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O Brasil como Bote Salva-Vidas da Indústria Automobilística Chinesa

O Brasil como Bote Salva-Vidas da Indústria Automobilística Chinesa

Foto do escritor: Open Planning
Open Planning
15 de ago.
6 min de leitura

Consumo, dependência tecnológica e a nova geopolítica do automóvel


Durante décadas, o automóvel foi muito mais do que um produto industrial.Ele representou desenvolvimento econômico, domínio tecnológico, geração de empregos, formação de cadeias produtivas e, sobretudo, poder geopolítico. Estados Unidos, Alemanha, Japão e, posteriormente, Coreia do Sul compreenderam que dominar a indústria automobilística significava controlar uma parcela relevante da economia industrial mundial. No século XXI, a China incorporou essa mesma lógica, mas em uma escala extraordinariamente maior.


A ascensão chinesa no setor automobilístico não aconteceu por acaso. Foi resultado de planejamento de longo prazo, investimentos públicos e privados, desenvolvimento tecnológico, domínio progressivo da cadeia de baterias, capacidade industrial e construção de empresas capazes de competir globalmente. O automóvel elétrico tornou-se uma das expressões mais visíveis dessa estratégia.


Entretanto, existe uma contradição econômica importante: uma gigantesca capacidade industrial precisa encontrar consumidores igualmente gigantescos.


É exatamente nesse ponto que países como o Brasil passam a ocupar uma posição estratégica.


O consumidor brasileiro está se tornando um dos botes salva-vidas da supercapacidade automobilística chinesa. Enquanto a indústria chinesa produz em escala crescente e enfrenta desaceleração e competição intensa dentro de seu próprio mercado, mercados emergentes passam a funcionar como importantes válvulas de expansão.


E o Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, tradição automobilística, grandes centros urbanos e desejo histórico pelo automóvel, apresenta-se como um território particularmente atraente.


Da fábrica chinesa à garagem brasileira


Existe uma transformação silenciosa acontecendo nas ruas brasileiras.


Marcas que poucos anos atrás eram praticamente desconhecidas passaram a ocupar avenidas, estacionamentos, condomínios e shopping centers. O consumidor brasileiro começou a incorporar rapidamente veículos chineses ao seu repertório de compra.


A explicação é relativamente simples.


A indústria chinesa aprendeu a oferecer uma combinação extremamente sedutora: tecnologia, equipamentos, design, eletrificação e preço competitivo.


O consumidor não precisa compreender a estratégia geopolítica existente por trás do automóvel. Ele simplesmente compara aquilo que recebe pelo dinheiro que está disposto a pagar.


Quando encontra um veículo equipado com grandes telas, sistemas eletrônicos, câmeras, assistentes de condução, acabamento sofisticado e motorização híbrida ou elétrica por preço competitivo, sua decisão tende a ser pragmática.


E seria ingenuidade responsabilizá-lo por isso.


O consumidor compra valor percebido.


A verdadeira discussão não está na garagem do brasileiro. Está na estratégia industrial do país.


O consumidor não possui obrigação de proteger uma indústria


Existe um erro recorrente quando se discute a entrada dos automóveis chineses no Brasil: transferir ao consumidor a responsabilidade pela sobrevivência da indústria nacional.


Essa lógica é economicamente equivocada.


Nenhum cidadão possui obrigação moral de adquirir um produto pior, tecnologicamente inferior ou economicamente menos interessante simplesmente para proteger determinada estrutura industrial.


Cabe às empresas competir.


E cabe ao Estado construir condições para que sua indústria consiga competir.


Quando um produto estrangeiro apresenta melhor relação entre preço, tecnologia e benefício percebido, o consumidor naturalmente migra.


A indústria chinesa compreendeu isso com extraordinária eficiência.


Em vez de pedir fidelidade, oferece argumentos.


Em vez de exigir proteção emocional, entrega produto.


