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A Força de Não se Tornar Aquilo que se Combate

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
14 de ago.
6 min de leitura

O cristianismo fundamentado em Cristo não promete ao indivíduo uma existência livre de conflitos, injustiças, decepções ou adversários. Ao contrário, os próprios Evangelhos apresentam Jesus enfrentando oposição, perseguição, traição, abandono e violência. A singularidade da experiência cristã, portanto, não está na ausência de confrontos, mas na maneira como o indivíduo decide atravessá-los. O desafio não é apenas vencer aquilo que se levanta contra nós; é impedir que aquilo que combatemos passe a habitar dentro de nós.


Essa perspectiva encontra pontos de contato importantes tanto com a psicologia quanto com a filosofia. Em linguagens diferentes, essas três dimensões — fé, psicologia e filosofia — convergem para uma questão essencial: até que ponto somos capazes de preservar nossos princípios quando somos provocados exatamente naquilo que mais nos fere?


Cristo e a ruptura com a lógica da vingança


Jesus apresenta uma das propostas moralmente mais exigentes do cristianismo quando ensina: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44). Interpretada superficialmente, essa passagem pode parecer um convite à submissão ou à passividade. Não é.


O próprio Cristo confrontou comportamentos, denunciou hipocrisias, estabeleceu limites e recusou determinadas relações. O cristianismo não exige que o indivíduo permaneça indefeso diante da injustiça. Existe uma diferença profunda entre não buscar vingança e não buscar justiça.


Perdoar não significa necessariamente reconciliar-se. Amar o inimigo não significa entregar-lhe novamente acesso irrestrito à própria vida. Não alimentar ódio não significa aceitar abuso. E agir segundo Cristo não significa eliminar limites.


A questão cristã está justamente em conseguir estabelecer limites sem transformar esses limites em instrumentos de vingança.


Paulo sintetiza essa lógica em Romanos 12:21: Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Existe aqui uma compreensão extraordinariamente sofisticada da natureza humana: o mal pode nos vencer não apenas quando nos derrota externamente, mas quando consegue modificar internamente aquilo que somos.


A psicologia e o perigo de viver em função do adversário


A psicologia acrescenta uma dimensão relevante a essa reflexão. Quando alguém nos ameaça, humilha ou prejudica, respostas emocionais como raiva, medo e desejo de retaliação podem surgir naturalmente. O problema começa quando deixamos de simplesmente sentir essas emoções e passamos a organizar nossas decisões em torno delas.


A ruminação — permanecer mentalmente repetindo uma ofensa, uma injustiça ou uma situação dolorosa — pode prolongar emocionalmente acontecimentos que já terminaram concretamente. O adversário deixa de ocupar apenas um espaço externo e passa a ocupar também nosso espaço psicológico.


Surge então um paradoxo: quanto mais queremos derrotar determinada pessoa, maior pode se tornar o poder psicológico que concedemos a ela.


Ela passa a influenciar nossos pensamentos, nosso humor, nossas decisões e até nossa identidade.


Nesse sentido, a proposta cristã de não viver orientado pela vingança possui também uma dimensão de liberdade psicológica. Perdoar, quando compreendido adequadamente, não significa afirmar que aquilo que aconteceu foi aceitável. Significa, entre outras coisas, recusar-se a permanecer emocionalmente aprisionado ao acontecimento.


É possível perdoar e manter distância.


É possível compreender e estabelecer limites.


É possível abandonar o ódio e ainda assim exigir responsabilidade.


E é possível desejar o bem de alguém sem permitir que essa pessoa continue fazendo parte da nossa intimidade.


A filosofia e o domínio sobre aquilo que podemos controlar


A filosofia também oferece uma contribuição importante. Os estoicos, particularmente Epicteto e Marco Aurélio, insistiam na distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende.


Não controlamos completamente o comportamento das outras pessoas.


Não controlamos aquilo que dizem sobre nós.


Não controlamos determinadas injustiças.


Não controlamos traições, julgamentos ou interpretações externas.


Mas podemos exercer algum domínio sobre nossa própria resposta.


Essa ideia aproxima-se de um princípio fundamental da vida cristã: o comportamento do outro não deveria possuir autoridade para determinar nosso caráter.


Se alguém mente sobre mim, a mentira pertence ao outro.


Se, para combatê-la, eu também passo a mentir, algo que inicialmente pertencia ao outro passou a pertencer a mim.


Se alguém age com crueldade e minha resposta passa a ser orientada pela mesma crueldade, talvez eu tenha derrotado meu adversário circunstancialmente, mas permiti que sua lógica penetrasse em meu próprio comportamento.


Marco Aurélio expressou uma ideia semelhante ao advertir para o risco de nos tornarmos semelhantes àquilo que combatemos. Muito antes de qualquer discussão contemporânea sobre inteligência emocional, a filosofia já percebia que a verdadeira vitória não consiste apenas em controlar acontecimentos externos, mas em preservar o governo sobre si mesmo.


