
Entre o Poder e os Princípios
- Open Planning

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Atualizado: há 20 horas
A minha história de quase PT.
Era o início da década de 90.
O Brasil ainda respirava os ares turbulentos da redemocratização. As ruas fervilhavam de debates políticos, as ideologias se chocavam com intensidade e a política era vivida com paixão quase religiosa.
Foi nesse cenário que iniciei minha carreira profissional como publicitário.
Jovem, ambicioso e sedento por crescer, consegui uma oportunidade em uma agência de marketing político relativamente respeitada. Para quem estava começando, aquilo parecia um passaporte para uma ascensão meteórica.
Meu primeiro grande desafio veio cedo.
A agência atendia um cliente importante: o Partido dos Trabalhadores.
Mais especificamente, fui designado como responsável pelo atendimento da conta na Câmara Municipal de Campinas.
Na teoria, bastaria estudar o estatuto do partido, entender sua comunicação institucional e executar o trabalho.
Na prática, era muito diferente.
Rapidamente percebi que compreender aquele universo exigia mais do que leitura formal. Existia uma espécie de conhecimento paralelo, quase subterrâneo, transmitido entre os mais experientes.
Era o que chamavam, entre eles, de “cartilha”.
Alguns se referiam a ela de forma irônica como Caminho Agressivo.
O apelido não era gratuito.
Aquela cartilha não ensinava apenas estratégia política.
Ela revelava uma lógica de poder.
Uma mentalidade.
Um modo de operar.
Ali, fui confrontado com uma visão brutalmente pragmática da política: o poder não era um meio.
Era o fim.
E tudo ao redor — discurso, alianças, narrativas, conflitos, relações — orbitava em torno desse objetivo central.
Conquistar.
Manter.
Expandir.
O restante era ferramenta.
Peças em um tabuleiro.
Nada mais.
Confesso que aquele ambiente me causou um choque profundo.
Até então, eu ainda carregava uma visão talvez ingênua sobre política, trabalho e sucesso profissional. Acreditava que competência, inteligência e esforço seriam suficientes para crescer.
Mas ali descobri outra camada.
A camada em que princípios podem ser tratados como obstáculos.
Em que convicções podem ser negociadas.
Em que limites morais passam a ser vistos como fraqueza.
E foi nesse momento que meus valores foram colocados em xeque.
Não de forma teórica.
De forma prática.
Real.
Silenciosa.
A pergunta não veio em voz alta.
Mas ecoava todos os dias dentro de mim:
Até onde você está disposto a ir para crescer?
A resposta definiria minha trajetória.
De um lado, existia uma ascensão profissional rápida.
Networking poderoso.
Crescimento financeiro.
Influência.
Portas se abrindo.
Do outro lado, algo menos tangível.
Princípios.
Consciência.
Convicções.
Aquilo que ninguém vê, mas que sustenta quem somos.
Foi uma decisão dura.
Porque abrir mão de uma oportunidade promissora nunca é simples.
Especialmente no começo da carreira.
Especialmente quando todos ao redor parecem dizer que você está cometendo um erro.
Mas, no fim, percebi algo fundamental:
Existem ganhos que, quando exigem a perda de si mesmo, na verdade são derrotas disfarçadas de vitória.
Então escolhi.
Escolhi sair.
Escolhi pedir demissão.
Escolhi preservar aquilo que dinheiro, influência e poder jamais conseguiriam comprar de volta.
Minha consciência.
Com o tempo, entendi que aquela experiência me ensinou uma das lições mais valiosas da vida profissional:
Todo mercado tem seus jogos.
Toda estrutura de poder tem suas tentações.
Toda carreira oferece atalhos.
A pergunta nunca será se esses atalhos existem.
A verdadeira pergunta é:
Quem você se torna ao escolhê-los?
Porque no final, poder sem caráter é apenas uma forma sofisticada de corrupção.
E sucesso sem princípios cobra um preço alto demais.
Alguns chamam isso de perda de oportunidade.
Hoje, chamo de livramento.




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