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O Brasil que Compra Livros Não é Necessariamente o Brasil que Lê

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
17 de ago.
9 min de leitura

O paradoxo de um país em que o mercado editorial cresce enquanto o hábito da leitura encolhe


números que, quando observados isoladamente, parecem contar histórias completamente diferentes sobre o mesmo país. De um lado, os dados mais recentes do mercado editorial brasileiro mostram recuperação: mais pessoas voltaram a comprar livros, editoras aumentaram suas vendas e o setor registra crescimento. De outro, a principal pesquisa nacional sobre hábitos de leitura revela uma realidade muito menos confortável: pela primeira vez na série histórica, os brasileiros classificados como não leitores tornaram-se maioria da população.


Não há necessariamente contradição entre essas informações. O que existe é algo talvez ainda mais importante: comprar livros e possuir hábito de leitura são fenômenos diferentes.


Essa diferença ajuda a compreender um problema estrutural brasileiro que ultrapassa editoras, livrarias e bibliotecas. Estamos diante de uma questão educacional, econômica, comportamental e cultural: o Brasil consegue produzir crianças relativamente próximas dos livros, mas demonstra enorme dificuldade para transformá-las em adultos leitores.


A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024, considera leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Segundo o levantamento, apenas 47% da população brasileira com cinco anos ou mais poderia ser classificada como leitora, enquanto 53% não havia lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. Foi a primeira vez na série histórica em que os não leitores constituíram maioria. (Fundação Itaú⁠)


Quando restringimos ainda mais o critério, o cenário fica mais contundente: somente 27% dos brasileiros haviam lido pelo menos um livro inteiro nos três meses anteriores à pesquisa. Entre aqueles classificados como leitores, a média foi de 4,36 livros no período. (Fundação Itaú⁠)


Não estamos, portanto, discutindo simplesmente se o brasileiro gosta ou não gosta de livros. Estamos diante de algo mais profundo: a leitura perdeu espaço dentro da arquitetura cotidiana da sociedade brasileira.


A criança que lê e o adulto que deixa de ler


Talvez um dos aspectos mais reveladores dessa fotografia esteja na idade.


Crianças e adolescentes ainda apresentam índices proporcionalmente melhores de leitura do que boa parte da população adulta. Isso possui uma explicação relativamente evidente: durante a infância e a adolescência existem instituições — especialmente família e escola — capazes de introduzir o livro na rotina.


O problema começa quando essa estrutura desaparece.


A escola estabelece horários, professores indicam obras, avaliações exigem leitura e bibliotecas estão relativamente próximas. Quando termina a educação formal, grande parte dessas estruturas de incentivo desaparece. O indivíduo entra em uma realidade dominada por trabalho, deslocamentos, responsabilidades familiares, entretenimento digital e incontáveis estímulos disputando os mesmos minutos do dia.


A leitura, que deveria ter se transformado em hábito, permanece para muitos apenas como uma obrigação escolar.


Isso produz uma espécie de evaporação do leitor.


O Brasil não sofre apenas para ensinar alguém a decodificar palavras. Sofre principalmente para converter alfabetização em cultura permanente de leitura.


Existe uma diferença gigantesca entre saber ler e ser leitor.


Uma pessoa pode possuir plena capacidade técnica para ler e, ainda assim, atravessar meses ou anos sem concluir um livro. Nesse sentido, a alfabetização é apenas a infraestrutura. O hábito é a utilização dessa infraestrutura.


E talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores falhas brasileiras.


O concorrente do livro deixou de ser outro livro


Durante décadas, quando se discutia a queda da leitura, era comum responsabilizar televisão, falta de bibliotecas, preço dos livros ou deficiências educacionais.


Esses fatores continuam relevantes.


Mas o ambiente contemporâneo adicionou um adversário incomparavelmente mais sofisticado: a economia da atenção.


O livro disputa hoje o mesmo recurso escasso utilizado por Instagram, TikTok, YouTube, streaming, jogos, WhatsApp, notícias, podcasts e inúmeras plataformas desenvolvidas para maximizar permanência e recorrência.


A competição deixou de acontecer entre diferentes formas de literatura.


A verdadeira competição tornou-se: leitura profunda versus estímulo permanente.


Um livro exige algo que o ambiente digital contemporâneo progressivamente nos treina a oferecer menos: continuidade de atenção.


Virar cinquenta páginas exige permanência.


