a ingenuidade: imaginar que todo ser humano é naturalmente bom e que estruturas sociais serão automaticamente justas apenas porque foram criadas com boas intenções.


O segundo é o fatalismo: acreditar que, diante da presença do mal, nada pode ser transformado.


O cristianismo rejeita ambos.


Reconhece a profundidade da corrupção humana, mas simultaneamente convoca o indivíduo à responsabilidade, ao arrependimento, à justiça, à misericórdia e à transformação.


Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja simplesmente:


Por que o mundo jaz no maligno?


Talvez seja:


Como devo viver sabendo que o mundo jaz no maligno?


Porque não basta identificar as trevas.


É preciso decidir não reproduzi-las.


Não basta denunciar sistemas corruptos enquanto repetimos seus comportamentos em escala menor.


Não basta exigir integridade dos líderes enquanto negociamos nossos próprios princípios quando ninguém está olhando.


O verdadeiro confronto entre luz e trevas começa muito antes das grandes estruturas políticas, econômicas ou sociais.


Começa na consciência.


Começa nas pequenas escolhas.


Começa quando ninguém está observando.


Talvez o maior triunfo do mal não aconteça quando conseguimos enxergá-lo claramente, mas quando ele consegue nos convencer de que determinadas concessões são normais, inevitáveis ou necessárias.


É por isso que discernimento continua sendo uma das virtudes mais importantes do nosso tempo.


Porque quando o mal deixa de nos causar estranhamento, ele já conquistou um território muito mais perigoso do que qualquer instituição: a nossa consciência.


Uma pergunta bem mais incômoda: “quais comportamentos estamos normalizando?

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