
MacGyver no Brasil: o homem que consertava tudo finalmente encontraria seu maior desafio

Se MacGyver desembarcasse hoje no Brasil com seu famoso canivete suíço, provavelmente seria parado antes mesmo de começar.
Talvez alguém perguntasse se o canivete estava homologado, se possuía nota fiscal, certificado, autorização do órgão competente e reconhecimento de firma.
Depois explicariam que faltava um documento.
Para conseguir esse documento, entretanto, seria necessário apresentar justamente o documento que ele estava tentando conseguir.
MacGyver respiraria fundo.
Bem-vindo ao Brasil.
O personagem que atravessava algumas das situações mais improváveis da televisão utilizando um clipe de papel, fita adesiva e raciocínio lógico finalmente encontraria um adversário à altura: a capacidade brasileira de transformar coisas simples em operações complexas.
E antes que alguém fique ofendido, precisamos reconhecer algo importante.
O brasileiro também é MacGyver.
Talvez até mais.
O brasileiro já acorda improvisando
Existe uma espécie de MacGyver escondido em milhões de casas brasileiras.
É a mãe que olha para o salário e consegue fazer caber aluguel, supermercado, escola, combustível, energia, internet e ainda responde para alguém dentro de casa:
“Calma. Vai dar certo.”
Ela não sabe exatamente como.
Mas dá.
Existe o pequeno empresário que abre a empresa às oito da manhã e, antes do almoço, já foi diretor comercial, vendedor, RH, financeiro, cobrança, logística, atendimento ao cliente e psicólogo de funcionário.
À tarde ele recebe alguma nova obrigação administrativa que desconhecia.
À noite descobre que empreender também exige conhecimentos avançados de sobrevivência.
Existe o trabalhador que perde horas no trânsito.
O estudante que improvisa quando falta estrutura.
O comerciante que enfrenta insegurança.
O motorista que desvia do buraco.
O cidadão que tenta resolver alguma coisa em um órgão público e conhece uma das frases mais tradicionais da cultura brasileira:
“Isso não é aqui.”
Existe sempre outro setor.
Outro telefone.
Outro formulário.
Outra senha.
Outro protocolo.
MacGyver provavelmente começaria a suspeitar que o Brasil foi projetado por alguém que recebia comissão por etapa adicionada.
A primeira pergunta dele seria ofensivamente simples
Depois de observar tudo isso, MacGyver provavelmente perguntaria: “Por que vocês não consertam o que já existe?”
Silêncio constrangedor.
Porque essa pergunta cria um problema sério.
Ela nos obriga a admitir que o Brasil nem sempre sofre por falta de estruturas.
Muitas vezes sofre porque estruturas existentes não funcionam como deveriam.
Criamos programas.
Criamos órgãos.
Criamos regras.
Criamos impostos.
Criamos exceções para as regras.
Depois criamos regras para explicar as exceções.
E quando finalmente ninguém mais entende exatamente como aquilo funciona, contratamos alguém para interpretar.
MacGyver provavelmente pegaria seu canivete.
O problema é que não existe lâmina específica para burocracia.
Ele começaria pela escola
Se tivesse algum bom senso — e tinha bastante — perceberia rapidamente que nenhum país pode ser melhor do que a capacidade das próximas gerações de pensar.
Não estou falando apenas de colocar crianças dentro de salas de aula.
Estou falando de aprender.
Parece um detalhe.
Não é.
Uma criança precisa sair da escola sabendo ler e entender aquilo que leu.
Precisa dominar matemática.
Precisa compreender ciência.
Precisa aprender história.
Precisa distinguir argumento de propaganda.
Precisa saber fazer perguntas.
Principalmente perguntas desconfortáveis.
Porque talvez a ferramenta mais importante para qualquer democracia não seja o título de eleitor.
É a capacidade de perceber quando estão tentando enganar você.
Educação deveria ser tratada como infraestrutura nacional.
Estradas transportam produtos.
Portos transportam mercadorias.
Redes transportam energia.
Escolas transportam gerações inteiras para o futuro.
Quando essa infraestrutura falha, décadas depois fingimos surpresa ao descobrir que a sociedade não consegue interpretar informações, discutir ideias ou separar fatos de narrativas.
Depois MacGyver cometeria um sacrilégio político
Ele perguntaria: “Funcionou?”
É uma pergunta aparentemente inocente.
No Brasil político, entretanto, pode causar sérios problemas familiares.
Porque antes de analisar uma proposta, muitas pessoas querem saber quem propôs.
Foi a esquerda?
Foi a direita?
Foi o governo?
Foi a oposição?
Foi aquele político?
Foi o meu político?
Dependendo da resposta, algumas pessoas já sabem se a ideia é genial ou absurda antes mesmo de saber qual é a ideia.
MacGyver provavelmente acharia isso fascinante.
Ele não perguntaria inicialmente quem criou determinada política pública.
Perguntaria: Quanto custou?
Qual problema deveria resolver?
Resolveu?
Quantas pessoas foram beneficiadas?
Existe alternativa melhor?
Pode melhorar?
Deve continuar?
Porque dinheiro público possui uma característica frequentemente esquecida: ele era dinheiro de alguém antes de virar dinheiro público.
Talvez devêssemos tratá-lo com um pouco mais de carinho.
Então chegaria o momento realmente revolucionário
MacGyver proporia algo quase radical: parar de tratar políticos como celebridades.
Imagine a confusão.
Presidente não seria salvador.
Governador não seria ídolo.
Deputado não seria integrante da família.
Partido não seria religião.
Política não seria clássico de futebol.
Você poderia votar em alguém e depois dizer: “Ele está errado.”
Sem sentir que traiu a própria família.
Poderia também olhar para alguém em quem jamais votaria e admitir: “Nisso ele acertou.”
