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A Teologia da Felicidade não Resiste aos Evangelhos

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 4 dias
4 min de leitura

Criamos uma versão confortável do Evangelho?!


Uma versão em que Deus precisa fazer tudo dar certo. Em que fé virou sinônimo de vitória, bênção virou sinônimo de prosperidade e sofrimento passou a ser tratado quase como evidência de que alguma coisa está espiritualmente errada.


Se prosperou, Deus abençoou.


Se perdeu, alguma coisa aconteceu.


Se está saudável, está debaixo da bênção.


Se adoeceu, começam as perguntas.


Se as portas abriram, foi Deus.


Se fecharam, talvez tenha faltado fé.


Mas onde Cristo ensinou isso?


Leia os Evangelhos.


Não apenas os versículos que confortam. Leia as palavras de Jesus dentro de seu contexto.


O Cristo dos Evangelhos jamais prometeu aos seus seguidores uma existência protegida das dores deste mundo.


Pelo contrário: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo. João 16:33


Ele avisou.


Haveria aflição.


Haveria perseguição.


Haveria renúncia.


Haveria perdas.


Haveria cruz.


O problema é que transformamos, muitas vezes, o Evangelho da cruz em uma espécie de contrato de felicidade.


E quando fazemos isso, produzimos uma consequência cruel: começamos a julgar quem sofre.


A pessoa perdeu o emprego?


Alguma porta espiritual deve ter sido aberta.


O casamento atravessou uma crise?


Precisa verificar sua vida com Deus.


A empresa quebrou?


Talvez tenha faltado fé.


A doença chegou?


Precisamos descobrir a causa espiritual.


Que teologia banal!


Antes de classificar a dor de alguém, deveríamos ter temor.


Só Deus conhece o todo.


Só Deus conhece aquilo que aconteceu antes daquilo que estamos vendo.


Só Deus conhece o coração.


Só Deus conhece os propósitos que atravessam determinadas circunstâncias.


Nós enxergamos alguns capítulos e queremos explicar o livro inteiro.


Foi exatamente esse erro que os amigos de Jó cometeram.


Jó estava sofrendo e eles precisavam encontrar uma explicação.


Construíram argumentos.


Elaboraram diagnósticos.


Procuraram culpa.


Tentaram encaixar o sofrimento de Jó dentro de uma lógica religiosa.


E estavam errados.


Talvez façamos a mesma coisa quando acreditamos que toda dor precisa revelar algum pecado e toda prosperidade precisa comprovar alguma aprovação divina.


Se sofrimento fosse prova de afastamento de Deus, teríamos um problema gigantesco com as Escrituras.


Teríamos que explicar .


Teríamos que explicar Paulo.


Teríamos que explicar os apóstolos.


Teríamos que explicar os mártires.


E, finalmente, teríamos que explicar Jesus Cristo crucificado.


O homem perfeitamente obediente ao Pai não terminou sua caminhada terrena cercado de conforto.


Terminou numa cruz.


Por isso, a cruz destrói qualquer teologia que transforme conforto material em certificado automático da aprovação de Deus.


Jesus falou, sim, sobre alegria.


Disse: “Tenho-vos dito estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. João 15:11


Mas existe uma diferença gigantesca entre alegria em Cristo e a obrigação contemporânea de estar sempre feliz.


A felicidade depende frequentemente daquilo que acontece conosco.


A alegria cristã nasce daquele que permanece conosco.


E a paz prometida por Cristo é ainda mais desconcertante: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. João 14:27


Perceba: Jesus não prometeu necessariamente retirar seus discípulos da tempestade.


Prometeu algo que poderia permanecer mesmo dentro dela.


Paulo posteriormente chamaria isso de: “A paz de Deus, que excede todo o entendimento.Filipenses 4:7


Talvez tenhamos perdido a profundidade dessa expressão.


Exceder o entendimento significa existir mesmo quando não conseguimos explicar.


É ter paz quando racionalmente não deveria haver paz.


É continuar confiando quando as circunstâncias parecem contradizer tudo aquilo pelo que oramos.


É dizer:Deus, eu não entendo.


E ainda conseguir completar: “Mas continuo confiando em Ti.


Essa é uma fé muito diferente daquela que exige explicações para continuar acreditando.


A fé madura não diz: “Confiarei em Deus enquanto Ele fizer aquilo que espero.


Ela diz: “Mesmo quando eu não compreender seus caminhos, continuarei confiando em seu caráter.


Existem momentos em que Deus muda as circunstâncias.


Existem momentos em que realiza milagres.


Existem portas que Ele abre de maneira extraordinária.


Existem curas.


Existem restaurações.


Existem respostas surpreendentes às nossas orações.


Mas também existem momentos em que a porta permanece fechada.


Existem perdas.


Existem despedidas.


Existem silêncios.


Existem perguntas que talvez atravessem uma vida inteira sem uma resposta completa.


E isso não significa necessariamente ausência de Deus.


Às vezes, é exatamente no lugar onde todas as explicações terminam que descobrimos aquilo que significa confiar.


Porque talvez o maior testemunho de fé não seja alguém dizendo: “Deus fez tudo dar certo para mim.


Talvez seja alguém atravessando aquilo que jamais desejaria viver e ainda conseguindo dizer: “Deus continua sendo Deus.


Precisamos urgentemente parar de medir a vida espiritual das pessoas pelas circunstâncias que elas estão vivendo.


Pare de transformar prosperidade em santidade.


Pare de transformar sofrimento em pecado.


Pare de olhar alguns minutos da história de alguém e acreditar que possui autoridade para explicar aquilo que somente Deus conhece por inteiro.


Pregue o Evangelho.


O verdadeiro Evangelho.


O Evangelho que não precisa classificar quem sofre para defender Deus.


O Evangelho que senta ao lado de quem chora.


O Evangelho que acolhe.


O Evangelho que aponta para Cristo.


O Evangelho que anuncia um Deus que entrou no sofrimento humano em vez de simplesmente observá-lo à distância.


Cristo nunca prometeu: “Nada acontecerá com vocês.


Ele prometeu algo infinitamente maior: “Eu estarei com vocês.


Essa é a diferença.


O cristianismo não é a promessa de uma vida sem tempestades.


É a certeza de que nenhuma tempestade possui autoridade para separar aquele que crê do amor de Deus.


Às vezes, Deus acalma o mar.


Em outras, permite que atravessemos o mar revolto.


Mas em ambos os casos, Ele continua no barco.


Portanto, quando você encontrar alguém atravessando uma dor que não compreende, tenha temor antes de explicar.


Você não conhece toda a história.


Você não conhece todas as lágrimas.


Você não ouviu todas as orações.


Você não conhece aquilo que Deus está fazendo no invisível.


Só Deus conhece o todo.


E quando a nossa compreensão terminar, talvez finalmente descubramos a grande promessa: Não a felicidade permanente.


Não uma existência sem perdas.


Não uma vida onde tudo acontece segundo nossos planos.


Mas Cristo.


Sua presença.


Sua alegria.


E a paz que excede todo entendimento.


Porque o verdadeiro Evangelho não promete que jamais choraremos.


Promete que nem mesmo nossas lágrimas serão capazes de nos separar daquele que nos ama.

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