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Entre o Clamor e a Responsabilidade: Quando Não Tenho as Respostas, Mas Sei a Quem Recorrer

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • há 4 dias
  • 7 min de leitura

Em se tratando da minha existência, eu não tenho todas as respostas. Talvez essa seja uma das confissões mais difíceis para o ser humano: admitir que, apesar de todo conhecimento adquirido, de toda experiência acumulada e de todas as tentativas de compreender a vida, continuamos incapazes de responder plenamente às perguntas mais profundas da existência. Há acontecimentos que não conseguimos explicar, caminhos que não compreendemos e dores para as quais a razão simplesmente não encontra uma resposta satisfatória.


Entretanto, não possuir todas as respostas não significa viver sem direção. Quando a razão alcança seu limite, a fé não precisa necessariamente terminar; pode ser exatamente ali que ela começa a revelar sua profundidade. É nesse território que encontro em Deus a súplica e o clamor, confiando em Sua misericórdia e graça.


Existe uma diferença fundamental entre procurar Deus porque temos todas as certezas e procurá-Lo justamente porque não as temos. A fé cristã não elimina todas as perguntas da existência. Ela oferece algo diferente: um fundamento sobre o qual permanecer enquanto algumas dessas perguntas continuam sem resposta.


A humildade de reconhecer que não sabemos


A humanidade desenvolveu ciência, filosofia, tecnologia e uma extraordinária capacidade de interpretar o mundo. Ainda assim, permanecemos diante das mesmas perguntas essenciais que atravessaram gerações: por que existimos? Por que sofremos? Por que determinadas coisas acontecem? Qual é o propósito de acontecimentos aparentemente incompreensíveis? Por que algumas orações parecem encontrar respostas enquanto outras parecem encontrar silêncio?


Reconhecer esses limites não representa derrota intelectual. Representa humildade.


Há uma arrogância peculiar na necessidade de explicar absolutamente tudo. Como se somente aquilo que conseguimos compreender pudesse possuir significado. Como se Deus precisasse caber dentro dos limites daquilo que nossa mente consegue organizar.


A própria Escritura confronta essa pretensão: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor.Isaías 55:8


A fé, portanto, não é necessariamente possuir uma explicação. Muitas vezes, é permanecer quando a explicação não chegou.


Quando a oração deixa de ser discurso e se transforma em clamor


Existem momentos em que orar é organizar pensamentos diante de Deus. Existem outros em que já não existem pensamentos suficientemente organizados.


Resta o clamor.


E talvez seja justamente aí que a oração se torne mais verdadeira.


O clamor nasce quando desaparecem as performances religiosas. Não existe necessidade de impressionar Deus com palavras sofisticadas. Existe apenas alguém reconhecendo sua fragilidade diante daquele em quem decidiu depositar sua esperança.


Suplicar é reconhecer necessidade. Clamar é reconhecer limite. Confiar é permanecer mesmo sem compreender.


Por isso, quando digo que encontro em Deus a súplica e o clamor, não estou afirmando possuir respostas privilegiadas sobre minha existência. Estou dizendo exatamente o contrário: reconheço que não consigo carregar sozinho todas as perguntas que ela produz.


E então as coloco diante de Deus.


Misericórdia e graça: duas palavras que mudam nossa relação com o erro


Nesse encontro entre fragilidade humana e Deus aparecem duas palavras fundamentais do cristianismo: misericórdia e graça.


Elas são próximas, mas não idênticas.


De maneira simples, podemos compreender a misericórdia como Deus não nos tratando apenas segundo aquilo que nossos erros mereceriam. A graça, por sua vez, manifesta o favor que não poderíamos reivindicar como resultado de nossos próprios méritos.


Uma olha para nossa miséria.


A outra revela a generosidade de Deus.


Mas existe um perigo quando esses conceitos são distorcidos: transformar misericórdia em permissividade e graça em licença para continuar escolhendo aquilo que sabemos estar errado.


Esse nunca foi o sentido da graça cristã.