Provavelmente perderíamos metade das discussões nas redes sociais.
Uma tragédia para os algoritmos.
Mas um avanço considerável para a civilização.
Porque democracia não exige devoção.
Exige fiscalização.
Político não precisa de fã.
Precisa de eleitor atento.
Mas então MacGyver descobriria o verdadeiro problema
Depois de analisar Brasília, governos estaduais, prefeituras, empresas públicas, impostos, burocracias e instituições, provavelmente aconteceria uma cena inesperada.
Ele viraria lentamente para nós.
Sim.
Nós.
Porque é confortável acreditar que existe um lugar chamado “Brasil” completamente separado dos brasileiros.
Como se corrupção, oportunismo, irresponsabilidade e pequenas desonestidades fossem fenômenos exclusivos de gabinetes refrigerados em Brasília.
Mas existe também o pequeno Brasil cotidiano.
O “ninguém está vendo”.
O “todo mundo faz”.
O “é só dessa vez”.
O “eu conheço alguém lá dentro”.
O “se eu não aproveitar, outro aproveita”.
Curiosamente, algumas pessoas condenam com enorme indignação aquilo que fariam em escala menor se tivessem oportunidade.
E aqui o problema fica desagradável.
Porque consertar Brasília parece muito mais fácil quando acreditamos que Brasília é sempre o outro.
É evidente que quem exerce poder público possui responsabilidades muito maiores.
Mas também é verdade que instituições melhores precisam de cidadãos que não aceitem qualquer comportamento apenas porque foi praticado pelo político de sua preferência.
Criticar adversários exige opinião.
Fiscalizar os nossos exige caráter.
O brasileiro precisa deixar de ser MacGyver
Aqui estaria talvez a maior conclusão.
Durante décadas aprendemos a elogiar nossa capacidade de improvisação.
E temos razão.
O brasileiro é extraordinariamente adaptável.
Transforma pouco em muito.
Recomeça.
Empreende.
Cria.
Resolve.
Sobrevive.
Mas existe alguma coisa profundamente errada quando uma população precisa ser extraordinária simplesmente para conseguir viver uma vida ordinária.
Não deveríamos precisar fazer engenharia financeira todos os meses para pagar contas.
Não deveríamos considerar normal perder horas do dia no trânsito.
Não deveríamos precisar conhecer “alguém que conhece alguém” para conseguir resolver determinadas coisas.
Não deveríamos achar impressionante quando uma obra pública simplesmente termina.
Não deveríamos comemorar quando um serviço público simplesmente funciona.
Isso deveria ser normal.
O extraordinário deveria estar reservado para aquilo que realmente é extraordinário.
Talvez nosso maior objetivo nacional devesse ser justamente permitir que o brasileiro deixasse de precisar ser MacGyver todos os dias.
Que pudesse usar sua criatividade para desenvolver uma empresa.
Criar tecnologia.
Fazer ciência.
Produzir cultura.
Projetar cidades.
Construir coisas.
Inventar.
E não gastar uma parcela gigantesca dessa inteligência simplesmente tentando contornar problemas que já deveriam ter sido resolvidos.
E quem vai salvar o Brasil?
Essa talvez seja a pergunta que MacGyver recusaria responder.
Porque nós adoramos salvadores.
De tempos em tempos aparece alguém dizendo que finalmente descobriu como resolver o país.
Curiosamente, geralmente precisa apenas do nosso voto.
Depois precisamos esperar mais quatro anos pela próxima versão do salvador.
MacGyver provavelmente olharia para essa expectativa e diria: “Vocês estão procurando a ferramenta errada.”
Não existe presidente-MacGyver.
Não existe ministro-MacGyver.
Não existe partido-MacGyver.
Não existe ideologia-MacGyver.
E talvez não exista sequer um grande momento histórico no qual alguém aperte um botão e o Brasil finalmente comece a funcionar.
Países são construídos de maneira muito menos emocionante.
Uma criança aprende.
Um professor ensina.
Uma empresa produz.
Um trabalhador prospera.
Uma prefeitura administra.
Uma obra começa e termina.
Um hospital atende.
Um imposto é utilizado corretamente.
Uma política ruim é encerrada.
Uma política boa continua mesmo depois da troca de governo.
Um corrupto é responsabilizado.
Um cidadão fiscaliza.
Parece pouco cinematográfico.
Porque é.
Talvez o canivete nunca tenha sido a solução
No final dessa hipotética aventura brasileira, imagino MacGyver sentado em algum lugar olhando para o país.
Ele colocaria sobre a mesa seu canivete suíço.
E perceberia algo curioso.
As peças necessárias já estavam aqui.
Temos território.
Temos recursos naturais.
Temos universidades.
Temos empresas.
Temos tecnologia.
Temos instituições.
Temos criatividade.
Temos milhões de trabalhadores.
Temos milhões de empreendedores.
Temos gente brilhante.
Talvez nosso maior problema nunca tenha sido ausência de peças.
Talvez seja nossa dificuldade histórica de fazê-las funcionar juntas.
E então MacGyver poderia nos deixar uma última pergunta.
Não: “Quem vai salvar o Brasil?”
Mas: “O que precisamos fazer funcionar para que o Brasil pare de precisar de salvadores?”
Talvez essa pergunta seja menos emocionante.
Não cabe tão bem em palanque.
Não produz um ótimo slogan eleitoral.
E dificilmente viralizaria em trinta segundos.
Mas existe uma possibilidade inconveniente: talvez seja justamente a pergunta certa.
Porque o dia em que o brasileiro não precisar mais ser MacGyver para conseguir estudar, trabalhar, empreender, produzir e simplesmente viver… talvez seja exatamente o dia em que teremos começado a consertar o Brasil.




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