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O Estado e o Crime Organizado

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 23 de jan.

Quando o Estado não produz cidadania, esse mesmo Estado compartilha obediência com poderes paralelos.


O Estado geralmente socialista e o crime organizado conseguem coabitar em comunidades porque operam por lógicas estruturais parecidas. Isso pode acontecer, mas não porque necessariamente “socialismo = crime”, e sim por sobreposição de funções de poder.


O ponto de contato nem sempre é a ideologia declarada. É o modo de controle.


Existe um erro recorrente no debate público: tratar o crime organizado como apenas um desvio moral isolado, um “corpo estranhoinfiltrado na sociedade. Essa leitura é confortável. Ela preserva a ilusão de que o problema está sempre fora do sistema.


A realidade é mais incômoda.


O crime organizado não prospera apenas apesar do Estado.

Em muitos contextos, ele prospera em convivência estrutural com o Estado.


Não necessariamente por afinidade ideológica. Mas por similaridade funcional.


Quando o Estado se torna excessivamente centralizador, distante da vida cotidiana e incapaz de produzir cidadania real, ele abre espaço para algo inevitável: poderes paralelos que “resolvem” o que o poder formal não resolve.


Esse não é um fenômeno exclusivo de um espectro político.

É governança fraca e corrupta versus poder funcional.


Onde o Estado promete tudo, regula tudo, decide tudo — mas entrega pouco — ele não gera autonomia. Gera dependência. E dependência é um terreno fértil para qualquer estrutura que saiba controlar, punir e oferecer “soluções” imediatas.


O crime organizado entende isso muito bem.


Ele ocupa território.

Impõe regras.

Oferece “proteção”.

“Resolve” conflitos.

Define consequências.


Tudo aquilo que o Estado deveria fazer com transparência, excelência e fundamentado na Constituição, mas não faz com constância, presença e legitimidade.


O ponto central não é só a ilegalidade dessas estruturas. É a eficiência percebida. Em comunidades onde a lei formal não chega ou não se permiti chegar, a lei prática se estabelece. Quem “resolve” o problema manda. Quem manda, governa. Ainda que sem Constituição, sem “voto” e sem qualquer compromisso com direitos e deveres.


Aqui surge o espelhamento desconfortável: sistemas centralizados e organizações criminosas não se “parecem” nos discursos, mas nos métodos.


Ambos operam melhor quando:


• a cidadania é fraca;

• a autonomia individual é reduzida;

• e as instituições intermediárias (associações, lideranças locais, sociedade civil organizada) são coadjuvantes, frágeis ou inexistentes.


Nesse cenário, o Estado não elimina poderes paralelos. Ele convive e coabita com eles.


Às vezes por omissão.

Às vezes por pragmatismo.

Às vezes por medo.

Às muitas vezes por conveniência política.


O resultado é uma espécie de terceirização informal da governança: o Estado mantém o discurso, o crime administra o cotidiano.


E não, comunidades não “escolhem o crime” como projeto moral. Elas se adaptam ao poder imposto.


Essa é talvez a parte mais difícil de aceitar. Trata-se de reconhecer que pessoas comuns buscam previsibilidade, segurança e ordem. Quando isso não vem das instituições formais, “virá” de qualquer outra estrutura capaz de oferecer esses elementos, mesmo que o custo seja imposto e muito alto.


O verdadeiro colapso não é apenas da segurança pública. É da legitimidade institucional.


Legalidade sem legitimidade não sustenta sociedade. Sustenta tensão.Sustenta silêncio forçado. Sustenta obediência, não pertencimento.


E obedientes não constroem futuro. Eles apenas mantêm sistemas funcionando até que entrem em colapso.


Governança não é controle. Governança é confiança organizada.


Ela nasce da presença, da previsibilidade, da justiça aplicada de forma compreensível e da construção de cidadãos e não de súditos.


Toda vez que o Estado “falha” nessa missão, alguém assume o lugar. E raramente esse “alguém” tem qualquer compromisso com liberdade, dignidade ou futuro coletivo.


Esse é o debate que evitamos porque ele não cabe em slogans. Mas é exatamente por isso que ele importa.

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