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Os Bancos Comemoram; Famílias e Empresas Devem: Duas Economias Coexistindo no Brasil?

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    Open Planning
  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Há algo profundamente incômodo quando CEOs de bancos, fintechs e grandes instituições financeiras comemoram resultados, distribuem dividendos e apresentam balanços robustos enquanto, do outro lado do balcão, milhões de brasileiros e empresas acumulam dívidas, atrasam pagamentos e comprometem parcelas cada vez maiores de sua renda apenas para manter suas obrigações em dia.


Isso não significa que o lucro bancário seja um problema em si. O problema é em lá?! Um sistema financeiro sólido, líquido e capitalizado é fundamental para qualquer economia moderna. O problema começa quando confundimos a saúde do sistema financeiro com a saúde financeira da sociedade que o sustenta.


E talvez seja exatamente esse o paradoxo brasileiro de 2026.


O Brasil dos balanços e o Brasil dos boletos


O país convive hoje com uma combinação aparentemente contraditória.


De um lado, temos um sistema financeiro que continua demonstrando elevada capacidade de geração de resultados, capitalização e resistência a choques.


Do outro, temos famílias altamente endividadas, dezenas de milhões de consumidores inadimplentes e um número recorde de empresas com contas vencidas.


Segundo indicadores recentes da Serasa Experian, o Brasil chegou a aproximadamente 83,7 milhões de consumidores inadimplentes em junho de 2026. No universo empresarial, aproximadamente 9 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em maio.


A CNC, utilizando metodologia própria, apontou ainda que mais de 80% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida em 2026.


O Banco Central, por sua vez, mostra comprometimento elevado da renda das famílias com o serviço das dívidas.


Portanto, não estamos simplesmente falando de brasileiros que decidiram consumir mais utilizando cartão de crédito.


Estamos falando de uma sociedade na qual uma parcela relevante da renda futura já está comprometida com decisões financeiras tomadas no passado.


E isso muda completamente a discussão.


O lucro do banco não mede a prosperidade do cliente


Existe uma simplificação econômica perigosa na ideia de que bancos lucrativos necessariamente significam economia saudável.


Não significam.


Um banco pode apresentar excelente rentabilidade mesmo quando parte de seus clientes atravessa dificuldades financeiras.


A instituição precifica o risco através dos juros, spreads, garantias, tarifas, provisões, recuperação de crédito e diversificação de sua carteira.


Quanto maior o risco percebido, maior tende a ser o preço cobrado pelo dinheiro.


Surge então um mecanismo perversamente circular: risco maior → crédito mais caro → prestação maior → comprometimento maior da renda → maior possibilidade de inadimplência → risco maior.


Naturalmente existem inúmeras outras variáveis nessa equação, mas ignorar esse mecanismo seria ingenuidade.


O banco não precisa que cada cliente esteja financeiramente confortável.


Precisa que o conjunto de suas operações continue economicamente rentável.


São coisas muito diferentes.


Lula I e II: quando dívida e renda cresceram juntas


É justamente a comparação histórica com os governos anteriores do PT que torna o cenário atual mais interessante.


Entre 2003 e 2010, durante os dois primeiros governos Lula, o Brasil experimentou enorme expansão do crédito.


Houve bancarização, crescimento do crédito consignado, aumento do financiamento ao consumo e entrada de milhões de brasileiros no sistema financeiro.


Consequentemente, as famílias também passaram a dever mais.


Mas havia uma diferença fundamental: a renda e o emprego também cresciam de maneira suficientemente forte para sustentar boa parte daquela expansão.


No primeiro semestre de 2010, por exemplo, dados do Banco Central mostravam queda da inadimplência das pessoas físicas no sistema financeiro mesmo diante da expansão do crédito.


Era uma sociedade mais endividada, sim.


Mas também era uma sociedade cuja capacidade de pagamento estava aumentando.


Essa distinção deveria estar no centro de qualquer discussão séria sobre endividamento.


Porque: dever R$ 100 quando a renda cresce não produz o mesmo efeito econômico de dever R$ 100 quando juros e comprometimento da renda aumentam.


A dívida deve sempre ser analisada em relação à capacidade de carregá-la.


Dilma I: o primeiro alerta


Entre 2011 e 2014, o crédito continuou crescendo e os bancos públicos assumiram papel ainda mais relevante na política econômica.


Entretanto, gradualmente o crescimento econômico começou a perder força.


O desemprego ainda permanecia extremamente baixo e a inadimplência bancária das famílias não havia explodido.


Externamente, portanto, vários indicadores ainda pareciam confortáveis.


Internamente, entretanto, desequilíbrios começaram a se acumular.


