top of page

Do Deus transcendente ao homem como centro

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 2 dias
7 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

A ruptura não é meramente religiosa ou política; é antropológica e ontológica


A discussão sobre a relação entre marxismo e religião frequentemente é reduzida à célebre afirmação de Karl Marx de quea religião é o ópio do povo”. Isolada de seu contexto, a frase empobrece uma questão filosófica muito mais profunda. O conflito fundamental entre o pensamento marxista e a concepção cristã do homem não está simplesmente na crítica às instituições religiosas, aos sacerdotes ou às formas históricas assumidas pelas igrejas. Está na própria compreensão acerca da origem, da natureza e do destino do ser humano.


A questão central, portanto, não é simplesmente perguntar se Marx era contra a religião (certo que era!). A pergunta intelectualmente mais relevante é outra: o que acontece com a compreensão do ser humano quando Deus deixa de constituir seu fundamento transcendente?


É nesse ponto que cristianismo e marxismo apresentam antropologias profundamente distintas.


A inversão do fundamento


Na antropologia cristã, o homem não é causa de si mesmo. Sua existência encontra origem e significado em algo que o transcende. O relato de Gênesis sintetiza essa concepção ao apresentar o homem formado do pó da terra e recebendo de Deus o sopro da vida. O humano encontra-se, portanto, entre duas dimensões: matéria e transcendência, húmus e sopro.


A dignidade humana, nessa perspectiva, não depende inicialmente de classe social, capacidade produtiva, riqueza, nacionalidade ou posição política. Ela deriva de uma realidade anterior: o homem é criatura e imagem de Deus.


Marx parte de outro fundamento.


Na introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, publicada em 1844, escreve: “O homem faz a religião; a religião não faz o homem.


A afirmação não constitui apenas uma crítica ao comportamento de determinada instituição religiosa. Marx apresenta uma inversão da explicação religiosa da realidade. A religião deixa de explicar o homem; é o homem que passa a explicar a religião. Sendo mais direto: Deus deixa de explicar o homem; é o homem que passa a explicar Deus. Para Marx, Estado e sociedade produzem a consciência religiosa, que ele descreve como uma realização fantástica da essência humana. (Arquivo Marxista⁠)


A mudança é radical.


O movimento deixa de ser Deus → homem e passa a ser homem → religião→ Deus


Sob uma leitura cristã, é nesse deslocamento que ocorre uma ruptura antropológica decisiva.


A religião como alienação


É preciso, contudo, representar Marx corretamente.


Quando ele chama a religião de “ópio do povo”, não está simplesmente ridicularizando aquele que crê. No mesmo parágrafo, descreve a religião como o “suspiro da criatura oprimida” e o “coração de um mundo sem coração. Para Marx, portanto, a religião expressa um sofrimento humano verdadeiro. (Arquivo Marxista⁠)


Sua conclusão, entretanto, continua sendo incompatível com a verdade cristã.


Se a religião constitui uma resposta ilusória a um sofrimento real, então a emancipação humana exige ultrapassar essa ilusão. Marx escreve que a superação da religião enquanto felicidade ilusória é uma exigência para a felicidade real do povo. (Arquivo Marxista⁠)


Aqui encontramos algo muito mais profundo do que uma crítica às igrejas.


Para o cristianismo, afastar-se de Deus representa alienação.


Para Marx, a religião (Deus) é que constitui uma forma de alienação.


As duas perspectivas praticamente invertem o diagnóstico uma da outra.


Quando o homem passa a orbitar a si mesmo


Há uma passagem particularmente reveladora na mesma obra.


Depois de tratar a religião como uma espécie de “sol ilusório”, Max afirma que o homem deve abandonar suas ilusões para passar a girar em torno de si mesmo como seu verdadeiro Sol. (Arquivo Marxista⁠)


A imagem possui enorme força filosófica.


