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Cultura do Crédito no Brasil

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    Open Planning
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

A Cultura do Crédito no Brasil é uma criatura curiosa: nasceu como promessa de inclusão, cresceu como motor de consumo e hoje vive uma crise existencial. Meio ferramenta, meio armadilha. Vamos aos impactos, sem maquiagem ideológica.


No indivíduo, o crédito virou extensão da renda. Não é mais “antecipação”, é sobrevivência mensal. Cartão, parcelamento infinito, consignado, PIX parcelado… tudo empurra a sensação de poder de compra agora, enquanto empacota o problema para o “eu do futuro”. Resultado: endividamento crônico, ansiedade financeira e uma normalização perigosa do aperto. Estar endividado virou o padrão, não a exceção.


Na família, o crédito reorganiza relações de poder. Quem tem nome limpo vira “ativo estratégico”. Avó com consignado, pai como avalista, mãe com três cartões. A dívida deixa de ser individual e passa a ser sistêmica. O conflito doméstico raramente é “financeiro”; ele só usa o dinheiro como palco.


Na economia, o crédito sustenta o consumo de curto prazo, mas cobra juros de longo prazoliteralmente. O Brasil construiu um modelo em que o crescimento depende mais de alavancagem do que de aumento real de produtividade. Com juros historicamente altos, o crédito vira um imposto informal sobre o pobre e a classe média. O capital gira, mas sempre no mesmo eixo: bancos lucram, consumo respira, inadimplência cresce, juros sobem de novo. Um looping elegante e cruel, supervisionado com régua técnica pelo Banco Central do Brasil.


Socialmente, o crédito aprofunda desigualdades. Quem tem renda alta usa crédito como estratégia: milhas, pontos, alavancagem inteligente. Quem tem renda baixa usa como anestesia: parcelamento para fechar o mês. O mesmo instrumento, dois efeitos opostos. Isso cria a ilusão de acesso, sem entregar autonomia.


Culturalmente, talvez o impacto mais sutil: o crédito educa mal. Ele ensina que desejar é suficiente, que o tempo não importa e que consequência é negociável. Pouco se fala de educação financeira estrutural porque um consumidor consciente é ótimo para a vida e péssimo para o modelo de juros abusivos.


O paradoxo é claro: o crédito não é o vilão. O vilão é tratá-lo como renda, identidade ou solução moral. Crédito é ferramenta. Quando vira muleta cultural, a sociedade anda… mas manca.


A engrenagem é maior do que parece, e bem mais inteligente do que gostaríamos de admitir.

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