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Billy Graham: a fé que sobreviveu à dúvida e o caráter que desconfiou de si mesmo

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
16 de ago.
7 min de leitura

homens cuja trajetória impressiona pelo tamanho daquilo que construíram. Outros impressionam pela maneira como conseguiram permanecer de pé enquanto construíam. Billy Graham pertence às duas categorias.


Milhões de pessoas ouviram suas pregações, presidentes buscaram sua companhia, estádios ficaram lotados e seu ministério atravessou décadas. Entretanto, dois acontecimentos menos espetaculares talvez expliquem melhor sua longevidade do que as grandes cruzadas: o Manifesto de Modesto, em 1948, e sua crise de fé em Forest Home, em 1949.


Um revela como Graham decidiu enfrentar sua própria vulnerabilidade moral.


O outro revela como enfrentou sua vulnerabilidade intelectual e espiritual.


E talvez exista uma extraordinária lição justamente na união desses dois acontecimentos: Billy Graham não construiu sua vida acreditando ser invulnerável. Construiu-a reconhecendo que não era.


Quando a dúvida entra na fé


Existe uma ideia perigosa dentro de determinados ambientes cristãos: a de que questionar significa necessariamente não ter fé.


Não acredito que seja tão simples.


Há uma diferença enorme entre questionar Deus porque se deseja abandoná-Lo e questionar porque se deseja compreender melhor aquilo em que se acredita.


Billy Graham experimentou algo próximo disso em 1949.


Seu amigo Charles Templeton, também evangelista e considerado extremamente promissor, havia começado a questionar profundamente a autoridade das Escrituras. Depois de seus estudos teológicos, Templeton passou a confrontar Graham intelectualmente. Segundo o relato posterior de Graham, a questão não era naquele momento a divindade de Cristo nem a validade do Evangelho; sua crise estava concentrada em outra pergunta: Posso realmente confiar na Bíblia que estou pregando? (Billy Graham Evangelistic Association⁠)


Essa pergunta não era periférica.


Se a resposta fosse não, Graham reconheceu posteriormente que teria dificuldade em continuar no evangelismo. A crise atingia o fundamento de seu ministério. (The Billy Graham Library⁠)


É justamente aqui que sua experiência me interessa.


Porque Graham poderia simplesmente ter reprimido suas perguntas.


Poderia ter chamado suas dúvidas de falta de fé.


Poderia ter construído respostas superficiais para preservar sua própria segurança.


Não foi exatamente isso que aconteceu.


Ele estudou, conversou, sofreu e chegou ao ponto de reconhecer algo desconfortável: não possuía respostas para todas as perguntas que estavam sendo colocadas diante dele.


Forest Home: quando não ter todas as respostas deixa de ser o problema


Em agosto de 1949, Graham estava em Forest Home, um retiro cristão nas montanhas próximas a Los Angeles.


Carregava consigo questionamentos intelectuais, dificuldades recentes no ministério e as provocações de Templeton. Durante aquele período, conversou também com Henrietta Mears, educadora cristã que possuía, segundo Graham, tanto confiança nas Escrituras quanto conhecimento da discussão acadêmica existente sobre elas. (Billy Graham Evangelistic Association⁠)


Até que uma noite Graham saiu sozinho.


Levou sua Bíblia.


No meio da floresta, colocou-a sobre um tronco.


Sua oração, posteriormente reconstruída em sua autobiografia, é extraordinária justamente porque não começa com certeza.


Graham reconheceu diante de Deus que havia coisas na Bíblia que não compreendia, problemas para os quais não possuía solução e questões filosóficas e psicológicas levantadas por Templeton e outros que ele não conseguia responder. Então tomou sua decisão: aceitaria as Escrituras pela fé, permitindo que a fé ultrapassasse as perguntas intelectuais que ainda permaneciam. (Billy Graham Evangelistic Association⁠)


Isso precisa ser compreendido cuidadosamente.


Graham não afirmou ter encontrado naquela floresta uma resposta intelectual para cada questionamento.


Ele encontrou uma posição diante das perguntas.


Essa diferença é gigantesca.


Fé não significou ausência de perguntas.


Significou decidir em quem depositaria sua confiança enquanto algumas perguntas permanecessem abertas.