O apóstolo Paulo confrontou precisamente essa possibilidade ao perguntar se deveríamos permanecer no pecado para que a graça aumentasse. Sua resposta foi inequívoca: “De modo nenhum.” (Romanos 6:1–2)


A graça pode alcançar aquele que caiu, mas não transforma deliberadamente o precipício em caminho.


Nenhuma má escolha tem como desculpa a própria desculpa


É justamente aqui que surge uma afirmação desconfortável: Nenhuma má escolha tem como desculpa a própria desculpa.


Todos possuímos explicações.


Fomos feridos. Estávamos cansados. Sentimo-nos abandonados. Fomos provocados. Tivemos medo. Não conhecíamos todas as consequências. Alguém também errou conosco. As circunstâncias eram difíceis. A vida não aconteceu como imaginávamos.


Tudo isso pode explicar comportamentos.


Mas explicar não significa necessariamente justificar.


Essa distinção é fundamental.


Existem circunstâncias que diminuem nossa responsabilidade e situações em que realmente não possuímos liberdade plena de escolha. Seria intelectualmente irresponsável ignorar isso. Entretanto, quando existe consciência, possibilidade de decisão e liberdade suficiente para escolher, precisamos reconhecer nossa participação naquilo que fazemos.


A desculpa torna-se perigosa quando deixa de explicar o contexto e passa a funcionar como instrumento para apagar responsabilidade.


Porque existe uma diferença enorme entre dizer: “Eu fiz isso porque estava ferido.


e dizer: Eu estava ferido, por isso fiz isso. Mas ainda assim fui eu quem escolheu fazer.


A primeira frase corre o risco de transferir responsabilidade.


A segunda produz consciência.


E somente aquilo que reconhecemos pode verdadeiramente ser confrontado.


Arrependimento começa onde terminam os álibis


Talvez uma das características mais profundas do arrependimento seja justamente o abandono dos álibis.


Enquanto precisamos desesperadamente provar que nosso erro aconteceu exclusivamente por causa de alguém, das circunstâncias ou da própria vida, ainda estamos tentando negociar nossa responsabilidade.


O arrependimento possui outra linguagem: “Eu errei.


Duas palavras extremamente simples e extraordinariamente difíceis.


Sem “mas”.


Sem construir imediatamente uma defesa.


Sem transformar a falha do outro em absolvição da nossa.


Isso não significa ignorar injustiças sofridas. Tampouco significa carregar culpas que pertencem a outras pessoas. Significa apenas separar corretamente aquilo que pertence ao outro daquilo que pertence a nós.


A maturidade começa quando consigo dizer: não sou responsável por tudo aquilo que aconteceu comigo, mas sou responsável pelas escolhas que faço diante daquilo que aconteceu comigo.


Essa diferença muda uma existência.


A responsabilidade não elimina a misericórdia


Existe, entretanto, outro extremo igualmente perigoso.


Se de um lado podemos utilizar a graça como desculpa para irresponsabilidade, do outro podemos transformar responsabilidade em condenação permanente.


O cristianismo não aponta para nenhum desses extremos.


A mensagem do Evangelho não é que o erro seja irrelevante. Também não é que aquele que errou esteja condenado eternamente à identidade de seu pior momento.


Existe arrependimento.


Existe perdão.


Existe restauração.


Existe transformação.


Pedro negou Cristo. Davi tomou decisões devastadoras. Paulo carregou consigo um passado de perseguição aos cristãos. A Bíblia não esconde as falhas de seus personagens justamente porque sua mensagem não depende da perfeição humana.


Ela aponta para aquilo que Deus pode fazer com seres humanos imperfeitos que reconhecem sua condição.


A misericórdia não chama o erro de acerto. A graça não chama irresponsabilidade de liberdade. O perdão não reescreve o passado como se nada tivesse acontecido.


Eles fazem algo maior: permitem que o passado não precise determinar definitivamente o futuro.


Fé não é ausência de perguntas


Talvez durante muito tempo tenhamos confundido fé com certeza absoluta.


Mas existem momentos em que uma fé genuína pode ser expressa simplesmente assim: “Deus, eu não entendo.


enorme honestidade nessa oração.


Não compreender Deus não significa necessariamente abandonar Deus.


