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Charles Templeton e Billy Graham: quando a mesma dúvida conduz dois homens a caminhos opostos

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
18 de ago.
8 min de leitura

A história da fé cristã não é feita apenas de homens que tiveram certezas. É também construída por homens que fizeram perguntas — algumas delas tão profundas que alteraram definitivamente o curso de suas vidas.


Poucas histórias representam isso de maneira tão provocadora quanto as trajetórias de Charles Templeton e Billy Graham.


Na década de 1940, os dois eram jovens evangelistas, amigos, comunicadores extraordinários e integrantes de um movimento evangelístico que alcançava uma nova geração. Ambos pregavam Cristo. Ambos acreditavam nas Escrituras. Ambos experimentavam o crescimento de seus ministérios.


E ambos chegaram diante da dúvida.


Mas não saíram dela pelo mesmo caminho.


Billy Graham permaneceu na fé. Charles Templeton progressivamente a abandonou.


A pergunta interessante, portanto, não é simplesmente quem estava certo.


A pergunta é muito mais desconfortável: Como dois homens que compartilharam tantas convicções puderam chegar, diante de questionamentos semelhantes, a conclusões tão diferentes?


Charles Templeton: antes do cético, existiu um evangelista


É fácil olhar retrospectivamente para Charles Templeton apenas como o homem que abandonou o cristianismo.


Mas isso empobrece sua história.


Nascido no Canadá em 1915, Templeton experimentou uma conversão ao cristianismo na década de 1930 e tornou-se posteriormente um dos evangelistas mais conhecidos de sua geração.


Ele não era um observador distante da fé.


Ele pregava.


Evangelizava.


Convocava pessoas à conversão.


Participou da Youth for Christ, organização na qual Billy Graham também se destacou, e desenvolveu amizade com ele.


Templeton possuía enorme capacidade de comunicação e chegou a ser considerado uma das grandes promessas do evangelismo norte-americano.


Isso torna sua história particularmente inquietante.


Porque suas dúvidas não surgiram do lado de fora da fé.


Nasceram dentro dela.


Quando as perguntas começaram a crescer


Com o passar dos anos, Templeton começou a enfrentar questões que considerava difíceis de reconciliar com aquilo que pregava.


A confiabilidade das Escrituras.


A relação entre Bíblia e ciência.


A existência do sofrimento.


A presença do mal.


A ideia de um Deus amoroso diante das tragédias humanas.


Não eram perguntas pequenas.


E também não são perguntas exclusivamente de Templeton.


São questões que atravessam séculos de filosofia e teologia.


Templeton passou a considerar determinadas respostas do evangelicalismo no qual estava inserido intelectualmente insuficientes. Seus estudos teológicos ampliaram ainda mais esse conflito.


Pouco a pouco, aquilo que inicialmente parecia uma dúvida tornou-se uma ruptura.


E aqui sua história encontra diretamente a de Billy Graham.


Templeton colocou suas perguntas diante de Graham


Durante esse período, Templeton confrontou seu amigo com alguns dos mesmos questionamentos que o estavam levando para longe das convicções anteriores.


Segundo os relatos posteriores de Graham, aquelas conversas tiveram impacto significativo sobre ele.


Imagine a situação.


Billy Graham ainda era um jovem evangelista.


Seu ministério estava crescendo.


E diante dele estava um amigo inteligente, respeitado e teologicamente preparado dizendo, essencialmente: “Billy, você não pode continuar acreditando dessa maneira.


A questão atingiu Graham profundamente.


Se a Bíblia que ele pregava não fosse confiável, sobre qual fundamento construiria seu ministério?


Graham também começou a questionar.


Essa parte da história precisa ser enfatizada: Templeton não duvidou enquanto Graham permaneceu intelectualmente intocado.


Graham também entrou em crise.


A diferença estaria na maneira como cada um responderia a ela.


Forest Home, 1949


A crise de Graham chegou a um ponto decisivo em 1949, durante um período em Forest Home, na Califórnia.


Graham estudou.


Conversou.


Refletiu.


E, segundo seu próprio relato, saiu certa noite para caminhar pela floresta carregando sua Bíblia.


Em determinado momento colocou-a sobre um tronco.


Ali aconteceu algo extraordinariamente simples.


Ele reconheceu que não possuía todas as respostas.


Havia passagens que não compreendia.


Havia questões intelectuais que não conseguia resolver.


Havia argumentos apresentados por Templeton para os quais naquele momento não tinha uma resposta satisfatória.


E então Graham tomou uma decisão.


Não decidiu que havia solucionado intelectualmente todas as dificuldades.


Decidiu confiar.


Sua fé não passou a significar: “Tenho todas as respostas.


Passou a significar: “Existem respostas que ainda não possuo, mas isso não será suficiente para determinar em quem deposito minha confiança.


É uma distinção fundamental.


Templeton tomou outra decisão


Templeton chegou a uma conclusão diferente.


Para ele, as dificuldades acumuladas tornaram-se incompatíveis com a manutenção das antigas convicções cristãs.


Sua trajetória progressivamente o afastou do ministério até que, em 1957, deixou formalmente o púlpito.