Crescimento menor, deterioração fiscal, perda de confiança empresarial, intervenções econômicas, represamento de preços administrados e redução da capacidade de investimento começaram a produzir uma economia progressivamente mais frágil. Um flashback para 2026?


E os bancos?


Continuavam lucrativos.


Essa talvez seja uma das lições mais importantes daquele período.


O balanço saudável do banco não antecipou o tamanho da deterioração que posteriormente atingiria a economia real.


Dilma II: quando a conta chegou


Entre 2015 e 2016, a deterioração tornou-se impossível de esconder.


O Brasil entrou em uma das maiores recessões de sua história recente.


Empresas fecharam.


Investimentos desapareceram.


A renda caiu.


O desemprego avançou brutalmente.


Em 2016, a taxa média de desemprego atingiu aproximadamente 11,5%.


A inadimplência passou a representar preocupação crescente para o próprio sistema financeiro.


Mas existe aqui um detalhe extraordinariamente importante.


Mesmo durante aquela enorme crise econômica, o sistema bancário brasileiro permaneceu relativamente sólido e resiliente.


Ou seja:


as famílias podiam sofrer;


as empresas podiam quebrar;


o desemprego podia disparar;


o PIB podia despencar;


e, ainda assim, o sistema financeiro poderia permanecer estruturalmente saudável.


Não existe contradição econômica nisso.


Existe apenas uma demonstração brutal de que a saúde do intermediador financeiro não é necessariamente a saúde daquele que toma o dinheiro emprestado.


Lula III: a repetição não é perfeita — e justamente aí está o problema


Seria intelectualmente desonesto afirmar que o Brasil de 2026 simplesmente repete 2015.


Não repete.


Existem diferenças enormes.


O mercado de trabalho atual apresenta números incomparavelmente melhores. A taxa de desemprego atingiu níveis historicamente “baixos” e o país não atravessa atualmente uma recessão equivalente àquela experimentada durante o governo Dilma.


O PIB continua positivo.


geração de empregos.


crescimento da renda em diversos segmentos.


Portanto, dizer que “estamos vivendo novamente 2015” seria uma conclusão precipitada.


A pergunta-chave é: até quando?


Mas existe outro fenômeno que talvez seja igualmente importante observar.


Estamos conseguindo produzir emprego sem produzir proporcionalmente tranquilidade financeira.


E isso merece atenção.


Trabalhando, recebendo e devendo


Talvez esse seja o elemento mais peculiar do atual ciclo econômico.


Tradicionalmente, grandes crises de inadimplência aparecem associadas ao desemprego.


A lógica é simples.


A pessoa perde o emprego, perde renda e deixa de pagar suas obrigações.


Hoje encontramos uma situação diferente.


O desemprego está historicamente baixo, mas a inadimplência continua extremamente elevada.


Isso nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: se o brasileiro está trabalhando, por que continua devendo tanto?


A resposta provavelmente está em uma combinação de fatores.


Custo de vida, juros elevados, crédito caro, utilização recorrente do cartão, comprometimento anterior da renda, refinanciamentos, menor capacidade de poupança e despesas essenciais pressionando o orçamento.


Para as empresas, principalmente pequenas e médias, o problema pode ser ainda mais sensível.


Capital de giro caro transforma tempo em inimigo.


Uma empresa lucrativa operacionalmente pode se tornar financeiramente inviável simplesmente porque o custo de financiar sua operação supera sua capacidade de geração de caixa.


O verdadeiro significado dos juros altos


Juros elevados não são apenas números apresentados depois da reunião do Copom.


Eles atravessam toda a economia.


Chegam ao cartão.


Ao cheque especial.


Ao financiamento.


Ao empréstimo pessoal.


Ao capital de giro.


À antecipação de recebíveis.


Ao investimento empresarial.


Ao custo da dívida pública.


E finalmente chegam ao preço.


Existe, portanto, uma diferença gigantesca entre olhar para a Selic como instrumento técnico de controle inflacionário e observar seus efeitos acumulados sobre milhões de balanços familiares e empresariais.


É perfeitamente possível que a política monetária seja considerada necessária para controlar determinadas pressões inflacionárias e, simultaneamente, reconhecer que seu custo econômico é extremamente elevado.


As duas afirmações podem ser verdadeiras.


E o governo?


Aqui também precisamos escapar das respostas fáceis.


Seria simplista responsabilizar exclusivamente o governo federal pelo endividamento privado.


Da mesma maneira, seria conveniente demais retirar completamente o governo da equação.


Política fiscal, trajetória da dívida pública, credibilidade econômica, inflação, tributação, ambiente regulatório e previsibilidade institucional influenciam expectativas e, direta ou indiretamente, o custo do dinheiro.


Da mesma maneira, o Banco Central possui responsabilidade direta pela política monetária.


