
Vargas “IV”x Lula III

Quando um projeto político sobrevive por mais tempo que o Brasil que o criou
Comparar Getúlio Vargas em seu último governo, entre 1951 e 1954, com Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato, iniciado em 2023, exige cautela histórica. Não são governos equivalentes, tampouco o Brasil contemporâneo reproduz as condições políticas de 1954. Entretanto, existe uma pergunta legítima e intelectualmente mais interessante do que procurar personagens idênticos: o que acontece quando um líder retorna ao poder décadas depois de ter ajudado a construir o próprio sistema político que agora precisa governar? É nesse ponto que Vargas e Lula apresentam paralelos relevantes.
Getúlio Vargas não foi apenas presidente. Tornou-se representante de uma concepção de Estado. Seu projeto combinava desenvolvimento econômico, industrialização, intervenção estatal, valorização do trabalho, políticas sociais e forte personalização da liderança. Lula, guardadas enormes diferenças históricas, também ultrapassou a condição de simples ocupante da Presidência. Desde sua primeira eleição, em 2002, tornou-se o principal personagem de um projeto político associado à expansão social, valorização do salário mínimo, transferência de renda, protagonismo estatal e inclusão pelo consumo. Nos dois casos, portanto, o líder progressivamente se confunde com o projeto que representa.
O retorno ao poder
Existe uma coincidência particularmente interessante. Vargas retornou à Presidência pelo voto em 1951 depois de ter governado o país entre 1930 e 1945. Lula retornou em 2023, vinte anos depois de sua primeira posse e após dois mandatos anteriores.
Mas ninguém retorna ao mesmo país.
Vargas descobriu isso rapidamente.
O Brasil de 1951 possuía uma sociedade urbana maior, partidos organizados, Congresso funcionando, imprensa politicamente ativa e novas forças econômicas e militares. O homem que anteriormente havia concentrado extraordinário poder precisava agora negociar com instituições que não podia simplesmente controlar.
Lula III enfrenta fenômeno diferente, mas conceitualmente semelhante.
O Brasil de 2023 não é o Brasil de 2003.
O Congresso possui maior autonomia sobre o orçamento. As redes sociais destruíram o antigo monopólio da comunicação política. A polarização reorganizou o eleitorado. O Judiciário ganhou enorme protagonismo. Governadores, parlamentares, influenciadores e movimentos digitais possuem capacidade própria de mobilização.
Em outras palavras: o líder retornou, mas o tabuleiro mudou.
O Estado como instrumento de transformação
Outro ponto de aproximação está na concepção do Estado.
Vargas enxergava o Estado como agente fundamental da transformação econômica brasileira. A industrialização, a criação de empresas estratégicas e a legislação trabalhista faziam parte dessa arquitetura.
A Petrobras talvez seja o símbolo máximo dessa visão.
Lula também trabalha dentro de uma tradição política que atribui ao Estado papel relevante na redução das desigualdades, no investimento, no financiamento do desenvolvimento e na proteção social.
Existe, portanto, uma continuidade conceitual entre determinadas características do trabalhismo varguista e parte da tradição política que posteriormente encontraria espaço na esquerda brasileira.
Isso não significa identidade ideológica.
Significa reconhecer uma tradição brasileira de desenvolvimento econômico conduzido ou fortemente induzido pelo Estado.
O trabalhador como centro da narrativa
Vargas construiu uma ligação política direta com o trabalhador urbano.
Lula construiu sua própria trajetória vindo do movimento sindical e posteriormente ampliou sua base para segmentos populares muito mais diversos.
Nos dois casos existe algo politicamente poderoso: a construção de uma relação que ultrapassa programas governamentais.
O eleitor não se identifica apenas com determinadas políticas.
Identifica-se com o personagem.
Essa personalização produz enorme vantagem eleitoral, mas também cria uma fragilidade.
Quando o projeto político depende demasiadamente da capacidade de mobilização de um indivíduo, surge uma pergunta inevitável: quem sucede o líder?
O varguismo sobreviveu a Vargas, mas precisou encontrar novas lideranças.
O lulismo enfrenta progressivamente a mesma questão.
A economia como limite da política
Existe ainda outra semelhança histórica importante.
Projetos políticos baseados em expansão social precisam produzir crescimento econômico suficiente para sustentá-la.
Vargas enfrentou inflação, pressão salarial, dificuldades externas e conflitos entre trabalhadores e empresários.
Lula III governa sob restrições completamente diferentes, mas também precisa resolver uma equação difícil: ampliar renda, investimento e políticas públicas enquanto preserva sustentabilidade fiscal e estabilidade monetária.
A política pode distribuir recursos.
Mas não consegue indefinidamente distribuir riqueza que a economia não produza.
Esse é um limite que atravessa governos de esquerda, direita ou centro.
Quando crescimento, produtividade e equilíbrio fiscal deixam de acompanhar as promessas políticas, o espaço de escolha do governante diminui.
A oposição ao projeto transforma-se em oposição ao personagem
Vargas enfrentou uma oposição profundamente personalizada, simbolizada por Carlos Lacerda.
Não se combatia apenas uma política econômica.
