
Como construiremos um mundo melhor?

Atualizado: 31 de ago.
Aí está uma questão que ocupa minha mente e coração
Existe uma expectativa recorrente na história humana: a de que conseguiremos construir um mundo melhor simplesmente aperfeiçoando os sistemas que organizam nossa existência. Criamos novas leis, governos, modelos econômicos, instituições, tecnologias, filosofias e mecanismos de controle acreditando que, finalmente, encontraremos uma estrutura capaz de produzir uma sociedade justa, equilibrada e pacífica.
Entretanto, existe uma variável presente em absolutamente todos esses sistemas que frequentemente tratamos como secundária: o próprio ser humano.
Podemos substituir governos, reformular constituições, modernizar instituições, desenvolver tecnologias extraordinárias e redesenhar completamente as estruturas sociais. Porém, se aquele que administra essas estruturas continuar dominado pela ganância, inveja, orgulho, vaidade, egoísmo, ira, mentira, desejo de poder e necessidade de domínio, apenas teremos sistemas novos operados pelos mesmos conflitos antigos.
Talvez seja justamente por isso que a humanidade seja extraordinariamente eficiente em modernizar suas ferramentas sem conseguir modernizar proporcionalmente sua natureza moral.
Mudamos o cenário.
Mudamos as máquinas.
Mudamos as instituições.
Mudamos as palavras.
Mas continuamos carregando dentro de nós conflitos que atravessam milênios.
O Problema Não está Apenas Fora de Nós
Existe certo conforto intelectual em atribuir o caos exclusivamente aos sistemas.
Se o problema estiver somente no capitalismo, basta substituí-lo. Se estiver exclusivamente no socialismo, basta abandoná-lo. Se estiver no governo, basta trocar os governantes. Se estiver nas instituições, basta reformá-las. Se estiver nas leis, basta escrever novas leis.
Naturalmente, sistemas podem produzir injustiças, governos podem ser corruptos e instituições podem se tornar perversas. Portanto, estruturas precisam ser constantemente avaliadas, corrigidas e aperfeiçoadas.
Mas existe uma pergunta anterior:
Quem constrói essas estruturas?
Seres humanos.
Quem administra o poder?
Seres humanos.
Quem interpreta as leis?
Seres humanos.
Quem movimenta o dinheiro?
Seres humanos.
Quem controla instituições, empresas, governos, famílias, comunidades e até organizações religiosas?
Novamente, seres humanos.
Portanto, quando analisamos profundamente o problema do mundo, inevitavelmente chegamos ao problema do homem.
As Obras da Carne não Dependem de um Sistema Político
Paulo apresenta em Gálatas 5 aquilo que denomina “obras da carne”. Entre elas estão inimizades, discórdias, ciúmes, iras, rivalidades, divisões e invejas.
É interessante perceber que nenhuma dessas manifestações necessita de uma ideologia específica para existir.
Existe inveja entre ricos e pobres.
Existe corrupção na direita e na esquerda.
Existe arrogância entre intelectuais e ignorantes.
Existe egoísmo no capitalismo e no socialismo.
Existe abuso de poder em governos democráticos e autoritários.
Existe hipocrisia dentro e fora das religiões.
Porque aquilo que as Escrituras identificam como problema da carne humana não possui partido, classe social, nacionalidade, escolaridade ou período histórico.
Possui natureza humana.
Essa talvez seja uma das constatações mais desconfortáveis do Evangelho: antes de permitir que apontemos para o mundo, ele coloca um espelho diante de nós.
Cristo não Apresentou uma Reforma Social
É justamente nesse ponto que a mensagem de Cristo se distancia radicalmente de uma simples proposta política, econômica ou filosófica.
Jesus não veio apresentar apenas um novo modelo administrativo para organizar sociedades.
Ele apresentou algo muito mais profundo: a transformação do próprio ser humano.
O Evangelho não começa tentando modificar aquilo que o homem possui ao redor. Ele confronta aquilo que o homem carrega dentro de si.
Cristo fala sobre orgulho, hipocrisia, avareza, perdão, misericórdia, verdade, amor ao próximo, domínio sobre os próprios desejos e até amor aos inimigos.
Ou seja, toca exatamente nas regiões interiores de onde posteriormente emergem nossas ações exteriores.