Em vez de esperar que o consumidor compre pela origem, disputa sua decisão pela percepção de valor.


É capitalismo em sua forma mais objetiva.


O problema começa quando consumo substitui estratégia


Comprar produtos chineses não constitui, isoladamente, um problema econômico.


O problema aparece quando um país transforma seu gigantesco mercado consumidor em substituto para uma política industrial.


Há uma diferença fundamental entre importar tecnologia e tornar-se dependente dela.


Uma economia inteligente utiliza sua capacidade de consumo como instrumento de negociação.


Se milhões de brasileiros representam bilhões de reais em potencial de faturamento para empresas estrangeiras, esse mercado possui valor estratégico.


Portanto, permitir acesso ao mercado deveria estar associado à construção de benefícios estruturais para o próprio país: produção local, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa, engenharia, formação profissional, transferência tecnológica, infraestrutura e geração de empregos qualificados.


O Brasil precisa compreender algo elementar: mercado consumidor também é poder.


Quem possui milhões de consumidores possui algo que as empresas desejam.


A pergunta é quanto o país exige em troca.


A China não está apenas vendendo carros


Reduzir o movimento chinês à exportação de automóveis seria interpretar apenas a superfície do fenômeno.


O que está sendo internacionalizado é um ecossistema tecnológico.


Baterias, softwares, semicondutores, motores elétricos, sistemas eletrônicos, plataformas digitais, infraestrutura energética, inteligência artificial embarcada e sistemas de condução passam progressivamente a compor o automóvel contemporâneo.


O carro deixou de ser simplesmente uma máquina mecânica.


Transformou-se em uma plataforma tecnológica sobre rodas.


Consequentemente, quem dominar a arquitetura tecnológica desse novo automóvel poderá exercer influência sobre uma parcela importante da mobilidade mundial nas próximas décadas.


É exatamente por isso que Estados Unidos e União Europeia observam a expansão chinesa com preocupação.


A disputa não acontece simplesmente entre marcas.


É uma disputa entre ecossistemas industriais.


O paradoxo brasileiro


O Brasil possui uma característica particularmente interessante nessa história.


Somos simultaneamente um grande mercado consumidor e um país com longa tradição automobilística.


Temos fábricas, engenheiros, universidades, fornecedores, trabalhadores especializados e décadas de conhecimento acumulado.


Portanto, seria intelectualmente pobre defender simplesmente o fechamento do mercado brasileiro aos chineses.


Mas seria igualmente ingênuo abrir completamente esse mercado sem utilizar seu tamanho como instrumento de desenvolvimento.


Entre protecionismo cego e abertura ingênua existe uma terceira possibilidade: estratégia industrial.


Se empresas chinesas desejam acessar permanentemente o mercado brasileiro, o país deveria transformar esse interesse em oportunidade para aprofundar sua própria capacidade tecnológica.


Produzir no Brasil não pode significar apenas montar componentes importados.


Precisamos perguntar:


Quanto da engenharia será realizada aqui?


Quantos fornecedores brasileiros participarão da cadeia?


Onde serão desenvolvidos os softwares?


Quem produzirá as baterias?


Onde estarão os centros de pesquisa?


Quantos engenheiros brasileiros serão formados?


Quanto conhecimento permanecerá no país?


Porque existe uma diferença gigantesca entre possuir uma fábrica estrangeira dentro do território nacional e possuir uma verdadeira indústria nacional integrada à nova revolução tecnológica.


Da dependência do petróleo à dependência da bateria


O automóvel elétrico promete reduzir uma dependência histórica: os combustíveis fósseis.


Entretanto, uma transição mal planejada pode simplesmente substituir uma dependência por outra.


Sai o petróleo.


Entram baterias, componentes eletrônicos, softwares e tecnologias controladas externamente.


A soberania industrial contemporânea não significa fabricar absolutamente tudo dentro das próprias fronteiras. Nenhuma grande economia funciona dessa maneira.


