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Quando Economizar Custa a Liderança: a Lição da Globo na Copa de 2026

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
há 7 dias
4 min de leitura

A Globo economizou na Copa e ajudou a financiar o próprio concorrente.


Durante décadas, falar em Copa do Mundo no Brasil praticamente significava falar em Globo. A emissora não transmitia apenas futebol: controlava grande parte da narrativa, da audiência, da publicidade e do imaginário construído em torno do maior evento esportivo do planeta.


A Copa de 2026 mostrou que essa hegemonia já não pode mais ser considerada automática.


A decisão da Globo de não adquirir o pacote integral de direitos do Mundial pode ter parecido racional sob a perspectiva financeira. Afinal, direitos esportivos são caros, o mercado de mídia mudou e nenhuma empresa deveria comprar ativos simplesmente porque sempre os comprou.


O problema aparece quando uma decisão aparentemente eficiente financeiramente produz uma consequência muito maior estrategicamente.


Porque existe uma diferença gigantesca entre economizar dinheiro e preservar valor.


Ao deixar parte relevante da competição disponível para outros players, a Globo abriu espaço para que novos concorrentes disputassem algo muito mais importante do que partidas de futebol: o hábito do consumidor.


E talvez esteja aí o verdadeiro problema.


A CazéTV não ganhou apenas jogos. Ganhou oportunidade.


A ascensão da CazéTV representa uma transformação muito maior do mercado de comunicação.


O público mais jovem não precisa necessariamente ligar uma televisão para acompanhar um grande evento. Ele pode assistir pelo celular, comentar simultaneamente, compartilhar memes, acompanhar influenciadores e consumir a transmissão dentro do mesmo ecossistema digital em que já passa boa parte do seu dia.


Portanto, quando uma empresa tradicional abre espaço para um novo concorrente dentro de um evento dessa magnitude, não está simplesmente dividindo audiência.


Está permitindo que o concorrente construa hábito.


E hábito é um dos ativos mais poderosos de qualquer negócio.


Durante décadas, a Globo construiu exatamente isso: brasileiro assistia à Copa na Globo porque assistir à Copa e assistir à Globo praticamente faziam parte do mesmo comportamento.


Em 2026, essa associação começou a ser seriamente fragmentada.


A planilha pode estar certa e a estratégia completamente errada


Esse talvez seja o maior aprendizado empresarial desse episódio.


Uma decisão pode ser financeiramente defensável e estrategicamente desastrosa.


Imagine que uma empresa economize centenas de milhões evitando determinado investimento.


A planilha comemora.


O EBITDA agradece.


O financeiro apresenta redução de custos.


Mas, enquanto isso, um concorrente utiliza exatamente aquele espaço abandonado para conquistar milhões de consumidores.


Quem economizou?


Essa pergunta deveria estar presente em qualquer conselho de administração.


Porque existem despesas que simplesmente consomem dinheiro.


Mas existem investimentos que funcionam como barreiras estratégicas contra concorrentes.


Os direitos de transmissão de uma Copa do Mundo podem pertencer à segunda categoria.


O erro das grandes empresas é acreditar que seu tamanho continuará protegendo-as


Kodak conheceu esse problema.


Blockbuster também.


Nokia igualmente.


Empresas dominantes frequentemente não desaparecem porque seus executivos ficaram repentinamente incompetentes.


Elas perdem espaço porque continuam tomando decisões perfeitamente racionais dentro de um mundo que já começou a desaparecer.


A televisão não morreu.


A Globo muito menos.


Ela continua sendo uma das maiores organizações de comunicação da América Latina e possui capacidade extraordinária de produção, distribuição e geração de conteúdo.


Mas exatamente por isso o episódio da Copa merece atenção.


Grandes empresas raramente são ameaçadas inicialmente por concorrentes maiores.


São ameaçadas por empresas menores que entendem primeiro como o comportamento das pessoas está mudando.


A Copa foi apenas o campo onde essa disputa ficou visível


A reorganização anunciada pela Globo em setembro de 2026 vai justamente na direção de maior integração entre televisão, conteúdo, plataformas digitais, consumidor, marketing, tecnologia, dados e inteligência artificial.


Isso demonstra que a própria organização compreende que competir daqui para frente exige uma arquitetura empresarial diferente.


Não existe mais televisão de um lado e internet do outro.


Existe atenção.


E todos estão disputando a mesma coisa: o tempo das pessoas.


Netflix disputa esse tempo.


YouTube disputa esse tempo.


TikTok disputa esse tempo.


Streaming disputa esse tempo.


Televisão disputa esse tempo.


E a CazéTV também.


A guerra deixou de ser pelo controle do canal.


Agora é pelo controle da atenção.


O concorrente mais perigoso é aquele que você ajuda a construir


Talvez essa seja a maior reflexão deixada pelo episódio.


Uma empresa pode passar décadas construindo uma vantagem competitiva e, tentando otimizar custos, entregar ao concorrente exatamente a oportunidade necessária para reduzir essa vantagem.


Não significa que toda empresa deva comprar tudo, gastar indiscriminadamente ou impedir artificialmente a concorrência.


Significa compreender uma pergunta elementar antes de cortar qualquer investimento: “Se nós não ocuparmos este espaço, quem ocupará?


E existe uma segunda pergunta ainda mais importante: “O que esse concorrente poderá construir a partir dele?


Porque algumas economias aparecem imediatamente no balanço.


As consequências estratégicas aparecem anos depois.


E quando finalmente aparecem, talvez recuperar o território perdido custe muito mais do que teria custado defendê-lo.


A Globo de 2026 oferece, portanto, uma extraordinária aula de estratégia empresarial: não basta calcular quanto custa manter uma liderança.


É preciso calcular também quanto custará perdê-la.


E principalmente: quanto vale impedir que alguém aprenda a viver sem você.


P.S.: segundo números reproduzidos pelo Estadão, o alcance da Globo na TV aberta entre o público da Copa passou de 98% em 2022 para 82% em 2026, enquanto a CazéTV chegou a 44% nesse recorte.


E a própria reorganização da Globo parece responder ao novo cenário: foram integradas áreas, criada uma diretoria de Consumidor e Marketing e consolidada a estrutura de Distribuição e Direitos.

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