Não compreender determinado acontecimento não significa que ele seja desprovido de qualquer possibilidade de significado.


E não possuir respostas não significa que precisemos inventá-las.


Algumas perguntas permanecem abertas.


Algumas respostas talvez apareçam com o tempo.


Outras talvez nunca apareçam nesta existência.


É nesse espaço desconfortável entre aquilo que gostaria de compreender e aquilo que efetivamente consigo compreender que a confiança passa a ter significado.


Porque confiança somente é necessária quando existe alguma coisa que ainda não consigo enxergar.


Entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana


Existe uma tensão permanente na experiência cristã: confiar na soberania de Deus sem transformar essa soberania em desculpa para nossas decisões.


Nem tudo está sob nosso controle.


Mas nossas escolhas continuam importando.


Não controlamos todas as circunstâncias, todas as perdas, todas as pessoas, todos os acontecimentos ou todas as consequências.


Entretanto, frequentemente controlamos nossa resposta diante deles.


Podemos escolher alimentar ressentimento ou buscar perdão.


Podemos escolher esconder um erro ou reconhecê-lo.


Podemos escolher justificar permanentemente determinada atitude ou confrontá-la.


Podemos escolher repetir padrões ou interrompê-los.


Podemos escolher transformar sofrimento em autorização para ferir ou permitir que ele nos ensine alguma coisa sobre compaixão.


A fé não remove essa responsabilidade.


Ao contrário: quanto maior a consciência, maior deveria ser a responsabilidade sobre aquilo que fazemos com ela.


O lugar onde a fé encontra a maturidade


Talvez amadurecer espiritualmente não seja chegar ao ponto em que todas as perguntas desapareceram.


Talvez seja chegar ao ponto em que já não precisamos inventar respostas para permanecer diante de Deus.


Posso dizer: não sei.


Posso perguntar: por quê?


Posso chorar.


Posso clamar.


Posso discordar daquilo que estou vivendo.


Posso atravessar períodos de silêncio.


Mas ainda assim posso escolher permanecer.


Da mesma forma, posso reconhecer minhas falhas sem transformar minha existência em um tribunal permanente contra mim mesmo. Posso assumir responsabilidade sem abandonar a esperança. Posso pedir misericórdia sem utilizar misericórdia como desculpa. Posso receber graça sem transformá-la em autorização para repetir deliberadamente aquilo que sei que precisa mudar.


É nesse equilíbrio que encontro uma fé menos superficial.


Conclusão — Não tenho todas as respostas, mas sei onde colocar minhas perguntas


Em se tratando da minha existência, continuo sem possuir todas as respostas.


E talvez jamais as possua.


Existem capítulos que consigo interpretar apenas depois de vivê-los. Existem outros cujo significado permanece oculto. Existem acontecimentos diante dos quais nenhuma explicação humana parece suficiente.


Mas minha ausência de respostas não significa ausência de esperança.


Tenho em Deus a súplica e o clamor.


Tenho Sua misericórdia quando reconheço minha insuficiência.


Tenho Sua graça quando descubro que meus próprios méritos jamais seriam suficientes.


E tenho também a responsabilidade de olhar para minhas escolhas sem transformar minhas circunstâncias em álibis permanentes.


Porque fé sem responsabilidade pode facilmente tornar-se conveniência religiosa. Responsabilidade sem graça pode transformar-se em condenação. Mas quando responsabilidade, misericórdia e graça se encontram, existe espaço para algo muito mais profundo: transformação.


Por isso, talvez a síntese da minha caminhada não esteja em afirmar que finalmente compreendi a existência.


Está em reconhecer que continuo perguntando.


Continuo buscando.


Continuo clamando.


Continuo dependendo da misericórdia e da graça de Deus.


E, ao mesmo tempo, continuo aprendendo a assumir aquilo que me pertence.


Porque nenhuma má escolha tem como desculpa a própria desculpa.


E quando não tenho todas as respostas, ainda tenho uma decisão fundamental diante de mim: posso não compreender todos os caminhos de Deus, mas posso escolher como caminharei diante d’Ele.

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