Sob a verdade cristã, ela permite identificar com precisão a ruptura: aquilo que anteriormente encontrava seu eixo em Deus passa a encontrar seu eixo no próprio homem e no mundo humano.


Seu “homem” é histórico, social e condicionado pelas relações materiais da sociedade.


Ainda assim, Deus deixa de ocupar o lugar de fundamento ontológico necessário.


A transcendência é substituída por uma explicação imanente.


O céu é interpretado pela terra.


A religião, pela sociedade.


A consciência, pelas condições históricas e materiais.


E o homem já não necessita recorrer a Deus para explicar a si próprio.


Engels e a naturalização da religião


Friedrich Engels desenvolve a mesma lógica materialista.


No Anti-Dühring, publicado no século XIX, define a religião como um “reflexo fantástico” na mente dos homens das forças externas que governam sua existência. Segundo ele, forças naturais e posteriormente sociais assumiram, na consciência humana, a aparência de forças sobrenaturais. (Arquivo Marxista⁠)


Deus, nessa estrutura explicativa, deixa de constituir a realidade que explica o homem.


A crença em Deus passa a ser uma realidade humana que precisa ser explicada.


Essa distinção é essencial.


Não estamos mais diante de uma cosmologia na qual a criatura procura compreender o Criador. Estamos diante de uma antropologia materialista tentando compreender por que o homem criou conceitos religiosos e atribuiu transcendência a determinadas forças.


Entretanto, há uma ressalva histórica importante: Engels também criticou projetos que pretendiam simplesmente proibir a religião por decreto. Sua crítica filosófica à religião não deve ser confundida automaticamente com defesa de toda forma possível de repressão estatal à fé. (Arquivo Marxista⁠)


O Manifesto Comunista e a ruptura com as verdades eternas


O Manifesto do Partido Comunista, de 1848, precisa ser lido com semelhante precisão.


Marx e Engels registram a acusação feita contra os comunistas de que o comunismo aboliria religião, moral e verdades eternas. Não seria correto retirar essa frase do diálogo e apresentá-la isoladamente como se fosse uma declaração direta dos autores.


O argumento apresentado por Marx e Engels é mais elaborado: ideias religiosas, jurídicas, filosóficas e morais transformaram-se ao longo da história, acompanhando mudanças nas estruturas sociais e nos conflitos de classe.


Assim, aquilo que uma concepção religiosa poderia compreender como verdade transcendente passa a ser submetido a uma interpretação histórica.


Novamente encontramos a mesma ruptura fundamental: o transcendente é reinterpretado pelo histórico; o espiritual, pelo humano; e as estruturas de consciência, pelas condições materiais da existência.


De Marx a Lenin: do problema filosófico à ação política


Com Vladimir Lenin, a questão assume contornos políticos mais explícitos.


Em Socialismo e Religião, de 1905, Lenin defende que, perante o Estado, a religião deve ser assunto privado. Ele sustenta a separação entre religião e Estado e não propõe naquele texto que pessoas religiosas sejam simplesmente excluídas do movimento socialista. (Arquivo Marxista⁠)


Por outro lado, sua posição filosófica é inequivocamente materialista. Lenin defende a propagação da visão científica de mundo e o combate ideológico às concepções religiosas. No mesmo texto, afirma que o proletariado deveria conduzir uma luta aberta contra aquilo que entendia ser a fonte material da religião. (Arquivo Marxista⁠)


Existe, portanto, uma diferença importante entre duas proposições: liberdade religiosa perante o Estado e aceitação filosófica da religião pelo marxismo.


Uma não implica necessariamente a outra.


Essa distinção impede tanto a caricatura anticomunista quanto uma tentativa igualmente imprecisa de apresentar o marxismo clássico como filosoficamente neutro diante da existência de Deus.


Ele não é.


O conflito está na concepção do próprio homem


Chegamos, então, ao núcleo da questão.


A incompatibilidade entre cristianismo e marxismo clássico não começa necessariamente na economia.


