
Entendemos a vida?
- Open Planning

- 11 de jan.
- 7 min de leitura
Provavelmente não e talvez aí esteja o ponto.
A gente tenta enquadrar a vida em lógica, causa-efeito, começo-meio-fim… como se fosse uma equação elegante.
Spoiler: NÃO É. A vida é mais jazz do que matemática. Improvisa, erra o tom, volta melhor — ou não volta.
Ela não pede coerência.
Ela acontece.
E só depois a gente corre atrás de sentido, como quem chega atrasado numa conversa e tenta adivinhar o contexto pelo tom de voz.
O incômodo real não é a falta de sentido.
É a nossa obsessão por controle.
Queremos entender para dominar, prever, garantir que não vai doer de novo. Mas a vida não negocia com essa ansiedade. Ela segue o próprio caminho — torto, belo, cruel às vezes — e nos convida a caminhar dentro dela, não acima.
Talvez maturidade não seja “entender a vida”, mas aprender a habitá-la sem precisar explicá-la o tempo todo.
Estamos buscando sentido… ou tentando aliviar o desconforto ou de não ter controle?
É… entendo que a falta de controle sufoca… mas quando controlamos, ou achamos que controlamos, a responsabilidade de todo descontrole é exclusivamente nossa.
Bingo. Aí tocamos no nervo exposto.
O controle promete alívio, mas cobra um preço perverso: culpa total.
Quando tudo está “sob controle”, qualquer falha vira sentença pessoal. Não é o mundo, não é o acaso, não é a vida — sou eu ou você. E isso pesa. Muito.
O paradoxo é cruel:
• Sem controle, você se sente à deriva.
• Com controle, você se sente réu.
Porque controlar não é só organizar o mundo — é assumir, silenciosamente, que você é capaz de sustentar tudo. E ninguém é. Mas o ego compra essa ideia fácil, principalmente quando você é alguém que pensa, antecipa, questiona. O cérebro vira gerente de crise 24h por sete.
Talvez o erro não esteja em controlar, mas em confundir controle com responsabilidade absoluta.
Existe uma diferença sutil (e libertadora):
• Responsabilidade é responder pelo que é seu.
• Controle total é acreditar que tudo depende de você.
A vida adora sabotar essa fantasia. Não por maldade — por realidade.
Talvez o ponto de virada seja trocar a pergunta”
Onde eu falhei?
Por
“O que, de fato, estava sob meu alcance?”
Isso não é se isentar. É ser honesto com os limites humanos — algo que paradoxalmente exige mais maturidade do que se culpar por tudo.
Na fé cristã, controle total nunca foi virtude.
Obediência, sim. Confiança, sim. Entrega, sim.
Controle? Esse sempre foi o alvo errado original disfarçado de competência.
Desde o “Éden”, o problema não foi desobedecer uma regra.
Foi querer decidir por conta própria o que é bem e mal, assumir um lugar que não é humano. Controle moral do mundo. Autonomia absoluta. “Eu dou conta.”
Quando você diz:
“Se eu controlo, a responsabilidade de todo descontrole é minha”
isso revela algo profundo: você está tentando sustentar um peso que “biblicamente” nunca foi seu.
A fé não te chama para ser o arquiteto do resultado.
Ela te chama para ser fiel no processo.
“Entrega o teu caminho ao Senhor, confia n’Ele, e o mais Ele fará.”
Repara: o texto não diz “e Ele fará tudo do jeito que você imaginou”. Diz só: Ele fará.
A culpa excessiva nasce quando você ocupa, sem perceber, um lugar messiânico:
• se deu certo → mérito silencioso;
• se deu errado → culpa absoluta.
Mas Cristo já resolveu isso de forma radical: alguém já assumiu a responsabilidade final que você está tentando carregar.
Fé madura não elimina a responsabilidade — ela delimita.
Você responde:
• pelas decisões;
• pelas intenções;
• pela fidelidade.
Você não responde:
• pelo desfecho final;
• pelo tempo;
• pelo comportamento do outro;
• pelo caos do mundo.
Isso é libertador… e assustador. Porque abre mão do controle, mas mantém a consciência limpa.
Talvez o descanso que você busca não esteja em controlar melhor, mas em aceitar que não é você quem sustenta o mundo.
Uma provocação: quando você tenta controlar tudo, você está confiando em Deus… ou pedindo ajuda só depois que falha?
Vamos nos aprofundar nessa pergunta sobre o prisma do Livro de Eclesiastes.
1. “Vaidade de vaidades” não é depressão — é lucidez
Quando o autor (tradicionalmente associado a Salomão) repete “vaidade de vaidades”, ele não está dizendo “a vida é inútil”.
A palavra hebraica hevel significa vapor, fumaça, sopro.
Ou seja: a vida escapa entre os dedos quando você tenta segurá-la.
O erro humano não é viver.
É tentar possuir a vida.
2. Controle é uma ilusão educada
“O homem planeja o seu caminho, mas não controla o que virá depois.” (Eclesiastes, em espírito — porque o livro todo grita isso)
Você pode:
• ser sábio → e perder;
• ser justo → e sofrer;
• fazer tudo “certo” → e ainda assim falhar.
