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Quando o jantar vira dívida: o crédito como anestesia de uma economia adoecida

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    Open Planning
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

O iFood informou que 1,3 milhão de pedidos foram parcelados no cartão de crédito entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. O número mais que dobrou em relação aos pouco mais de 500 mil pedidos parcelados entre setembro e novembro de 2025. A funcionalidade, inicialmente disponível para compras em mercados e farmácias, posteriormente foi ampliada para os restaurantes da plataforma. (E-Commerce Update⁠)


Portanto, é necessário começar pela precisão: não se pode afirmar que 1,3 milhão de brasileiros precisaram parcelar uma pizza para conseguir comer. Estamos falando de pedidos, não de consumidores únicos, e parte das transações pode envolver compras de mercado, farmácia ou pedidos realizados por pessoas que apenas preferiram organizar o fluxo do cartão.


Além disso, o iFood registrou cerca de 180 milhões de pedidos somente em novembro de 2025. Tomando esse volume mensal apenas como referência aproximada, os 1,3 milhão de pedidos parcelados representariam algo próximo de 0,36% dos pedidos realizados durante dois meses. É uma parcela pequena do total e, isoladamente, não permite decretar que toda a economia brasileira esteja na UTI. (iFood Institucional⁠)


Isso, entretanto, não torna o fenômeno irrelevante. O problema não está apenas na quantidade, mas naquilo que ela simboliza: o crédito deixou de financiar exclusivamente bens duráveis, investimentos ou emergências e passou a alcançar produtos consumidos antes mesmo do vencimento da primeira parcela. A pizza desaparece naquela noite; a dívida continua aparecendo na fatura pelos meses seguintes.


A situação se torna mais preocupante porque ocorre em um país no qual 81,6% das famílias declararam possuir dívidas em maio de 2026, o maior percentual da série histórica naquele momento. A proporção de famílias com contas atrasadas chegou a 29,9%, enquanto o cartão de crédito aparecia em 84,6% das famílias endividadas. (Broadcast Finance⁠)


A própria confiança do consumidor permanece frágil. Em junho de 2026, o índice da FGV ficou em 88,7 pontos, com recuo pelo segundo mês consecutivo na expectativa financeira futura das famílias. Isso demonstra que, mesmo quando o consumo continua acontecendo, ele frequentemente ocorre acompanhado de insegurança sobre renda, despesas e capacidade futura de pagamento. (Portal IBRE⁠)


É justamente nesse ambiente que o parcelamento de refeições merece atenção. Quando a renda não acompanha o custo de vida, o crédito passa a funcionar como complemento artificial do salário. A pessoa mantém momentaneamente seu padrão de consumo, mas transfere parte da renda futura para pagar aquilo que já consumiu. Quando essa prática se repete, as parcelas se acumulam, reduzem a renda disponível e criam a necessidade de novos parcelamentos.


A empresa chama esse movimento de ampliação do poder de compra e democratização do crédito. Comercialmente, faz sentido: mais crédito significa mais pedidos e mais faturamento. Economicamente, porém, existe um detalhe inconveniente — quase uma deselegância da realidade: crédito não cria renda; apenas antecipa consumo e cobra pelo tempo. (E-Commerce Update⁠)


O parcelamento de uma pizza não prova, sozinho, que a economia brasileira esteja em colapso. Mas revela um sintoma de uma doença que já não pode ser ignorada: famílias excessivamente endividadas, dependência do cartão e normalização dos juros até sobre o consumo cotidiano.


Talvez a economia ainda não esteja oficialmente na UTI. Mas já passou pela emergência, recebeu medicação para esconder os sintomas e continua sendo mantida em pé por doses crescentes de crédito. O problema é que anestesia financeira não cura perda de poder de compra. Apenas adia a dor — e acrescenta juros à conta.

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