Começa na antropologia.


Para o cristianismo, compreender plenamente o homem exige olhar para além do homem.


Para o materialismo marxista, a explicação deve ser procurada no próprio mundo humano, histórico, social e material.


Para o cristianismo, Deus não é projeção da necessidade humana; é anterior ao homem.


Para Marx, é o homem que produz a religião, e por consequência Deus. (Arquivo Marxista⁠)


Para o cristianismo, a reconciliação fundamental do homem envolve sua relação com Deus.


Para Marx, a emancipação exige superar as condições materiais que produzem aquilo que ele considera a necessidade da ilusão religiosa de Deus.


Não estamos diante de uma pequena divergência política.


Estamos diante de duas respostas diferentes para uma das perguntas mais antigas da humanidade: O que é o homem?


A desconexão do Húmus e do Sopro


É justamente aqui que uma crítica cristã ao marxismo pode ser formulada de maneira intelectualmente mais consistente.


Não é necessário afirmar que existe no Manifesto Comunista uma ordem literal dizendo: “desconecte o homem de Deus”.


Essa frase não existe.


A crítica mais profunda é outra.


Ao retirar Deus da condição de fundamento ontológico do homem e interpretar a transcendência religiosa como produto da própria realidade humana, o materialismo marxista promove uma ruptura conceitual entre o homem e aquilo que o cristianismo entende como sua origem transcendente.


A crítica cristã pode, então, perguntar quais são as consequências dessa ruptura.


Se o homem for apenas explicado pelo homem, quem fundamentará uma dignidade humana que anteceda Estado, sociedade, classe e circunstância histórica?


Se toda transcendência for reduzida a fenômenos humanos, existe alguma verdade acerca do homem que permaneça acima das estruturas sociais?


E, principalmente: o que acontece quando aquele que deveria reconhecer-se como criatura passa a considerar-se suficiente para explicar sua própria existência?


É nesse sentido que podemos falar metaforicamente da desconexão entre o Humano, o Húmus e o Sopro.


O húmus permanece: matéria, produção, necessidade, economia, história.


O homem permanece.


Mas o Sopro deixa de ser necessário à explicação.


Conclusão: a disputa pelo centro


A crítica cristã mais robusta ao marxismo não precisa transformá-lo numa caricatura de simples “ódio a Deus. Essa formulação, além de historicamente simplista, enfraquece uma discussão que é filosoficamente muito mais séria.


O materialismo marxista realiza algo mais profundo: reorganiza a compreensão do homem sem recorrer a Deus como seu fundamento transcendente.


Marx procura explicar a religião pelo homem. Engels procura explicar o sobrenatural pelas forças naturais e sociais. Lenin assume explicitamente uma visão materialista e defende seu enfrentamento ideológico com a religião. (Arquivo Marxista⁠)


A partir de uma perspectiva cristã, portanto, a divergência essencial pode ser formulada assim: não se trata apenas de quem possuirá os meios de produção. Trata-se de quem, ou de Quem, possui a primazia na definição do próprio homem.


Quando Deus deixa de ser o fundamento, o homem precisa encontrar em algum lugar aquilo que antes recebia da transcendência: identidade, dignidade, verdade, moralidade, propósito e destino.


Marx acreditava que libertar o homem de suas ilusões religiosas contribuiria para sua emancipação.


O cristianismo apresenta a hipótese inversa: talvez a maior alienação do homem não aconteça quando ele procura Deus, mas precisamente quando, acreditando ter encontrado a si mesmo, já não reconhece Aquele de quem recebeu o Sopro.


E então permanece a pergunta: ao colocar o homem no centro, nós finalmente o libertamos ou apenas o deixamos sozinho diante de si mesmo?

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação*
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • LinkedIn
  • Youtube
  • TikTok
  • Tópicos

©2020 por Open Planning | Gestão Empresarial Ltda. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page