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A Vida não é Morango.

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 30 de jan.
  • 3 min de leitura

É mais um limão meio verde, jogado sem aviso prévio na sua mão, enquanto alguém grita “se vira”.


Vendem a ideia de que tudo deveria ser doce, fácil, instagramável. Mentira bem embalada. A vida real tem acidez, tem caroço, tem dia em que você morde achando que amadureceu e descobre que ainda não. E não amadureceu mesmo, nem você, nem a situação.


O curioso é que é justamente aí que a coisa ganha sentido. Morango não ensina nada. Limão ensina. Ensina a fazer careta, a ajustar expectativa, a desenvolver resiliência e, com o tempo, a transformar azedo em algo bebível. Às vezes até bom.


O problema não é a dificuldade. É a fantasia de que ela não deveria existir. Quando a gente abandona essa ilusão, para de se sentir injustiçado por viver e começa a entender que fricção é parte do projeto.


Vida não é sobremesa. É processo químico. Quem aprende isso cedo sofre menos, cresce mais e para de reclamar do gosto enquanto aprende a extrair valor da experiência.


A romantização da facilidade é uma das maiores fraudes culturais do nosso tempo. Ela cria adultos emocionalmente frágeis, líderes mimados e negócios que quebram na primeira marola. Quando tudo precisa ser confortável, qualquer desconforto vira trauma. E aí ninguém cresce e só reclama.


A dificuldade tem uma função pedagógica brutal e eficiente: ela revela. Revela quem tem método, quem tem disciplina, quem só tinha discurso bonito. Em ambientes fáceis, todo mundo parece competente. Em ambientes ácidos, só fica em pé quem desenvolveu estrutura interna.


No caráter, a fricção faz o que o elogio jamais fará. Ela ensina limite, timing, silêncio, leitura de contexto. Ensina que vontade não é plano, emoção não é estratégia e intenção não paga boleto. A pessoa que nunca precisou atravessar o azedo confunde desejo com destino e se frustra quando o mundo não coopera.


Na liderança, a fantasia da facilidade cria chefes frágeis e equipes cínicas. O líder que tenta poupar todo mundo do desconforto acaba produzindo mediocridade coletiva. Crescimento exige tensão bem administrada. Não caos, não abuso — tensão. Meta clara, cobrança justa, responsabilidade explícita. Limão espremido com técnica vira limonada. Espremido no gritovira bagunça.


Nos negócios, a coisa fica ainda mais evidente. Empresas que só prosperam em cenário favorável não são empresas. São apostas otimistas. Margem apertada, cliente difícil, equipe imperfeita e erro recorrente são o laboratório real da gestão. Quem aprende a operar ali cria musculaturaestratégica. Quem só sabe jogar em campo seco entra em pânico quandochove.


Existe uma ironia deliciosa nisso tudo: quem aceita que a vida não é morango costuma sofrer menos. Porque para de brigar com a realidade. Para de perguntar “por que comigo?” e começa a perguntar “o que isso está me exigindo?”. Essa mudança de pergunta muda tudo.


A acidez certa não destrói. Ela conserva, amadurece, dá identidade. Pessoas interessantes, líderes consistentes e projetos duradouros quase sempre passaram por algum grau de desconforto não negociável. Não porque gostavamdisso, mas porque entenderam que fugir do azedo custa mais caro do que atravessá-lo.


A vida não é morango. E ainda bem. Morango estraga rápido. Limão dura, atravessa viagens longas e, quando bem usado, transforma qualquer coisa comum em algo memorável.

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