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Quando a Vulgaridade Vira Linguagem Oficial

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 27 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de jan.

É a falência de critério.


O que hoje domina as redes não é espontaneidade, é premiação do vazio. A vulgaridade não ganhou espaço porque foi reprimida antes, mas porque passou a ser rentável. O grotesco virou ativo. A indignidade, estratégia. A exposição sem limite, modelo de negócio.


Não se trata de moralismo. Trata-se de valor.


Uma sociedade revela sua maturidade pelo que ela incentiva, compartilha e celebra. Quando o escândalo rende mais do que a competência, quando o corpo vale mais do que o conteúdo e quando o grito vence o argumento, não estamos diante de um avanço cultural . Estamos diante de uma infantilização coletiva.


As redes sociais não criaram isso.

Elas apenas removeram os freios.


O algoritmo não tem ética, tem métrica. Ele não pergunta “isso eleva?”, pergunta “isso engaja?”. E nós, como sociedade, respondemos todos os dias com cliques, risadas nervosas e compartilhamentos cúmplices. O feed é um espelho. E o reflexo anda desconfortável.


O problema não é excesso de liberdade. É ausência de formação.


Sem educação simbólica, tudo vira literal.

Sem repertório, tudo vira estímulo.

Sem caráter, tudo vira performance.


O Brasil sente isso com força porque sempre flertou com o improviso como virtude, com o “jeitinho” como atalho moral e com a tolerância ao excesso como traço cultural. O resultado é um espaço público onde o limite virou tabu e a responsabilidade virou caretice.


Mas toda cultura que exagera no ruído acaba cansando de si mesma.


Existe um movimento silencioso , ainda pequeno e não viral, de pessoas que não querem mais viver reféns do choque, da vulgaridade e da gritaria constante. Gente que busca clareza, profundidade, estética, pensamento. Isso não explode em likes. Isso constrói lastro.


Civilizações não colapsam apenas por crises econômicas.

Elas colapsam quando perdem a capacidade de distinguir valor de barulho.


A pergunta não é por que o feed está assim.

A pergunta é: quem vai se recusar a normalizar isso e reconstruir critérios enquanto o circo distrai?


Porque no fim, toda sociedade é julgada não pelo que permite, mas pelo que aplaude.


O caos já está falando alto. Agora é a vez do pensamento.


A Liderança em Tempos de Ruído


O problema não é o excesso de informação.

É a ausência de critério.


Esse modelo não fica restrito ao feed. Ele atravessa empresas, contamina lideranças e redefine silenciosamente o que passa a ser considerado “normal”.


Cultura organizacional não nasce no código de ética.

Ela nasce no comportamento que é tolerado, incentivado e premiado.


Quando o barulho vale mais do que a consistência, quando a performance importa mais do que o caráter e quando o curto prazo vence qualquer reflexão, não estamos diante de inovação mas sim estamos diante de erosão cultural.


A ética digital não é um debate tecnológico.

É um debate humano.


Algoritmos não decidem valores. Pessoas decidem. Plataformas não criam cultura sozinhas. Elas amplificam aquilo que líderes, organizações e indivíduos aceitam como linguagem legítima. O digital apenas expõe, em escala industrial, a maturidade, ou a ausência dela, das instituições.


Liderar, neste cenário, exige mais do que carisma ou resultado.

Exige posição.


Posição sobre o que será incentivado.

Posição sobre o que não será normalizado.

Posição sobre quais comportamentos geram reconhecimento.


Empresas que confundem engajamento com valor constroem marcas ruidosas e frágeis. Organizações que trocam princípios por trending topics ganham visibilidade hoje e perdem confiança amanhã. Cultura não é estética. Cultura é escolha repetida sob pressão.


O maior risco não é errar.

É acostumar-se ao erro.


Quando a ausência de limites vira estratégia e a falta de profundidade vira identidade, a liderança deixa de formar pessoas e passa apenas a administrar danos. Não há ESG, compliance ou governança que sobreviva a uma cultura que não sabe dizer “não”.


Toda organização, cedo ou tarde, é cobrada não pelo discurso que publica, mas pelo padrão que sustenta.


Existe, porém, também um movimento silencioso dentro de empresas, conselhos e lideranças que compreenderam que o futuro não pertence a quem grita mais alto, mas a quem constrói clareza em meio ao ruído. Ética digital, hoje, é a capacidade de operar no ambiente online sem abrir mão de princípios offline.


Liderar em tempos de excesso exige maturidade.

Construir cultura exige coragem.

Manter ética exige constância.


O feed pode até ser caótico.

A liderança não pode ser.


Critério é o novo luxo.

E liderança é quem sustenta isso quando ninguém está aplaudindo.

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