Significa possuir conhecimento suficiente para não ser completamente dependente das decisões tecnológicas de terceiros.


Nesse aspecto, o Brasil possui vantagens extraordinárias.


Temos recursos minerais relevantes, matriz elétrica relativamente limpa, capacidade de produção de energia renovável, indústria consolidada e enorme mercado interno.


Poucos países possuem simultaneamente essas condições.


Desperdiçá-las seria uma escolha histórica difícil de justificar.


O bote salva-vidas pode se transformar em plataforma


Existe, entretanto, outra possibilidade.


O mesmo Brasil que hoje ajuda a absorver parte da expansão automobilística chinesa pode utilizar esse movimento para reconstruir sua estratégia industrial.


Se empresas como BYD, GWM e outras enxergam o Brasil como mercado estratégico, o país precisa enxergar essas empresas como instrumentos potenciais de desenvolvimento — sem ingenuidade e sem hostilidade.


Capital não possui nacionalidade sentimental.


Ele procura mercado, rentabilidade, estabilidade e oportunidades.


Cabe ao Estado negociar os interesses nacionais.


E cabe às empresas brasileiras encontrar espaços dentro das novas cadeias produtivas.


A questão não deveria ser: “Devemos permitir carros chineses no Brasil?”


Essa discussão já nasceu atrasada.


A pergunta correta é: “Quanto desenvolvimento brasileiro conseguiremos produzir a partir da presença chinesa?”


O risco de continuarmos sendo apenas consumidores


Existe uma ironia histórica que precisa ser observada.


Durante séculos, o Brasil exportou recursos naturais e importou produtos industrializados.


Agora podemos entrar em uma nova versão do mesmo modelo.


Exportamos minério.


Importamos bateria.


Exportamos matérias-primas.


Importamos tecnologia.


Exportamos commodities.


Importamos inteligência embarcada.


Mudam os produtos, mas permanece a estrutura.


E nenhuma grande potência econômica construiu prosperidade duradoura aceitando passivamente essa posição.


A China certamente não fez isso.


Durante décadas, utilizou seu gigantesco mercado consumidor como instrumento para atrair empresas estrangeiras, absorver conhecimento, desenvolver fornecedores e construir capacidade tecnológica própria.


Hoje, empresas chinesas competem justamente com aquelas que anteriormente ensinaram parte do caminho.


Talvez exista aí uma lição que o Brasil deveria observar com particular atenção.


Conclusão — quem está salvando quem?


A sociedade consumidora brasileira está, de fato, ajudando a sustentar a expansão internacional da indústria automobilística chinesa.


Mas essa constatação não deveria produzir medo dos chineses nem culpa no consumidor brasileiro.


Deveria produzir estratégia.


A China fez aquilo que qualquer país interessado em desenvolvimento deveria fazer: planejou, investiu, protegeu interesses estratégicos, desenvolveu tecnologia, ganhou escala e finalmente internacionalizou suas empresas.


O Brasil precisa decidir qual papel deseja ocupar nessa nova ordem automobilística.


Podemos ser simplesmente consumidores satisfeitos de tecnologias desenvolvidas por outros.


Podemos fechar nossas fronteiras tentando artificialmente impedir uma transformação tecnológica inevitável.


Ou podemos utilizar nosso enorme mercado consumidor como instrumento de negociação para participar da construção dessa nova indústria.


Porque o verdadeiro problema não está em comprar um automóvel chinês.


O problema estará em descobrir, daqui a vinte anos, que compramos milhões deles enquanto entregávamos matérias-primas, mercado e dinheiro — mas não aprendemos a produzir o conhecimento que existia dentro deles.


Nesse cenário, o Brasil terá sido realmente um excelente bote salva-vidas.


Só que terá cometido um erro estratégico bastante peculiar: salvou a indústria dos outros enquanto deixava a sua própria capacidade tecnológica à deriva.

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