Combatia-se Getúlio.
Com Lula ocorre fenômeno semelhante dentro da polarização contemporânea.
Para milhões de brasileiros, Lula representa inclusão social, ascensão econômica e defesa dos mais pobres.
Para outros milhões, representa justamente aquilo que rejeitam na política brasileira.
O debate deixa então de acontecer exclusivamente sobre políticas públicas.
Transforma-se em disputa de identidades.
Vargas versus antivarguismo.
Lula versus antilulismo.
Quando a política chega a esse estágio, fatos econômicos e administrativos continuam importantes, mas passam a ser interpretados através de identidades previamente construídas.
Mas existe uma diferença fundamental
É justamente aqui que qualquer comparação responsável precisa estabelecer uma fronteira.
Lula III não vive uma repetição de 1954.
Vargas terminou seu governo diante de uma crise institucional extrema. O atentado contra Carlos Lacerda, a morte do major Rubens Vaz, o envolvimento de integrantes da guarda presidencial e a crescente pressão militar produziram um cerco político que praticamente eliminou suas alternativas.
O Brasil contemporâneo possui instituições muito diferentes.
A Constituição de 1988 estabeleceu uma estrutura democrática mais robusta. Congresso, Judiciário, Ministério Público, imprensa, governos estaduais e sociedade civil possuem instrumentos institucionais que simplesmente não existiam com a mesma configuração em 1954.
Portanto, comparar os dois períodos não significa prever para Lula o destino de Vargas.
Seria historicamente irresponsável.
A semelhança mais importante talvez esteja em outro lugar
Vargas ajudou a construir o Brasil industrial e urbano que posteriormente tornou insuficientes algumas das ferramentas políticas que ele próprio utilizara.
Existe aqui uma possível analogia com Lula.
Os governos petistas participaram de profundas transformações sociais desde 2003: expansão universitária, aumento da renda, crescimento do consumo, bancarização, políticas de transferência de renda e maior participação das classes populares no mercado consumidor.
Mas essas mesmas transformações produziram cidadãos com novas expectativas.
Quem ascendeu socialmente passa a exigir mais.
Não basta renda.
Quer segurança.
Educação de qualidade.
Infraestrutura.
Serviços públicos eficientes.
Emprego qualificado.
Mobilidade social permanente.
Produtividade.
Previsibilidade econômica.
A política que conseguiu retirar alguém de determinada condição social não necessariamente possui automaticamente as ferramentas necessárias para conduzir essa pessoa ao próximo estágio.
Esse talvez seja um dos maiores desafios de qualquer projeto político longevo.
Quando a própria vitória transforma o eleitor
Existe uma ironia poderosa nisso.
Um projeto político pode tornar-se vítima parcial do próprio sucesso.
Ao transformar a sociedade, transforma também as expectativas daqueles que inicialmente o sustentaram.
Vargas ajudou a criar trabalhadores urbanos politicamente conscientes.
Lula ajudou a ampliar uma população economicamente integrada, conectada e muito mais exigente.
O eleitor de 2026 não é o eleitor de 2002.
Assim como o brasileiro de 1954 não era mais o brasileiro de 1930.
E nenhum líder consegue simplesmente governar uma sociedade nova utilizando eternamente a linguagem política de sua primeira vitória.
O problema da sucessão
Talvez exista ainda uma questão mais profunda.
Vargas era maior que seu partido.
Lula também é maior eleitoralmente que o PT.
Isso representa força enquanto o líder permanece competitivo.
Mas pode representar fragilidade quando chega a hora da sucessão.
Instituições políticas maduras precisam transformar liderança pessoal em cultura, ideias, quadros e projetos capazes de sobreviver independentemente do fundador.
Quando isso não acontece, o movimento começa a depender biologicamente da longevidade política de uma pessoa.
E nenhum projeto histórico deveria depender disso.
Conclusão — o líder pode permanecer; o mundo ao redor dele, não
A principal semelhança entre Vargas e Lula talvez não esteja na economia, no trabalhismo ou sequer na polarização.
Está no tempo.
Ambos alcançaram algo reservado a pouquíssimos políticos: permaneceram relevantes durante diferentes gerações brasileiras.
Mas existe um preço nessa longevidade.
Quanto mais tempo um líder permanece no centro da política, maior é a possibilidade de que o mundo que originalmente legitimou sua liderança deixe de existir.
Vargas voltou ao poder e encontrou outro Brasil.
Lula voltou ao poder e também encontrou outro Brasil.
Por isso, a pergunta histórica verdadeiramente relevante não é se Lula III terminará como Vargas. Não há fundamento para estabelecer essa equivalência.
A pergunta é muito mais desconfortável: um projeto político criado para resolver os problemas de determinado Brasil consegue reconhecer quando aquele Brasil deixou de existir?
Grandes líderes frequentemente são extraordinários intérpretes de seu próprio tempo.
Os maiores conseguem perceber quando o tempo mudou.
E talvez seja justamente aí que comece a decadência de uma era política: não quando seus líderes perdem eleições, mas quando continuam oferecendo respostas que foram extraordinárias para perguntas que a sociedade já deixou de fazer.




Comentários