
Leia ou saia da batalha: a ignorância prospera onde o pensamento deixa de ser exercitado
- Open Planning

- há 5 dias
- 4 min de leitura
Vivemos uma das maiores contradições da história: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil permanecer intelectualmente acomodado.
Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Temos acesso imediato a livros, artigos, pesquisas, documentos, aulas e opiniões produzidas em praticamente qualquer lugar do mundo. Ainda assim, somos diariamente seduzidos pela superficialidade: manchetes substituem textos, cortes substituem contextos, frases substituem argumentos e opiniões prontas substituem o exercício de pensar.
O problema contemporâneo talvez não seja simplesmente a falta de informação.
É a passividade diante dela.
E é exatamente nesse cenário que a leitura continua sendo uma das ferramentas mais poderosas contra a ignorância.
Ler é permitir que nossas certezas sejam incomodadas
Francis Bacon deixou uma orientação extraordinariamente atual: “Leia não para contradizer ou refutar, nem para acreditar e dar por certo […] mas para pensar e considerar.”
Essa talvez seja uma das maiores virtudes da leitura verdadeira.
Um bom livro não deveria apenas confirmar aquilo em que já acreditamos. Ele deveria eventualmente nos contrariar, provocar desconforto, apresentar fatos desconhecidos e colocar nossas próprias convicções diante de um interrogatório.
Ler é permitir que alguém que viveu em outro século, pertenceu a outra cultura ou enxergou determinado problema por outro ângulo entre temporariamente em nossa mente.
Alguns livros confirmam.
Outros confrontam.
E existem aqueles que reorganizam completamente a maneira como enxergamos alguma coisa.
Por isso, ler não significa acumular respostas. Significa aprender a formular perguntas melhores.
A leitura recupera algo que estamos perdendo: concentração
Existe ainda outro aspecto importante.
Ler exige disciplina.
Um livro não vibra no bolso exigindo nossa atenção. Não troca de assunto depois de quinze segundos. Não oferece necessariamente uma recompensa imediata para impedir que abandonemos a página.
Ele exige permanência.
Por isso, em uma sociedade construída cada vez mais em torno da disputa pela nossa atenção, sentar-se durante algum tempo diante de um texto tornou-se quase um ato de resistência intelectual.
A leitura substitui lentamente uma mentalidade de “me entretenha” por outra muito mais poderosa: “me desafie”.
O leitor aprende a observar, relacionar argumentos, perceber contradições, identificar nuances e sustentar uma linha de raciocínio por mais tempo.
E isso ultrapassa os livros.
A capacidade de concentração influencia nossa forma de trabalhar, liderar, estudar, conversar, tomar decisões e compreender problemas complexos.
Quem lê amplia sua capacidade de conversar com o mundo
Existe também uma consequência social.
Repertório gera conexões.
História conversa com política.
Filosofia conversa com liderança.
Economia conversa com comportamento.
Literatura conversa com psicologia.
Arquitetura conversa com sociedade.
Ciência conversa com ética.
Quanto maior nosso repertório, maior nossa capacidade de perceber relações que anteriormente passariam despercebidas.
Isso também nos torna interlocutores melhores.
Não porque precisamos transformar toda conversa em uma demonstração de conhecimento — o pedantismo é apenas ignorância usando gravata —, mas porque conseguimos compreender melhor o terreno intelectual e humano das outras pessoas.
Ler amplia nossa capacidade de ouvir porque nos apresenta mundos que não são os nossos.
Para o cristão, pensar nunca deveria significar abandonar a fé
Existe ainda uma dimensão que considero particularmente importante.
Em 2 Timóteo 4:13, Paulo escreve: “Quando vieres, traze a capa […] e os livros, especialmente os pergaminhos.”
A cena é extraordinária.
Paulo está preso. Seu horizonte é a morte. Mesmo assim, pede livros e pergaminhos.
Os pergaminhos provavelmente estavam relacionados às Escrituras. Mas Paulo também pede os livros.
Até o final da vida, aquele homem continuava interessado em ler, compreender e pensar.
Isso confronta uma ideia perigosa segundo a qual fé e pensamento crítico seriam adversários.
Não são.
Uma fé incapaz de suportar perguntas torna-se frágil. E um intelectual que acredita não possuir pressupostos também pode estar apenas demonstrando uma forma sofisticada de ingenuidade.
Para o cristão, estudar o mundo não deveria significar afastar-se de Deus. Pode significar justamente observar com maior profundidade aquilo que existe, aquilo que somos e aquilo que ainda não compreendemos.
Fé não deveria exigir suicídio intelectual.
“Não tenho tempo para ler”
Essa talvez seja a desculpa mais repetida.
É evidente que existem rotinas brutalmente diferentes e pessoas genuinamente sobrecarregadas. Mas, para grande parte de nós, a pergunta mais incômoda não é: “Tenho tempo para ler?”
É: “Quanto do meu tempo estou escolhendo entregar para outras coisas?”
Quinze minutos parecem insignificantes.
Mas quinze minutos por dia representam mais de 90 horas de leitura por ano.
Não é necessário começar por Dostoiévski, Agostinho, C.S. Lewis ou uma coleção de filosofia de vinte volumes apenas para provar alguma coisa.
Comece pelo que desperta curiosidade.
História.
Negócios.
Biografias.
Filosofia.
Teologia.
Literatura.
Ciência.
Comece pequeno.
Depois amplie.
Leia autores com os quais concorda.
E, principalmente, tenha coragem intelectual para ler alguns com os quais discorda.
Leia ou saia da batalha
A frase atribuída a John Wesley permanece provocadora: “Ou leia ou saia da batalha.”
Porque existe uma batalha permanente contra nossa própria ignorância.
E ela nunca termina.
Quanto mais aprendemos, mais percebemos a dimensão daquilo que ainda desconhecemos.
Talvez seja justamente esse um dos maiores presentes da leitura: ela não apenas acrescenta conhecimento.
Ela destrói a ilusão de que já sabemos o suficiente.
Em um mundo repleto de pessoas absolutamente certas depois de assistir a trinta segundos de vídeo, abrir um livro, permanecer em silêncio e admitir que ainda existe algo a aprender tornou-se quase revolucionário.
Leia.
Questione.
Confronte suas próprias certezas.
Pense.
E depois leia novamente.
Porque a ignorância não precisa vencer uma discussão para prosperar.
Basta que as pessoas parem de pensar.




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