
A fotografia de uma economia que cresce pelo crédito, não pela riqueza

Os números dos distratos imobiliários ajudam a revelar uma contradição importante da economia brasileira. No primeiro semestre de 2026, enquanto o mercado de imóveis novos continuou registrando crescimento nas vendas, dez incorporadoras de capital aberto acumularam R$ 2,167 bilhões em contratos cancelados, avanço de 27,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O fenômeno merece atenção porque uma venda imobiliária não termina necessariamente no momento da assinatura do contrato. Entre comprar um imóvel na planta e efetivamente concluir sua aquisição existe um percurso financeiro que pode durar anos. Quando chega o momento de contratar ou assumir o financiamento bancário, a capacidade financeira do comprador volta a ser colocada à prova.
É justamente nesse ponto que os juros elevados ganham importância. Com crédito caro, prestações maiores e maior comprometimento da renda, famílias que conseguiram iniciar uma aquisição podem descobrir posteriormente que não possuem capacidade financeira suficiente para concluí-la. O crescimento dos distratos passa, portanto, a funcionar como um indicador adicional da fragilidade existente por trás de parte da demanda.
Há um dado ainda mais revelador: vendas e concessão de crédito podem crescer ao mesmo tempo em que aumentam os cancelamentos. Isso significa que não estamos necessariamente diante de uma economia paralisada. Estamos diante de uma economia capaz de produzir transações, mas na qual uma parcela relevante dessas transações depende da expansão e da manutenção do crédito.
Aqui surge uma distinção fundamental: consumo financiado não é necessariamente consumo produzido pela riqueza acumulada. Uma família que compra porque sua renda, patrimônio e poupança aumentaram está consumindo a partir de uma expansão de sua capacidade econômica. Uma família que amplia o consumo principalmente porque conseguiu assumir uma nova dívida está antecipando renda futura. As duas situações aparecem como consumo no presente, mas possuem fundamentos econômicos bastante diferentes.
Isso não significa que o crédito seja ruim. Pelo contrário: crédito saudável é indispensável para uma economia moderna, especialmente no mercado imobiliário. O problema aparece quando o crescimento do consumo passa a depender excessivamente do endividamento, sem expansão proporcional da renda real, da produtividade, da poupança e da formação patrimonial das famílias.
Os números do setor imobiliário, portanto, oferecem uma fotografia interessante do Brasil contemporâneo: vendemos mais, financiamos mais e, simultaneamente, cancelamos mais contratos. É como se uma parcela da sociedade conseguisse entrar no mercado pela porta do crédito, mas encontrasse dificuldades para permanecer nele quando a realidade financeira chega à etapa seguinte.
Uma economia estruturalmente saudável não deveria depender apenas da capacidade de seus cidadãos de tomar crédito, mas principalmente da capacidade de produzir, poupar, investir, acumular patrimônio e aumentar renda real. Crédito deveria funcionar como multiplicador dessa riqueza — e não como substituto permanente dela.
Talvez essa seja uma das questões centrais para compreender determinados indicadores brasileiros: quanto do crescimento que observamos representa efetivamente aumento de riqueza e quanto representa apenas antecipação do consumo futuro por meio do endividamento?
Porque existe uma diferença enorme entre uma sociedade que prospera porque ficou mais rica e uma sociedade que parece prosperar porque conseguiu aumentar o limite do cartão.




Comentários