O caminho diferente de Charles Templeton


É justamente aqui que Charles Templeton torna a história ainda mais provocadora.


Os dois homens haviam pregado.


Os dois conheciam o ambiente evangelístico.


Os dois foram confrontados por questões intelectuais.


Os dois chegaram diante de dúvidas profundas.


Mas seguiram caminhos diferentes.


Templeton caminhou progressivamente para longe da fé cristã. Graham permaneceu.


Seria intelectualmente pobre concluir simplesmente que um “teve fé” e o outro “não teve.


Existe uma questão muito mais profunda: O que fazemos quando nossa razão chega a um território em que já não consegue produzir a certeza que desejamos?


A razão precisa continuar trabalhando.


A fé cristã não deveria temer investigação, história, ciência, filosofia ou perguntas difíceis.


Mas também existe um perigo inverso: transformar a própria razão em uma espécie de divindade, exigindo que absolutamente tudo seja submetido à nossa capacidade individual de compreensão antes que possamos confiar.


Talvez Graham tenha percebido naquela noite que existe um ponto em que o homem precisa escolher entre duas afirmações: “Só acreditarei naquilo que conseguir compreender completamente.”


ou


Continuarei buscando compreender aquilo em que decidi confiar.


São posições radicalmente diferentes.


Um ano antes, Graham já havia desconfiado de outra coisa: dele mesmo


Em 1948, antes de Forest Home, ocorreu outro episódio fundamental.


Graham estava em Modesto, Califórnia, com Cliff Barrows, George Beverly Shea e Grady Wilson. A equipe resolveu analisar os problemas que historicamente atingiam evangelistas e ministérios.


As listas produzidas por eles eram muito semelhantes.


Quatro perigos apareceram: dinheiro, sexo, relacionamento com igrejas e publicidade.


Daquelas discussões surgiram compromissos internos posteriormente conhecidos como Manifesto de Modesto. Não era originalmente um grande manifesto formal; Graham descreveu-o como um entendimento entre eles, uma série de compromissos destinados a preservar integridade e pureza no ministério. (Billy Graham Evangelistic Association⁠)


Financeiramente, decidiram evitar manipulação das pessoas para obtenção de ofertas e estabelecer maior responsabilidade sobre os recursos.


Moralmente, estabeleceram limites para situações que pudessem facilitar comportamentos sexuais impróprios ou produzir suspeitas.


Ministerialmente, decidiram não construir reputação atacando igrejas e outros líderes cristãos.


E, na comunicação, comprometeram-se a não exagerar números, resultados ou tamanho das multidões para produzir artificialmente a aparência de sucesso. (Billy Graham Evangelistic Association⁠)


Observe a inteligência existente nisso.


Eles não disseram: “Somos homens de Deus, portanto essas coisas jamais acontecerão conosco.”


Fizeram praticamente o contrário: “Somos homens e, justamente por isso, precisamos criar limites.”


O caráter que desconfia de si mesmo


Essa talvez seja uma das maiores lições de liderança deixadas pelo Manifesto de Modesto.


Integridade não é simplesmente confiar na própria força moral.


É reconhecer antecipadamente onde estão nossas vulnerabilidades e construir estruturas que nos impeçam de negociar nossos princípios quando estivermos vulneráveis.


Há uma ingenuidade perigosa na frase:


Eu sei até onde posso ir.”


Muitos escândalos pessoais, empresariais, políticos e religiosos começaram exatamente assim.


O homem acredita controlar dinheiro.


Acredita controlar poder.


Acredita controlar sexualidade.


Acredita controlar ego.


Acredita controlar reconhecimento.


Até descobrir que aquilo que acreditava controlar começou silenciosamente a controlá-lo.


O Manifesto de Modesto parte de uma antropologia muito mais realista: o homem precisa desconfiar suficientemente de si mesmo para estabelecer limites antes da tentação, e não durante ela.


Porque regras estabelecidas durante a lucidez protegem decisões que teremos de tomar durante a vulnerabilidade.


Forest Home e Modesto dizem praticamente a mesma coisa


É aqui que os dois episódios se encontram.


Em Forest Home, Graham reconheceu: Minha capacidade intelectual possui limites.


