
País que cresce no discurso. Rua que cresce na vida real.
- Open Planning

- 12 de abr.
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Atualizado: 12 de abr.
Há uma fraude moral em curso no Brasil.
Chamam de crescimento.
Chamam de retomada.
Chamam de avanço.
Mas quando a população em situação de rua dispara, o que cresce não é o país. É o colapso social.
Em janeiro de 2025, o país tinha 327.925 pessoas vivendo em situação de rua, segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG. Um ano depois, em janeiro de 2026, esse número chegou a 365.822. O resultado de janeiro de 2026 ficou 11,56% acima de janeiro de 2025, com aumento absoluto de 37.897. Não é detalhe. Não é ruído estatístico. É agravamento concreto.
E aqui começa o desconforto que muita gente prefere maquiar com PowerPoint, indicador isolado e discurso de ocasião: uma nação não pode se declarar saudável enquanto a miséria avança a céu aberto.
Porque população de rua não é apenas um dado social. É diagnóstico de falência.
Falência habitacional.
Falência de renda.
Falência de prioridade pública.
Falência de um modelo que consegue gerar número, mas não consegue sustentar gente.
Quando mais brasileiros passam a viver nas calçadas, o problema não é de comunicação institucional. O problema é de estrutura.
É o aluguel que expulsa.
É a renda que não acompanha.
É a dívida que sufoca.
É a informalidade que corrói.
É a ausência de política séria onde mais importa: moradia, saúde mental, reinserção, proteção e dignidade.
Então não, isso não combina com a fantasia de um “país em crescimento”.
Porque crescimento de verdade não se mede só no topo da planilha.
Mede-se no chão da vida.
E o chão, no Brasil, está dizendo outra coisa.
Está dizendo que celebramos desempenho enquanto normalizamos o descarte.
Está dizendo que parte do país debate prosperidade, enquanto outra parte tenta sobreviver sem endereço, sem proteção e sem horizonte.
Está dizendo que há uma elite do comentário econômico que ainda trata tragédia social como externalidade. Como se fosse efeito colateral tolerável. Como se fosse paisagem.
Não é paisagem.
É vergonha nacional.
Toda vez que o poder público, o mercado e a sociedade aceitam isso como “complexidade”, “desafio histórico” ou “tema sensível”, o que estão fazendo, na prática, é terceirizar a própria responsabilidade.
A rua lotada é o recibo.
O resto é narrativa.
Um país que assiste ao avanço da população em situação de rua e ainda insiste em vender otimismo automático não está em crescimento. Está em negação.
E negação, convenhamos, não constrói nação. Só adia o acerto de contas.




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