Bancos definem suas políticas comerciais e spreads.


Consumidores tomam decisões financeiras.


Empresas assumem riscos.


Portanto, o fenômeno não possui um único culpado.


Possui vários agentes.


Mas o governo federal possui algo que nenhum consumidor individual possui: capacidade de alterar estruturalmente o ambiente econômico.


Por isso sua responsabilidade é inevitavelmente maior.


A semelhança histórica que deveria preocupar


Talvez o maior erro seja procurar uma repetição perfeita do passado.


Crises raramente retornam vestindo exatamente a mesma roupa.


O Brasil atual não é o Brasil de 2015.


Mas algumas dinâmicas merecem ser observadas.


Nos primeiros governos Lula, expansão do crédito encontrou crescimento de renda e emprego.


Durante Dilma I, alguns indicadores continuaram positivos enquanto desequilíbrios cresciam silenciosamente.


Durante Dilma II, esses desequilíbrios finalmente apareceram violentamente na economia real.


Agora encontramos outra combinação: emprego elevado, sistema bancário sólido, famílias muito endividadas e inadimplência extremamente elevada entre pessoas físicas e empresas.


É uma configuração diferente.


Mas não necessariamente confortável.


Duas economias coexistindo


Talvez estejamos observando cada vez mais duas economias brasileiras funcionando simultaneamente.


Existe o Brasil das grandes corporações financeiras, dos balanços bilionários, das instituições capitalizadas, dos dividendos e dos resultados apresentados aos investidores.


E existe o Brasil do boleto.


Do cartão parcelado.


Do rotativo.


Da renegociação.


Do pequeno empresário utilizando crédito para financiar capital de giro.


Da família que recebe salário, paga dívidas antigas e precisa recorrer novamente ao crédito antes do final do mês.


Uma economia não invalida a outra.


As duas existem simultaneamente.


E justamente por isso os indicadores agregados precisam ser interpretados com cuidado.


O aplauso pode estar vindo do andar errado


Quando um CEO apresenta lucros extraordinários, é natural que acionistas aplaudam.


Ele cumpriu sua função.


O problema começa quando a sociedade interpreta esse aplauso como evidência de prosperidade coletiva.


Não é.


Da mesma forma, desemprego baixo é uma excelente notícia.


PIB crescendo é melhor do que PIB caindo.


Inflação controlada é fundamental.


Sistema bancário capitalizado é indispensável.


Mas nenhum desses indicadores isoladamente consegue responder à pergunta mais simples que existe: depois de pagar suas obrigações, quanto sobra no bolso das famílias e no caixa das empresas?


Talvez seja exatamente essa pergunta que esteja faltando no debate econômico brasileiro.


Porque uma economia não deveria ser considerada saudável apenas porque consegue manter seus cidadãos empregados.


Ela precisa permitir que o trabalho produza progressivamente independência financeira, consumo sustentável, investimento e formação de patrimônio.


Caso contrário, cria-se uma situação estranha: trabalha-se para receber, recebe-se para pagar, paga-se para continuar devendo.


Quando todos comemoram, vale perguntar quem está pagando a festa


O Brasil já mostrou no passado que bancos podem permanecer fortes enquanto a economia real sofre.


Mostrou também, durante os primeiros governos Lula, que expansão do crédito pode ser positiva quando acompanhada por crescimento consistente da renda e capacidade de pagamento.


Portanto, o problema não é simplesmente existir dívida.


Muito menos existir lucro bancário.


O verdadeiro sinal de alerta aparece quando o crescimento da dívida começa a superar persistentemente a capacidade econômica de quem precisa pagá-la.


É nesse momento que recordes de lucro de um lado e recordes de inadimplência do outro deixam de ser duas notícias independentes.


Passam a fazer parte da mesma fotografia.


E talvez seja exatamente essa fotografia que o Brasil de 2026 precise observar com menos torcida política e mais honestidade econômica.


Porque quando CEOs estão batendo palmas para os próprios resultados enquanto milhões de pessoas físicas e jurídicas negociam como conseguirão pagar as contas, não significa automaticamente que exista uma conspiração ou que o sistema esteja prestes a quebrar.


Mas significa, sim, que alguma coisa merece ser profundamente questionada.


Um país não pode medir sua prosperidade apenas pelo tamanho do lucro de quem empresta dinheiro. Precisa medir também pela capacidade de quem trabalha, produz, empreende e toma esse dinheiro de conseguir pagá-lo — e ainda prosperar depois disso.


Caso contrário, talvez não estejamos construindo uma sociedade mais rica.


Talvez estejamos apenas construindo uma sociedade cada vez mais financiada.


E esse financiamento certamente vai ser cobrado com juros e correção monetária em 2027. Na verdade já começou em 2026!!!

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