Um feed exige apenas um movimento do dedo.


Em poucos segundos, uma rede social pode entregar humor, indignação, beleza, sexo, política, futebol, tragédia, gastronomia, dinheiro e entretenimento. Tudo individualizado por algoritmos que aprendem continuamente quais estímulos têm maior probabilidade de capturar cada usuário.


Um livro permanece parado.


Ele não vibra.


Não envia notificações.


Não troca sua primeira página quando percebe que o leitor está perdendo o interesse.


Essa aparente fragilidade é, ironicamente, uma das maiores virtudes da leitura. O livro exige que o indivíduo participe ativamente do processo intelectual.


A leitura como exercício cognitivo


Ao assistir a uma imagem pronta, grande parte da representação visual já foi construída.


Ao ler: “Puma velha casa abandonada no final de uma rua escura”, cada leitor precisa construir mentalmente aquela casa.


Qual tamanho?


Qual arquitetura?


Qual iluminação?


Como é a rua?


Que sensação aquele lugar provoca?


A leitura exige interpretação, memória, associação, imaginação e construção de significado.


Por isso, quando uma sociedade reduz sua relação com textos longos, o problema não deveria ser tratado exclusivamente como uma crise do mercado editorial.


É também uma discussão sobre profundidade cognitiva.


Uma sociedade capaz de consumir toneladas de informação não necessariamente se transforma em uma sociedade bem informada.


Informação não é conhecimento.


Conhecimento não é compreensão.


E compreensão não significa necessariamente sabedoria.


O ambiente digital tornou o acesso à informação quase ilimitado, porém multiplicou simultaneamente a fragmentação da atenção.


Podemos saber um pouco sobre milhares de assuntos e compreender profundamente pouquíssimos.


O paradoxo: menos leitores, mais compradores


É justamente nesse ponto que os números recentes do setor editorial brasileiro se tornam particularmente interessantes.


Enquanto a Retratos da Leitura identificava a redução estrutural do hábito, a pesquisa Panorama do Consumo de Livros mostrou que 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou pelo menos um livro em 2025, contra 16% em 2024.


Isso representa aproximadamente 3 milhões de novos consumidores de livros em apenas um ano. (Câmara Brasileira do Livro⁠)


As editoras também registraram melhora.


Em 2025, venderam ao mercado 6,5% mais exemplares do que em 2024. O faturamento alcançou aproximadamente R$ 4,5 bilhões, representando crescimento nominal de 7,7% e crescimento real de 3,3%, já descontada a inflação. (Snel⁠)


O desempenho positivo continuou no início de 2026. No acumulado informado pelo SNEL em junho, o setor apresentava crescimento de 11,8% em volume e 12,3% em faturamento em comparação com o mesmo período de 2025. (Snel⁠)


A conclusão precipitada seria afirmar: “O brasileiro voltou a ler.


Os dados não permitem afirmar isso.


Permitem afirmar que o brasileiro voltou a comprar mais livros.


É uma diferença fundamental.


Comprar não significa necessariamente ler


Livros possuem uma característica peculiar entre os produtos culturais: muitas vezes sua aquisição contém também um elemento aspiracional.


Compramos aquilo que somos.


Mas também compramos aquilo que gostaríamos de ser.


Uma pessoa compra tênis porque corre.


Outra compra porque gostaria de começar a correr.


Com livros acontece algo semelhante.


Uma biblioteca doméstica pode representar conhecimento efetivamente adquirido, mas também intenção de conhecimento.


Quem nunca comprou um livro dizendo: “Vou ler assim que tiver tempo?


O mercado registra a venda imediatamente.


A cultura recebe o benefício somente quando o livro é aberto, lido, interpretado e incorporado ao pensamento.


Essa diferença ajuda a explicar como podemos ter simultaneamente recuperação do setor editorial e redução histórica do percentual de leitores.


Não é paradoxal.


É perfeitamente possível.


Um grupo menor de leitores pode comprar mais livros.


Pessoas podem adquirir livros e não concluí-los.


Livros podem ser presentes.


Podem ser adquiridos para estudo pontual.


Podem participar de fenômenos comerciais específicos.


Pode haver maior concentração de consumo entre determinados segmentos da população.


O faturamento da indústria mede transações.


O hábito da leitura mede comportamento.


São fotografias diferentes.