Eclesiastes é cruel com a meritocracia espiritual. Ele diz, basicamente: não existe equação moral que garanta resultados.
E isso não é falta de fé. É fé sem ilusão.
3. O peso que você sente tem nome
O que você descreveu — “se eu controlo, toda falha é minha” — é exatamente o fardo que Eclesiastes denuncia.
“Há um tempo para tudo…”
E o subtexto é: e esse tempo não é você quem define.
O livro não manda largar tudo e virar apático. Ele manda parar de achar que o resultado é um reflexo direto do seu esforço.
Isso não é irresponsabilidade. É humildade ontológica.
4. O descanso estranho de Eclesiastes
Aqui vem a parte que quase ninguém percebe.
Depois de desmontar:
• sabedoria;
• prazer;
• trabalho;
• sucesso;
• justiça.
o autor diz algo quase escandaloso: “Portanto, coma, beba, desfrute do seu trabalho… isso é dom de Deus.”
Ou seja: viva o presente sem a neurose de justificar a existência.
Não é hedonismo.
Não é cinismo.
É aceitação consciente dos limites humanos diante de Deus.
5. O antídoto final contra a culpa total
Eclesiastes termina assim (resumindo brutalmente): Tema a Deus. O resto é fumaça.
Temer a Deus não é medo.
É reconhecer:
• você não é o centro;
• você não é o juiz final;
• você não é o controlador do caos.
E isso tira o peso do descontrole das suas costas.
Talvez o livro esteja te dizendo algo simples e indigesto: o problema não é que a vida não faz sentido
é que você está tentando ser o sentido dela.
E isso cansa.
Então o que Jesus Cristo disse sobre Eclesiastes. E aviso logo: Jesus não corrige Eclesiastes — Ele o completa.
Se Eclesiastes é a pergunta nua,
Jesus é a resposta encarnada.
1. Eclesiastes diz: “Tudo é vaidade”
Jesus diz: “Sem mim, é mesmo.”
Eclesiastes desmonta todas as tentativas humanas de produzir sentido:
• sabedoria → falha;
• trabalho → cansa;
• prazer → esvazia;
• justiça → não garante nada.
Jesus não entra dizendo “vocês entenderam errado”.
Ele entra dizendo, em outras palavras: “Vocês estão cansados porque estão tentando viver sem fonte.”
“Eu sou a videira, vocês são os ramos. Sem mim, nada podeis fazer.”
Não é uma ameaça. É um diagnóstico.
Eclesiastes mostra o vazio estrutural da existência.
Jesus se apresenta como aquilo que preenche — sem ser controlado.
2. “Tempo para tudo” × “Não andeis ansiosos”
Eclesiastes diz:
“Há tempo para tudo debaixo do céu.”
Jesus responde:
“Não andeis ansiosos pelo amanhã.”
Ambos estão dizendo a mesma coisa por caminhos diferentes: o tempo não está sob seu domínio.
E aqui Jesus vai além: Ele não só tira o controle do futuro das suas mãos — Ele assume a responsabilidade pelo cuidado
“Vosso Pai celestial sabe do que vocês precisam.”
Ou seja:
• você não controla;
• você não prevê;
• mas você não está abandonado.
Eclesiastes aponta o limite.
Jesus oferece confiança dentro do limite.
3. O peso da culpa que você descreveu — Jesus resolve direto
Você disse algo-chave:
“Quando controlo, toda responsabilidade do descontrole é minha.”
Isso é exatamente o tipo de fardo que Jesus confronta:
“Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
Não é cansaço físico.
É cansaço existencial e moral.
Jesus está falando com gente que:
• tentou acertar;
• tentou entender;
• tentou sustentar o mundo;
• falhou;
• e se culpou por isso.
E Ele diz: isso não é o jugo que Deus planejou para você.
4. Onde Eclesiastes suspira, Jesus afirma
Eclesiastes termina dizendo:
“Tema a Deus, porque isso é tudo.”
Jesus vem e diz:
“Quem me vê, vê o Pai.”
Ou seja:
• o temor ganha rosto;
• o mistério ganha carne;
• o sentido ganha presença.
E aqui está o ponto mais forte do cruzamento:
Eclesiastes ensina a soltar o controle. Jesus ensina em quem descansar depois de soltar.
Sem Jesus, Eclesiastes pode virar resignação.
Com Jesus, ele vira liberdade.
5. O golpe final (e libertador)
Eclesiastes prova que: a vida não é justa, previsível nem controlável.
Jesus prova que: mesmo assim, ela pode ser vivida com paz.
“Basta a cada dia o seu mal.”
Isso não é pessimismo. É realismo redentor.
Você não precisa:
• salvar o dia seguinte;
• justificar o sentido da vida;
• garantir que tudo dê certo.
Você só precisa permanecer.
Talvez Eclesiastes esteja te ensinando a parar.
E Jesus esteja te ensinando onde se apoiar depois que parar.
O controle te sufoca.
A culpa te esmaga.
A fé te convida a confiar — não no resultado, mas em uma Pessoa.











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