
A juventude deixando de ser propriedade ideológica
- Open Planning

- 1 de jul.
- 3 min de leitura
Durante décadas, partidos, universidades, meios de comunicação e departamentos corporativos trabalharam com uma premissa quase automática: quanto mais jovem o indivíduo, maior seria sua proximidade com o campo progressista.
Essa associação está deixando de funcionar.
Não significa que toda uma geração tenha se tornado conservadora. Significa algo mais profundo e, para muitas organizações, mais desconfortável: a juventude deixou de ser um território político previsível.
Nos Estados Unidos, Donald Trump recebeu 47% dos votos entre eleitores de 18 a 29 anos nas eleições de 2024, contra 51% de Kamala Harris. Entre os homens jovens, Trump chegou a 56%. O progressismo ainda manteve pequena vantagem no conjunto da juventude, mas perdeu a hegemonia que possuía quatro anos antes. (circle.tufts.edu)
Na Alemanha, o quadro foi ainda mais revelador. Nas eleições federais de 2025, os jovens não migraram simplesmente para a direita: dividiram-se entre os extremos. O partido de esquerda Die Linke liderou entre os eleitores de 18 a 24 anos, enquanto a AfD avançou especialmente entre os homens jovens e foi a força mais votada na faixa dos 25 aos 34 anos. O centro político foi o verdadeiro derrotado. (tagesschau.de)
Na França ocorreu movimento semelhante. Marine Le Pen liderou entre os eleitores de 25 a 34 anos no primeiro turno presidencial de 2022, mas Jean-Luc Mélenchon predominou entre os menores de 25. Não existe, portanto, uma juventude ideologicamente uniforme. Existe uma geração politicamente fragmentada, desconfiada das estruturas tradicionais e disposta a experimentar alternativas mais contundentes, tanto à direita quanto à esquerda. (Axios)
Na Colômbia, a vitória de Abelardo de la Espriella, em 21 de junho de 2026, confirmou a capacidade de uma candidatura de direita, antissistema e centrada em segurança e economia de vencer em um país governado pela esquerda. Contudo, sem dados eleitorais definitivos por idade, seria precipitado atribuir sua vitória principalmente aos jovens. (Reuters)
No Brasil, porém, existem números mais claros. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada em março de 2026 registrou 72,7% de desaprovação ao presidente Lula entre os brasileiros de 16 a 24 anos, diante de uma desaprovação geral de 53,5%. Era o pior resultado entre todas as faixas etárias. (VEJA)
Outro levantamento, realizado pela Quaest para o instituto More in Common, mostrou que 68% dos homens e 62% das mulheres entre 16 e 24 anos se declaravam conservadores. Entre os homens jovens, 42% afirmaram identificação com Jair Bolsonaro ou com ideias associadas ao bolsonarismo. (Folha de S.Paulo)
Há, entretanto, um detalhe essencial: esses jovens não são necessariamente mais conservadores nos costumes do que as gerações anteriores. Em diferentes pautas relacionadas a direitos civis e serviços públicos, demonstram posições mais abertas ou intermediárias. O que parece estar crescendo não é apenas o conservadorismo comportamental, mas a rejeição ao progressismo como estrutura política, linguagem institucional e símbolo do establishment. (InfoMoney)
Essa distinção muda completamente a análise.
O jovem pode defender determinados direitos individuais e, ao mesmo tempo, rejeitar partidos de esquerda. Pode apoiar políticas públicas e criticar o Estado. Pode discordar de pautas identitárias sem desejar a retirada de direitos. Pode ser liberal no comportamento, conservador na linguagem e pragmático na economia.
As antigas caixas ideológicas já não conseguem acomodá-lo.
Nas empresas, alguns sinais dessa transformação já apareceram. Meta e Amazon reduziram ou encerraram partes de seus programas de diversidade, enquanto a BlackRock retirou referências e metas relacionadas à diversidade de documentos corporativos. Essas mudanças, porém, não foram provocadas exclusivamente pela juventude: também responderam a pressões jurídicas, políticas e regulatórias nos Estados Unidos. (Reuters)
E aqui está o verdadeiro risco empresarial.
Modificar a terminologia de um programa de diversidade não significa compreender uma nova geração. Trocar palavras para acompanhar o ambiente político é adaptação superficial. Compreender a juventude exige abandonar a presunção de que idade determina ideologia, comportamento de consumo ou valores pessoais.
Empresas que continuarem tratando jovens como um bloco progressista, homogêneo e previsível poderão errar na comunicação, na construção de produtos, na gestão de pessoas e no posicionamento de suas marcas.
A juventude não necessariamente virou à direita.
Ela apenas deixou de aceitar que alguém determine antecipadamente onde ela deveria estar.
A pergunta, portanto, não é apenas quantas empresas perceberam essa mudança.
É quantas terão maturidade para ouvi-la sem tentar novamente encaixá-la em outra narrativa pronta.




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