Renda importa — mas não explica tudo


Existe também uma dimensão socioeconômica impossível de ignorar.


O acesso ao livro depende de renda, escolaridade, proximidade de livrarias e bibliotecas, qualidade educacional e ambiente familiar.


Por isso, grupos de maior renda possuem, em geral, maior capacidade de compra.


Mas seria intelectualmente confortável demais concluir que o brasileiro não lê simplesmente porque o livro é caro.


O preço é uma barreira real para milhões.


Porém não explica sozinho a dimensão do fenômeno.


Bibliotecas públicas existem.


obras em domínio público.


Livros digitais reduziram drasticamente determinados custos de distribuição.


Bibliotecas digitais e modelos de assinatura ampliaram alternativas de acesso.


Em 2025, inclusive, o mercado brasileiro de conteúdo digital continuou avançando, reforçando que o livro já não depende exclusivamente do formato físico.


Portanto, a discussão precisa incluir não apenas acesso ao livro, mas também desejo pela leitura.


Uma sociedade pode democratizar a disponibilidade de livros sem necessariamente produzir leitores.


O verdadeiro desafio cultural é transformar acesso em hábito.


A escolaridade deveria proteger a leitura. Nem sempre protege


Seria intuitivo imaginar que anos adicionais de estudo necessariamente produzissem leitores permanentes.


Não necessariamente.


O sistema educacional brasileiro ainda possui forte tradição de apresentar a leitura como instrumento de avaliação.


Lê-se para responder questões.


Lê-se para fazer prova.


Lê-se para produzir trabalho.


Lê-se para passar no vestibular.


Tudo isso possui função pedagógica legítima.


Mas existe um efeito colateral quando o aluno passa anos associando livro exclusivamente à obrigação.


Quando termina a prova, termina a razão para ler.


Talvez precisemos recuperar uma ideia muito mais elementar: ler também deveria ser prazer.


Curiosidade.


Descoberta.


Provocação.


Discordância.


Entretenimento.


Transformação.


Não existe sociedade leitora sustentável quando o livro é apresentado apenas como ferramenta escolar.


As redes sociais não acabaram com a leitura — mudaram a leitura


Existe ainda uma ironia interessante.


Talvez nunca tenhamos lido tantas palavras ao longo de um dia.


Mensagens.


Legendas.


Comentários.


Notícias.


E-mails.


Posts.


Threads.


Notificações.


Pesquisas.


Prompts de inteligência artificial.


O problema não está simplesmente na quantidade de palavras.


Está na estrutura dessa leitura.


Grande parte dela acontece em blocos extremamente pequenos, interrompidos e desconectados.


O cérebro passa continuamente de um contexto para outro.


Mensagem.


Vídeo.


Notícia.


Publicidade.


Outra mensagem.


Outro vídeo.


Outro assunto.


Essa dinâmica favorece velocidade, mas pode desestimular permanência.


O livro percorre a direção oposta.


Ele exige que durante vinte, cinquenta ou trezentas páginas permaneçamos dentro de uma mesma arquitetura de pensamento.


Talvez por isso a leitura longa esteja se tornando uma espécie de resistência intelectual neste século.


E a inteligência artificial?


A inteligência artificial provavelmente tornará essa discussão ainda mais complexa.


Nunca foi tão fácil obter um resumo de um livro sem lê-lo.


É possível pedir:


resuma esta obra em dez tópicos”.


explique o argumento central”.


extraia cinco ideias principais”.


compare este autor com aquele”.


Isso é extraordinariamente útil.


Mas existe uma diferença entre receber uma conclusão e percorrer o raciocínio que levou até ela.


Um resumo de Dostoiévski não é Dostoiévski.


Um resumo de Machado de Assis não reproduz sua ironia.


Um resumo de Nietzsche não substitui o confronto com Nietzsche.


Um resumo entrega destinos.


O livro oferece caminhos.


E, intelectualmente, muitas vezes é exatamente durante o caminho que alguma transformação acontece.


A inteligência artificial pode tornar leitores melhores quando utilizada como instrumento complementar.


Mas também poderá criar uma geração extremamente eficiente em obter conclusões sem necessariamente possuir paciência para construir compreensão.


O problema, novamente, não estará na tecnologia.


Estará em como decidirmos utilizá-la.


O verdadeiro risco não é vender menos livros


Existe uma tentação natural do mercado editorial de medir sua saúde principalmente pelo faturamento.