Décadas depois, apresentaria suas objeções ao cristianismo em Farewell to God: My Reasons for Rejecting the Christian Faith.


E aqui precisamos evitar uma leitura infantil dessa história.


Seria muito confortável para o cristão afirmar: “Templeton perdeu a fé porque não confiou suficientemente em Deus.


Da mesma maneira, seria intelectualmente arrogante afirmar: “Templeton pensou racionalmente enquanto Graham simplesmente escolheu acreditar.


Nenhuma dessas simplificações faz justiça ao problema.


Os dois pensaram.


Os dois questionaram.


Os dois foram confrontados por limites.


E os dois tomaram decisões sobre o significado desses limites.


Talvez a verdadeira diferença estivesse aqui


Existe uma pergunta filosófica escondida por trás da história dos dois: Qual quantidade de certeza precisamos possuir antes de confiar em alguma coisa?


Nenhum ser humano vive exclusivamente por demonstrações absolutas.


Confiamos constantemente.


Confiamos na memória.


Confiamos em pessoas.


Confiamos em interpretações.


Confiamos em modelos científicos enquanto permanecem capazes de explicar adequadamente os fenômenos observados.


Confiamos que o mundo continuará apresentando determinada regularidade amanhã.


Isso não significa abandonar a razão.


Significa reconhecer que razão e confiança coexistem em praticamente todas as dimensões da existência humana.


Templeton aparentemente chegou ao ponto em que as evidências e respostas disponíveis já não eram suficientes para sustentar sua confiança.


Graham chegou ao mesmo território de incerteza e decidiu que a ausência de respostas completas também não era suficiente para destruir a sua.


É aqui que os caminhos se separam.


Fé não deveria significar medo de perguntas


Existe uma lição importante para o cristianismo contemporâneo.


Quando tratamos toda dúvida como pecado, podemos criar pessoas que aprenderam a esconder suas perguntas em vez de enfrentá-las.


Isso é perigoso.


Uma pergunta reprimida não desaparece.


Ela apenas deixa de ser discutida.


O próprio episódio envolvendo Graham demonstra que perguntas profundas não precisam necessariamente destruir a fé.


Podem obrigá-la a amadurecer.


A fé que nunca foi confrontada talvez seja apenas uma convicção herdada.


A fé examinada precisa descobrir por que continua existindo.


Mas existe também o outro lado.


Questionar também precisa ser questionado


Vivemos em uma cultura na qual frequentemente tratamos o questionamento como sinônimo automático de inteligência.


Também não é verdade.


Questionar é uma ferramenta.


Não uma conclusão.


Precisamos perguntar não apenas: “Por que acredito?


Mas também: “Por que duvido?


Quais pressupostos estão por trás da minha dúvida?


Que tipo de evidência eu aceitaria como suficiente?


Estou procurando compreender ou apenas confirmar aquilo que já desejo concluir?


Tenho a mesma exigência intelectual diante daquilo que confirma minhas crenças e daquilo que as contradiz?


Essa disciplina precisa existir tanto para quem acredita quanto para quem não acredita.


Porque a fé possui pressupostos, mas o ceticismo também possui.


O problema do sofrimento


Entre as questões que profundamente incomodaram Templeton estava o sofrimento humano.


Essa talvez seja uma das objeções mais poderosas contra a existência de um Deus simultaneamente bom e poderoso.


Se Deus existe, por que crianças sofrem?


Por que existem catástrofes?


Por que doenças?


Por que injustiça?


Por que Deus aparentemente permanece silencioso diante de determinadas tragédias?


Não devemos oferecer respostas superficiais para perguntas dessa magnitude.


O próprio cristianismo não apresenta um Deus distante do sofrimento.


Apresenta um Deus que entra nele.


A cruz é justamente o centro dessa afirmação.


Mas isso não elimina automaticamente o problema intelectual e emocional do sofrimento.


E talvez aqui esteja uma diferença importante: uma explicação teológica pode responder intelectualmente a uma questão sem necessariamente eliminar sua dor existencial.


perguntas que fazemos com a cabeça.


E existem perguntas que fazemos depois que alguma coisa nos destruiu por dentro.


Elas podem utilizar exatamente as mesmas palavras, mas não são necessariamente a mesma pergunta.


Templeton e Jesus


Décadas depois de deixar o ministério, já idoso, Templeton foi entrevistado por Lee Strobel.


Durante a conversa, segundo o relato de Strobel, falou criticamente sobre aspectos do cristianismo.


Mas quando o assunto chegou especificamente a Jesus, algo mudou.


Templeton teria descrito Jesus com profunda admiração.


E, emocionado, teria dito que sentia falta dele.


Essa passagem precisa ser tratada com responsabilidade: conhecemos o episódio principalmente através do relato publicado por Strobel. Não existe fundamento para transformar esse momento em uma suposta reconversão de Templeton.


Mas psicologicamente a cena é extraordinária.


Um homem que havia abandonado intelectualmente o cristianismo décadas antes ainda parecia carregar uma relação emocional profunda com a figura de Cristo.