Porque existe uma lógica inevitável: o homem constrói sistemas semelhantes àquilo que existe dentro dele.
Uma sociedade formada por indivíduos incapazes de dominar seus próprios desejos dificilmente produzirá estruturas permanentemente justas apenas através de legislação.
O Fruto do Espírito é uma Revolução Interior
Por isso, quando Paulo contrapõe às obras da carne o Fruto do Espírito, ele apresenta algo profundamente revolucionário: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Imagine, por um instante, uma sociedade na qual essas características fossem predominantes.
Quantas leis seriam desnecessárias se houvesse domínio próprio?
Quantos conflitos desapareceriam se houvesse mansidão?
Quantos tribunais seriam evitados se houvesse fidelidade?
Quantas guerras jamais começariam se existisse verdadeira paz?
Quantas desigualdades produzidas pela exploração seriam reduzidas se houvesse bondade?
Quantos relacionamentos seriam preservados se houvesse paciência?
Talvez o Fruto do Espírito seja uma das propostas sociais mais profundas das Escrituras justamente porque não começa tentando controlar o comportamento humano externamente.
Começa transformando sua origem internamente.
O Criador não Ignorou o Caos
Quando observamos a violência, as guerras, as injustiças, a corrupção, a exploração e todas as dores acumuladas pela humanidade, podemos perguntar: Onde está Deus diante disso?
A resposta cristã é desconcertante.
Ele não permaneceu distante.
Ele entrou na própria história humana.
Em Cristo, Deus não apenas observou o sofrimento produzido pelo homem; submeteu-se às consequências desse mundo. Experimentou rejeição, injustiça, violência, abandono e morte.
E respondeu a tudo isso não reproduzindo a lógica das obras da carne, mas demonstrando aquilo que posteriormente seria reconhecido como a essência do Fruto do Espírito: amor.
Não um amor sentimental ou ingênuo.
Mas um amor capaz de interromper o ciclo no qual violência produz violência, ódio produz ódio, vingança produz vingança e injustiça produz novas injustiças.
Talvez Estejamos Tentando Consertar o Lugar Errado
A humanidade continuará precisando de melhores governos, instituições, empresas, escolas, sistemas econômicos e estruturas sociais.
Isso é indiscutível.
Mas talvez nosso erro seja imaginar que estruturas aperfeiçoadas produzirão automaticamente seres humanos aperfeiçoados.
A história parece demonstrar exatamente o contrário.
Podemos entregar ferramentas extraordinárias a pessoas moralmente desestruturadas e apenas aumentar sua capacidade de produzir destruição.
Tecnologia amplifica.
Dinheiro amplifica.
Conhecimento amplifica.
Poder amplifica.
Mas nenhum deles determina aquilo que será amplificado.
Quem determina é o caráter daquele que os possui.
A Maior Transformação Começa no Homem
Talvez por isso Cristo tenha começado pelo indivíduo.
Não porque as estruturas sociais sejam irrelevantes, mas porque existe algo anterior a elas.
O coração daquele que as constrói.
O Evangelho não apresenta simplesmente um projeto para fabricar um mundo perfeito. Apresenta a possibilidade de transformar pessoas imperfeitas que continuarão vivendo em um mundo imperfeito.
E essas pessoas transformadas poderão então influenciar famílias, comunidades, empresas, instituições, governos e sociedades.
Não porque tenham alcançado perfeição, mas porque começaram a reconhecer e combater aquilo que anteriormente reproduziam inconscientemente.
Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre simplesmente tentar consertar o mundo e compreender a proposta cristã de transformar o homem.
Porque todo sistema criado pelo homem carregará inevitavelmente alguma coisa do homem que o criou.
Portanto, antes de perguntarmos: “Como construiremos um mundo melhor?”
Talvez exista uma pergunta ainda mais importante: “Que tipo de ser humano estamos nos tornando enquanto tentamos construí-lo?”
Porque Deus não veio apenas reformar aquilo que construímos.
Veio transformar aquele que constrói.
E quando o homem começa verdadeiramente a ser transformado, talvez finalmente comece a compreender que a maior revolução não acontece quando conquistamos o poder de mudar tudo ao nosso redor.
A maior revolução acontece quando permitimos que Deus transforme aquilo que existe dentro de nós.




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