Compreensível.


Editoras precisam sobreviver.


Livrarias precisam vender.


Autores precisam receber.


Empregos dependem dessa cadeia.


Entretanto, para uma sociedade, o indicador mais importante não deveria ser quantos livros foram vendidos.


Deveria ser: quantas pessoas efetivamente leem?


Porque existe algo mais relevante acontecendo por trás dessas estatísticas.


Uma população pouco habituada a leituras longas pode apresentar maior dificuldade de acompanhar argumentos complexos.


Pode confundir opinião com evidência.


Pode interpretar slogans como explicações.


Pode reagir emocionalmente antes de compreender racionalmente.


Pode consumir informação sem capacidade suficiente de estabelecer contexto.


E isso possui efeitos econômicos, profissionais, sociais e democráticos.


Uma sociedade de respostas rápidas para problemas complexos


Talvez a questão da leitura brasileira seja parte de algo ainda maior.


Estamos construindo uma sociedade acelerada.


Queremos resumo.


Queremos conclusão.


Queremos vídeo em dois minutos.


Queremos podcast acelerado em 1,5x.


Queremos inteligência artificial respondendo imediatamente.


Queremos aprender rapidamente.


Queremos resultado rapidamente.


Mas existem conhecimentos que se recusam a obedecer à velocidade.


Filosofia demora.


Ciência demora.


História demora.


Estratégia demora.


Autoconhecimento demora.


Compreender outra pessoa demora.


Construir repertório demora.


Talvez o livro continue sendo uma das poucas tecnologias culturais deliberadamente incompatíveis com essa ansiedade.


E talvez exatamente por isso continue sendo necessário.


O desafio brasileiro não é vender livros. É fabricar leitores


O crescimento recente do mercado editorial deve ser comemorado.


Mais compradores representam oportunidades para autores, editoras, livrarias e para toda a economia criativa.


Mas seria perigoso confundir recuperação comercial com transformação cultural.


O Brasil possui hoje dois movimentos ocorrendo simultaneamente: o mercado editorial apresenta sinais de recuperação enquanto a formação estrutural de leitores continua fragilizada.


Esses dois movimentos precisam ser compreendidos separadamente.


Porque podemos perfeitamente construir um mercado saudável economicamente sustentado por uma parcela relativamente pequena da sociedade que compra muitos livros.


Isso seria positivo para a indústria.


Mas insuficiente para o país.


O verdadeiro salto acontece quando leitura deixa de ser consumo eventual e transforma-se em comportamento cotidiano.


Conclusão — o país que queremos ler


Talvez uma das perguntas mais importantes sobre o futuro brasileiro não seja quantas escolas construiremos, quantas universidades abriremos, quantos computadores distribuiremos ou quantos bilhões serão investidos em educação.


Todas essas coisas são importantes.


Mas existe uma pergunta anterior: que tipo de relação desejamos construir entre o brasileiro e o conhecimento?


Porque oferecer informação sem formar curiosidade produz pouco.


Ensinar alfabetização sem cultivar leitura produz pouco.


Distribuir livros sem produzir leitores produz pouco.


E vender livros sem que eles sejam lidos pode produzir excelentes números econômicos, mas resultados culturais bastante modestos.


Os dados recentes deixam uma mensagem aparentemente contraditória, mas extremamente valiosa.


O Brasil está voltando a comprar mais livros.


Isso é uma boa notícia. (Câmara Brasileira do Livro⁠)


Mas ainda não podemos afirmar que o Brasil voltou a ler.


A fotografia mais abrangente disponível continua mostrando apenas 47% de leitores e uma maioria de 53% de não leitores. (Fundação Itaú⁠)


Talvez, portanto, o grande desafio das próximas décadas não seja simplesmente colocar um livro nas mãos de cada brasileiro.


Será criar alguma coisa muito mais difícil: um brasileiro que queira abri-lo.


Porque uma sociedade verdadeiramente leitora não é aquela que possui mais livros nas estantes.


É aquela em que livros deixam marcas nas pessoas.


E talvez exista uma diferença fundamental entre possuir informação e possuir repertório:


informação nos mostra o que está acontecendo.


Leitura nos ajuda a compreender por quê.


E em um mundo que oferece cada vez mais respostas instantâneas, talvez a capacidade mais valiosa continue sendo aquela que nunca admitiu atalhos: a capacidade de pensar.

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