Isso revela algo importante: abandonar uma crença intelectualmente não significa necessariamente apagar tudo aquilo que ela construiu dentro de nós.


Graham, Templeton e Henrietta Mears


Existe ainda uma terceira personagem nessa história.


Durante sua crise em Forest Home, Graham conversou com Henrietta Mears, uma influente educadora cristã.


Ela não parece ter oferecido a Graham simplesmente uma ordem para parar de questionar.


Sua influência esteve relacionada a uma confiança robusta nas Escrituras acompanhada de disposição para enfrentar questões intelectuais.


Isso cria um contraste interessante.


Templeton representava diante de Graham a força da pergunta.


Mears representava a possibilidade de permanecer intelectualmente ativo sem abandonar a confiança.


E Graham estava entre ambos.


Talvez essa seja uma metáfora extremamente atual.


Todos nós precisamos de pessoas que desafiem aquilo em que acreditamos.


Mas também precisamos de pessoas capazes de mostrar que questionamento e fé não precisam ser inimigos.


O que essa história provoca em mim


Quanto mais observo Templeton e Graham, menos me interessa utilizar um para atacar o outro.


Interessa-me compreender o que aconteceu entre eles.


Porque também questiono.


E acredito que existe uma enorme diferença entre uma fé que teme perguntas e uma fé suficientemente segura para permitir que sejam feitas.


Não quero acreditar simplesmente porque alguém me ensinou a acreditar.


Mas também não quero deixar de acreditar simplesmente porque alguém intelectualmente sofisticado me apresentou uma pergunta para a qual ainda não encontrei resposta.


Entre credulidade e ceticismo existe um território difícil.


É justamente nele que a fé adulta precisa aprender a caminhar.


Não compreender não significa que não exista resposta


Existe uma arrogância sutil da qual tanto religiosos quanto céticos podem ser vítimas: confundir os limites do próprio conhecimento com os limites da realidade.


Eu não consigo explicar” não significa automaticamente “não existe explicação.


Mas “eu acredito” também não transforma automaticamente determinada explicação em verdadeira.


Por isso precisamos continuar procurando.


Estudar.


Ler aqueles que concordam conosco.


E principalmente aqueles que discordam.


Examinar argumentos.


Reconhecer quando não sabemos.


Mudar de posição quando as evidências exigirem.


E possuir humildade suficiente para admitir que algumas perguntas talvez permaneçam abertas durante muito tempo.


Dois homens diante da mesma noite


Talvez possamos imaginar Graham e Templeton simbolicamente diante da mesma encruzilhada.


Os dois carregavam perguntas.


Os dois conheciam o Evangelho.


Os dois haviam pregado para multidões.


Os dois haviam experimentado aquilo que chamavam de fé.


Então chegaram diante de um território onde suas antigas certezas foram confrontadas.


Templeton olhou para as perguntas que não conseguia resolver e concluiu que já não conseguia continuar acreditando.


Graham olhou para perguntas que também não conseguia resolver e decidiu continuar confiando enquanto procurava compreender.


Um seguiu para longe do púlpito.


O outro entraria pouco depois em Los Angeles e iniciaria uma das trajetórias evangelísticas mais conhecidas do século XX.


Mas o ponto mais importante não é simplesmente o destino diferente dos dois.


É a pergunta que deixaram para nós.


Conclusão — o que fazemos quando não sabemos?


Talvez uma das maiores provas da fé não aconteça quando encontramos uma resposta.


Aconteça quando ainda não encontramos.


É relativamente fácil acreditar quando todas as peças parecem encaixar.


Difícil é permanecer intelectualmente honesto quando algumas delas não encaixam.


Charles Templeton e Billy Graham nos colocam diante dessa tensão.


Um decidiu que suas perguntas haviam se tornado maiores do que sua capacidade de continuar acreditando.


O outro decidiu que sua incapacidade de responder a todas as perguntas não era suficiente para abandonar aquilo em que confiava.


E talvez a grande pergunta não seja apenas: “Tenho dúvidas?


Provavelmente todos teremos.


A pergunta mais profunda é: “O que faço com elas?


Posso escondê-las.


Posso fugir delas.


Posso transformá-las em argumento para confirmar aquilo que já desejava acreditar.


Ou posso enfrentá-las com honestidade.


Porque uma fé que precisa proibir perguntas para sobreviver provavelmente já possui um problema.


Mas existe igualmente um perigo em exigir que Deus, a existência e toda a realidade caibam completamente dentro da capacidade limitada da nossa razão antes que possamos acreditar.


Entre esses extremos existe uma palavra antiga: .


Não a fé que fecha os olhos.


Não a fé que despreza a razão.


Não a fé que tem medo da ciência, da filosofia ou das perguntas difíceis.


Mas aquela capaz de dizer: “Ainda não sei.”


E continuar procurando.


Talvez Forest Home não tenha sido o lugar onde Billy Graham encontrou todas as respostas.


Talvez tenha sido algo muito mais profundo.


Foi o lugar onde ele decidiu que não possuir todas as respostas não o impediria de continuar buscando Aquele em quem havia decidido confiar.

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