O confronto continua sendo necessário


Nada disso significa transformar o cristianismo em uma filosofia de passividade.


momentos para confrontar.


momentos para denunciar.


momentos para estabelecer limites.


momentos para romper relações.


momentos para buscar justiça.


E existem situações em que afastar-se é precisamente a decisão mais responsável.


A maturidade está em compreender que firmeza e agressividade não são sinônimos, assim como mansidão e fraqueza também não são.


Cristo foi extraordinariamente manso e extraordinariamente firme.


Talvez nossa sociedade tenha dificuldade em compreender essa combinação porque frequentemente trabalha com extremos: ou se aceita tudo silenciosamente ou se destrói o adversário. Cristo apresenta uma terceira possibilidade: confrontar sem odiar.


Quando o adversário começa a governar nossa vida


Existe ainda um perigo mais sutil.


Podemos começar combatendo alguém e, algum tempo depois, perceber que toda nossa existência passou a ser organizada em função dessa pessoa.


Pensamos nela.


Falamos dela.


Planejamos contra ela.


Imaginamos respostas.


Construímos estratégias.


Esperamos sua derrota.


Nesse momento, paradoxalmente, o adversário já conquistou uma espécie de vitória: passou a ocupar um espaço dentro de nós que nunca deveria ter recebido.


A psicologia chamaria atenção para o custo emocional dessa dinâmica. A filosofia questionaria a perda de domínio sobre si. O cristianismo perguntaria algo ainda mais profundo:


Quanto de Cristo permanece em nós quando somos confrontados por aquilo que existe de pior no outro?


O verdadeiro campo de batalha


Talvez a maior batalha cristã não aconteça entre nós e aqueles que se levantam contra nós.


Talvez aconteça dentro de nós.


Entre a vontade de revidar e a decisão de permanecer íntegro.


Entre o ressentimento e o perdão.


Entre o orgulho e a humildade.


Entre a necessidade de provar alguma coisa e a serenidade de saber quem somos.


Entre aquilo que nossos impulsos desejam fazer e aquilo que nossos princípios determinam que devemos fazer.


Por isso, a pergunta cristã não deveria ser simplesmente:


Como derrotarei aqueles que se levantaram contra mim?


Mas:


Como atravessarei aquilo que fizeram comigo sem permitir que isso destrua aquilo que Cristo está construindo em mim?


A vitória que ninguém vê


Existe uma espécie de vitória que dificilmente aparece nas redes sociais, nos tribunais da opinião pública ou nas disputas cotidianas.


É quando poderíamos humilhar, mas escolhemos não fazê-lo.


Quando poderíamos destruir uma reputação, mas escolhemos apenas defender a verdade.


Quando poderíamos devolver exatamente aquilo que recebemos, mas recusamos reproduzir o mesmo comportamento.


Quando estabelecemos limites sem ódio.


Quando buscamos justiça sem desejar vingança.


Quando seguimos em frente sem precisar assistir à queda daquele que nos feriu.


Para a psicologia, isso pode representar autorregulação emocional e libertação da ruminação.


Para determinadas tradições filosóficas, representa domínio sobre si mesmo e coerência entre valores e ações.


Para o cristianismo, entretanto, existe algo ainda maior: representa tornar-se progressivamente semelhante a Cristo.


Conclusão — Quem você se torna durante a batalha?


A vida inevitavelmente colocará pessoas, circunstâncias e injustiças diante de nós. Algumas precisarão ser enfrentadas. Outras deverão ser abandonadas. Algumas exigirão perdão; outras, limites; e determinadas situações exigirão justiça.


Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar todas elas: Quem estou me tornando enquanto enfrento isso?


Porque podemos vencer uma discussão e perder nossa paz.


Podemos destruir um adversário e perder nossa integridade.


Podemos provar que estávamos certos e, no processo, tornar-nos exatamente aquilo que condenávamos.


Cristo apresenta outro caminho.


Não o caminho da fraqueza.


Não o caminho da ingenuidade.


Não o caminho da submissão ao mal.


Mas o caminho extraordinariamente difícil de possuir força sem crueldade, firmeza sem ódio, justiça sem vingança e autoridade sobre si mesmo antes de pretender exercê-la sobre os outros.


No final, talvez uma das maiores evidências da maturidade cristã seja perceber que nem toda provocação merece uma reação, nem todo adversário merece nossa energia e nem toda batalha precisa produzir um derrotado.


Algumas das maiores vitórias acontecem quando olhamos para aquilo que enfrentamos e percebemos que continuamos capazes de reconhecer Cristo em nossas próprias atitudes.


Porque a vitória cristã não consiste apenas em superar aquilo que se levantou contra nós. Consiste em chegar ao outro lado sem termos nos tornado aquilo que combatíamos.

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