
O Mundo Não É Morango: Entre a Maçã do “Errar o Alvo” e a Ilusão da Maçã do Amor
- Open Planning

- 15 de jul.
- 2 min de leitura
“Eu, Marcelo Miragaia, declaro simplesmente que o mundo não é morango. Na verdade, foi nomeado como a maçã do ‘errar o alvo’ — e está muito longe de ser uma maçã do amor.”
Essa afirmação, embora carregada de ironia, revela uma verdade que nossa geração parece empenhada em esquecer: a realidade não foi criada para satisfazer expectativas, mas para confrontar escolhas. Vivemos em uma cultura que vende conforto emocional como sinônimo de felicidade, que trata frustrações como injustiças e transforma qualquer limite em opressão. Criou-se a fantasia de um mundo onde tudo deve ser agradável, inclusivo aos nossos desejos e livre de consequências. Porém, basta abrir os olhos para perceber que a realidade jamais assinou esse contrato.
Curiosamente, o termo bíblico mais utilizado para definir o pecado deriva da palavra grega hamartia, cujo significado literal é “errar o alvo”. Não se trata apenas de cometer um erro moral, mas de falhar em atingir o propósito para o qual fomos criados. O problema da humanidade nunca foi simplesmente fazer coisas erradas; foi perder a direção correta. Quando o alvo deixa de ser a verdade, qualquer caminho parece aceitável. Quando princípios são substituídos por conveniências, o erro deixa de causar constrangimento e passa a ser celebrado como autenticidade.
Ao mesmo tempo, a sociedade insiste em transformar a vida em uma enorme “maçã do amor”: bonita por fora, doce na aparência e vendida como se pudesse oferecer felicidade instantânea. Mas basta dar a primeira mordida para descobrir que o açúcar endurecido não altera a natureza do fruto. Assim também são muitas narrativas contemporâneas: revestem a realidade com discursos atraentes, mas são incapazes de mudar suas leis fundamentais. Colhe-se aquilo que se planta. Decisões produzem consequências. Caráter continua valendo mais do que imagem.
A Bíblia nunca prometeu um mundo confortável. Pelo contrário, ela descreve um mundo marcado pela queda, pela imperfeição e pelos efeitos das escolhas humanas. Ainda assim, apresenta uma esperança extraordinária: não a esperança de que a realidade seja modificada para acomodar nossos desejos, mas a possibilidade de que nós sejamos transformados para enfrentá-la com sabedoria, coragem e fé. A verdadeira mudança começa no interior do homem, não nas circunstâncias ao seu redor.
Talvez o maior problema do nosso tempo não seja econômico, político ou tecnológico. Talvez seja espiritual e intelectual. Perdemos a capacidade de chamar o erro de erro, a verdade de verdade e a responsabilidade de responsabilidade. Preferimos suavizar conceitos para preservar sensibilidades. Contudo, uma sociedade que perde o compromisso com a verdade inevitavelmente perde também sua capacidade de distinguir o bem do mal, o justo do conveniente e o permanente do passageiro.
O mundo nunca foi morango. Nunca prometeu facilidade, estabilidade ou justiça perfeita. Ele continua sendo um ambiente onde escolhas importam, princípios produzem frutos e erros cobram seu preço. A boa notícia é que também continua sendo um lugar onde existe graça, arrependimento, restauração e recomeço para aqueles que decidem voltar ao alvo.
Porque, no fim, maturidade não é exigir que a realidade seja mais doce. É compreender que somente a Verdade é capaz de dar sentido até mesmo às partes mais amargas da vida.




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