
El Salvador: qual é o segredo por trás da transformação do país?

Análise política, econômica e social: Outubro de 2026
A transformação de El Salvador, sob a presidência de Nayib Bukele, tem um elemento central: a recuperação do controle territorial pelo Estado, acompanhada de políticas de estabilização econômica, investimentos e reposicionamento internacional.
O resultado mais evidente apareceu na segurança pública. Mas seus efeitos também alcançaram o comércio, a construção civil, o turismo e a confiança dos investidores.
1. Os números da transformação
Homicídios por 100 mil habitantes em 2015: 105
Pico histórico, conforme a Human Rights Watch
Homicídios por 100 mil em 2025: 1,3
Dado oficial salvadorenho
Crescimento do PIB em 2025: +3,9%
Estimativa do FMI
Crescimento do PIB e 2026: +4,5%
Projeção do FMI, não resultado fechado
Fontes: Human Rights Watch, Ministério da Segurança de El Salvador e FMI, outubro de 2026. Human Rights Watch +2
Esses dados mostram duas situações distintas: uma queda extraordinária nos homicídios oficialmente registrados e uma aceleração econômica recente, ainda condicionada à continuidade das reformas. Fiscalia General de la República +1
2. Primeiro fator: retirar das organizações criminosas o controle das ruas
Durante décadas, organizações como a MS-13 (🤔) e a Barrio 18 controlavam territórios, cobravam extorsões de comerciantes, restringiam deslocamentos e exerciam violência sobre comunidades.
O governo Bukele adotou uma estratégia de forte repressão, especialmente a partir do regime de exceção estabelecido em março de 2022, com detenções em massa, operações policiais e militares e ampliação do sistema prisional.
A lógica econômica por trás disso é relevante: a criminalidade organizada funciona como um imposto informal sobre a sociedade.
Quando comerciantes precisam pagar extorsões, trabalhadores evitam determinados bairros e empresas deixam de investir, a economia perde capacidade produtiva.
Reduzir essas barreiras pode produzir ganhos em cadeia: maior circulação de consumidores, ampliação dos horários de funcionamento, retomada de empreendimentos e valorização de determinadas áreas urbanas.
O Banco Mundial reconhece expressamente que a melhora da segurança eliminou um obstáculo importante à atividade econômica e fortaleceu a confiança dos investidores. World Bank Group +1
3. Segundo fator: reconstruir a confiança econômica
O crescimento não decorreu somente de prender integrantes de organizações criminosas.
El Salvador também adotou medidas para reduzir pressões fiscais, administrar vencimentos da dívida pública e obter financiamento internacional.
Em fevereiro de 2025, foi aprovado um programa de aproximadamente US$ 1,4 bilhão com o FMI, vinculado a compromissos de sustentabilidade fiscal, transparência e fortalecimento financeiro.
O país também se beneficia de fatores externos, especialmente as remessas enviadas por salvadorenhos que trabalham no exterior, sobretudo nos Estados Unidos.
O resultado tem sido a combinação de maior confiança, investimento privado e consumo. Construção civil e turismo aparecem entre os setores beneficiados. Fundo Monetário Internacional +2
Isso revela um mecanismo importante: a segurança pode estimular a economia, mas o crescimento duradouro depende também de produtividade, investimento, estabilidade financeira e capacidade institucional.
4. Terceiro fator: transformar segurança em oportunidades de negócios
Turismo: a retomada da circulação e os investimentos em infraestrutura costeira reforçaram o potencial turístico do país.
Construção e investimentos: a recuperação da confiança favoreceu projetos imobiliários, infraestrutura e expansão comercial.
Segundo os dados divulgados pelas autoridades salvadorenhas, El Salvador recebeu aproximadamente 4,1 milhões de visitantes internacionais em 2025, ante cerca de 3,95 milhões em 2024. Diario El Mundo +1
Outro dado social relevante é a redução da pobreza. O Banco Mundial informou, em outubro de 2026, que a proporção de famílias abaixo da linha nacional de pobreza caiu para 22,5% em 2025, uma redução de 4,7 pontos percentuais em relação a 2023. World Bank
Isso não significa que o país tenha alcançado prosperidade generalizada: o FMI ainda registra renda per capita de aproximadamente US$ 5.751 em 2025, enquanto o Banco Mundial destaca problemas persistentes de produtividade e qualidade dos empregos. Fundo Monetário Internacional +1
5. E o Bitcoin? Foi o segredo econômico?
Não existem evidências suficientes para atribuir o crescimento econômico salvadorenho à adoção do Bitcoin.
Embora tenha sido uma iniciativa internacionalmente conhecida do governo Bukele, os relatórios recentes do FMI destacam principalmente segurança, investimento, consumo, remessas e ajuste fiscal.
Inclusive, o acordo com o FMI envolveu a redução da participação pública na carteira digital Chivo e medidas para limitar riscos associados aos criptoativos. Fundo Monetário Internacional +1
7. O que o Brasil poderia aprender com El Salvador?
Há lições que merecem análise, sem pressupor que o modelo salvadorenho possa ser simplesmente transplantado para um país com as dimensões e a estrutura federativa do Brasil.
Controle territorial: impedir que organizações criminosas substituam o poder público nas comunidades.
Segurança como infraestrutura econômica: reconhecer que extorsão, roubo e violência elevam custos e desestimulam investimentos.
Continuidade administrativa: estabelecer objetivos verificáveis e políticas que ultrapassem disputas eleitorais.
Disciplina fiscal e investimento: criar condições para que a recuperação da segurança se converta em empregos e produtividade.
Instituições e direitos: desenvolver instrumentos eficazes de repressão criminal com investigação, devido processo legal e fiscalização independente.
Afinal, qual é o segredo?
A experiência salvadorenha sugere uma relação poderosa:
Redução da criminalidade organizada
Maior liberdade de circulação e atividade econômica
Recuperação da confiança e dos investimentos
Expansão dos negócios, empregos e arrecadação
Cadeia econômica simplificada. Os resultados também dependem de fatores externos e de políticas macroeconômicas.
A conclusão é que a segurança pública não é apenas uma política de combate ao crime: ela também constitui uma condição essencial para o desenvolvimento econômico e social.
E há uma pergunta particularmente interessante para aprofundarmos: o que aconteceria com o PIB brasileiro se conseguíssemos reduzir drasticamente o custo econômico da criminalidade, sem sacrificar o Estado de Direito? Essa comparação entre Brasil e El Salvador pode revelar efeitos muito mais amplos do que apenas os indicadores policiais.




Comentários