Em Modesto, reconheceu: Minha capacidade moral também possui limites.


Diante da primeira, estabeleceu onde depositaria sua fé.


Diante da segunda, estabeleceu limites para sua conduta.


Uma decisão protegeu aquilo em que acreditava.


A outra protegeu a maneira como viveria aquilo em que acreditava.


E talvez seja justamente essa combinação que explique parte importante da longevidade de seu ministério.


Não ausência de vulnerabilidade.


Consciência dela.


A fé adulta não precisa fugir das perguntas


Essa história me confronta porque também vivencio questionamentos sobre a fé.


E talvez o erro esteja em acreditar que preciso escolher entre ser um homem questionador ou um homem de fé.


Não necessariamente.


Talvez a questão seja outra: O que estou procurando quando questiono?


Se questiono apenas para encontrar argumentos que confirmem aquilo que previamente decidi negar, minha investigação já começa comprometida.


Mas o inverso também é verdadeiro.


Se tenho medo de investigar porque determinadas respostas podem confrontar aquilo que acredito, talvez minha fé esteja apoiada mais na segurança psicológica do que na verdade.


A fé madura precisa suportar perguntas.


Existem perguntas que terão respostas.


Existem respostas que modificarão nossa interpretação.


Existem crenças periféricas que talvez precisem ser abandonadas.


E provavelmente existirão questões diante das quais chegaremos ao limite daquilo que conseguimos compreender.


É exatamente nesse território que fé deixa de significar possuir todas as respostas e passa a significar confiança.


E existe algo ainda mais incômodo


Talvez seja relativamente fácil discutir a fé de Billy Graham.


Mais difícil é aplicar Modesto a nós mesmos.


Quais são os meus limites?


Onde estão minhas vulnerabilidades?


Dinheiro?


Vaidade?


Reconhecimento?


Poder?


Sexo?


Necessidade de aprovação?


Ego?


Aparência?


Redes sociais?


A pergunta realmente desconfortável não é: “Eu sou uma pessoa íntegra?


É: “Que estruturas construí para continuar íntegro quando minha integridade for colocada à prova?


Porque caráter não deveria depender exclusivamente da força de vontade daquele determinado dia.


Conclusão — o homem que reconheceu seus limites


Quando observo Billy Graham por essa perspectiva, aquilo que mais me impressiona deixa de ser o tamanho das multidões.


Não são os estádios.


Não são os presidentes.


Não é sua projeção internacional.


É perceber que, antes de grande parte disso acontecer, encontramos um jovem evangelista diante de duas realidades profundamente humanas: sua capacidade de duvidar e sua capacidade de cair.


Em Modesto, ele decidiu não confiar cegamente em seu próprio caráter.


Em Forest Home, decidiu que não exigiria de sua própria razão uma compreensão absoluta como condição para continuar confiando em Deus.


Isso não transformou Billy Graham em um homem sem perguntas.


Também não o transformou em um homem incapaz de errar.


Transformou-o em algo talvez muito mais interessante: um homem consciente de seus limites.


E talvez esteja aí uma das grandes diferenças entre fé infantil e fé amadurecida.


A fé infantil acredita que precisa possuir todas as respostas.


A fé amadurecida continua procurando respostas, mas já sabe que Deus não precisa caber completamente dentro de sua capacidade de compreensão.


Da mesma maneira, o caráter imaturo afirma: “Isso nunca acontecerá comigo.”


O caráter amadurecido pergunta: “Sabendo que também sou vulnerável, que limites preciso estabelecer hoje para não me tornar amanhã aquilo que hoje condeno?


Billy Graham parece ter enfrentado as duas perguntas muito cedo.


Em Forest Home, colocou sua dúvida diante de Deus.


Em Modesto, colocou limites diante de si mesmo.


Talvez seja essa a síntese: fé não é deixar de questionar Deus; é continuar buscando-O quando as respostas ainda não chegaram.


E integridade não é acreditar que jamais cairíamos.


É conhecer suficientemente a natureza humana — inclusive a nossa — para não brincar à beira do precipício.


Sobre o ministério de Billy Graham duas coisas me chamam atenção: o questionamento que vivencio sobre sua fé é como lidou com isso e o Manifesto de Modesto.

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