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A Ilusão do Controle

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
28 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 28 de ago.

Quando a Existência Revela quem Realmente Manda


O viver humano acontece em permanente confronto com variáveis. Algumas são previsíveis, outras são apenas parcialmente compreendidas e outras sequer sabemos que existem até que atravessem nosso caminho. Ainda assim, construímos nossa rotina sobre uma sensação profundamente sedutora: a de que temos a vida sob controle. Planejamoso amanhã, organizamos compromissos, administramos recursos, estabelecemos metas e tomamos decisões como se conhecimento, experiência e planejamento fossem suficientes para garantir determinada sequência de acontecimentos. Não são. Administrar partes da realidade nunca significou controlar a totalidade da existência.


Podemos dividir os desafios cotidianos em três grandes campos. O primeiro é formado pelas variáveis que conhecemos e dominamos. São situações sobre as quais possuímos conhecimento, experiência e instrumentos suficientes para produzir resultados relativamente previsíveis. Sabemos executar determinada tarefa, resolver determinado problema ou tomar determinada decisão. É justamente nesse primeiro campo que nasce grande parte da nossa percepção de controle. Como nossas decisões frequentemente produzem os resultados esperados, começamos a acreditar que a capacidade de administrar algumas circunstâncias representa domínio sobre o conjunto da existência.


O segundo campo é constituído pelas variáveis que conhecemos, mas não dominamos. Sabemos que existem e, muitas vezes, conseguimos compreender seu funcionamento, mas não possuímos autoridade suficiente para determinar seus resultados. Podemos conhecer os riscos econômicos, mas não controlar a economia; compreender determinado comportamento humano, mas não controlar as decisões de outra pessoa; conhecer uma circunstância profissional, mas não determinar todas as decisões que serão tomadas dentro dela. Nesse campo, nosso conhecimento permanece relevante, porém nossa soberania desaparece. Conhecer uma variável não significa possuir poder sobre ela.


Existe, porém, um terceiro campo ainda mais desconcertante: as variáveis que não conhecemos e muito menos dominamos. São acontecimentos que simplesmente não faziam parte dos nossos cálculos. Uma oportunidade inesperada, uma perda repentina, uma mudança política, econômica ou social, uma decisão tomada por terceiros, um encontro improvável ou qualquer acontecimento capaz de alterar radicalmente uma trajetória. Não poderíamos ter administrado essas variáveis simplesmente porque, antes de surgirem, sequer sabíamos que deveriam fazer parte da equação.


É justamente a existência simultânea desses três campos que torna racionalmente insustentável a ideia de controle absoluto. Por mais competente, disciplinado e prudente que seja um indivíduo, sua capacidade de decisão opera dentro de uma realidade infinitamente maior do que sua capacidade de percepção. Sempre existirão mais variáveis atuando sobre nossa existência do que aquelas que conseguimos identificar, calcular ou controlar. O problema não está em planejar; está em transformar planejamento em pretensão de soberania.


Essa distinção é fundamental. Planejamento continua sendo necessário. Responsabilidade continua sendo indispensável. Prudência, conhecimento, disciplina e estratégia continuam aumentando nossas possibilidades de bons resultados. Reconhecer os limites do controle humano não significa defender passividade, fatalismo ou irresponsabilidade. Pelo contrário: significa compreender exatamente onde nossa responsabilidade começa e onde nossa soberania termina. Somos responsáveis pelas decisões que podemos tomar, mas não somos soberanos sobre todas as consequências que essas decisões produzirão.


Talvez por isso uma das expressões mais utilizadas diante das crises seja também uma das mais equivocadas: “Minha vida saiu do controle.” Quando uma circunstância inesperada destrói nossos planos, imaginamos que ocorreu uma transição entre dois estados — antes tínhamos controle e agora o perdemos. Mas talvez nada tenha realmente “saído” do controle. O que aconteceu foi algo intelectualmente mais desconfortável: a realidade revelou que aquele controle integral nunca existiu.


Enquanto as variáveis conhecidas e domináveis predominam, nossa percepção de soberania permanece intacta. O despertador toca, levantamos; trabalhamos, recebemos; planejamos uma viagem, viajamos; estabelecemos uma meta, alcançamos. A repetição dessa relação entre decisão e resultado produz uma perigosa associação psicológica: “eu decido, portanto controlo”. Até que uma variável pertencente ao segundoou ao terceiro campo atravessa a equação e demonstra que entre nossa vontade e o resultado existe um universo inteiro de acontecimentos independentes de nós.


É nesse momento que o ser humano experimenta aquilo que chama de perda de controle. Entretanto, não perdeu necessariamente o controle; perdeu a ilusão de possuí-lo. E essa diferença muda completamente a interpretação da crise. A circunstância deixa de representar apenas a ruptura de um planejamento e passa a funcionar como revelação dos limites da condição humana.


Existe, portanto, uma diferença fundamental entre conduzir a própria vida e controlar a própria existência. Conduzir envolve escolhas, responsabilidade, disciplina, coragem e consciência. Controlar exigiria domínio sobre todas as variáveis capazes de interferir no resultado — inclusive aquelas que desconhecemos. A primeira possibilidade pertence ao ser humano; a segunda jamais lhe pertenceu.


A maturidade talvez esteja exatamente em aprender a viver nessa fronteira. Fazer com excelência aquilo que depende de nós, preparar-nos para aquilo que conhecemos mas não podemos determinar e desenvolver humildade diante daquilo que sequer conseguimos prever. Não abandonar o planejamento, mas abandonar a arrogância de acreditar que planejamento é garantia. Não desistir de decidir, mas compreender que decisão não é soberania.


Paradoxalmente, reconhecer que não controlamos a existência não precisa produzir medo. Pode produzir liberdade. Se não somos soberanos sobre todas as circunstâncias, também não precisamos carregar a responsabilidade impossível de garantir todos os resultados. Cabe-nos administrar aquilo que nos foi colocado nas mãos, responder com inteligência ao que conseguimos compreender e desenvolver coragem para atravessar aquilo que não conseguimos antecipar.


No final, talvez uma das maiores demonstrações de sabedoria humana seja reconhecer os próprios limites. Somos protagonistas das nossas decisões, mas não autores de todas as circunstâncias. Somos capazes de construir caminhos, mas não de determinar tudo aquilo que encontraremos durante a caminhada.


Por isso, quando o existir aparentemente “sai do nosso controle”, talvez seja necessário reformular completamente a frase. A existência não saiu do nosso controle, porque nunca esteve integralmente nele. O que saiu de cena foi apenas a confortável percepção de que éramos soberanos sobre aquilo que jamais dominamos.


E talvez seja justamente quando essa ilusão desmorona que começamos, finalmente, a compreender o que significa existir.

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