
Brasil S.A. em modo Seriado “Billions”.
- Open Planning

- 14 de abr.
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Atualizado: 17 de abr.
O Brasil não lembra “Billions” por causa de luxo, ambição ou personagens vaidosos. Isso seria básico do básico.
Ele lembra “Billions” porque o poder deixou de ser instrumento de direção e virou método de disputa, pressão, barganha e sobrevivência.
Não se governa mais o país. Administra-se o tabuleiro. Protege-se a narrativa. Compra-se tempo. Empurra-se a conta. E vende-se isso tudo como se fosse responsabilidade histórica.
No roteiro da série, o dinheiro é uma arma. Aqui também.
A arrecadação já não aparece como consequência de uma economia saudável. Ela surge como compulsão de um Estado que perdeu o pudor de avançar sempre mais sobre quem produz, trabalha, empreende e paga. Quando falta eficiência, aumenta-se a pressão. Quando falta resultado, reinventa-se a justificativa. Quando falta credibilidade, terceiriza-se a culpa.
É sempre o mesmo teatro com figurino novo.
Chamam de ajuste.
Chamam de equilíbrio.
Chamam de justiça tributária.
Chamam de reconstrução.
Mas, no fim, muita coisa soa apenas como aquilo que realmente é: um poder faminto por caixa tentando sobreviver politicamente sem encarar a própria obesidade estrutural.
E aqui mora a parte mais cínica do enredo.
No Brasil de hoje, tributar mais virou coragem. Gastar mal continua sendo tratado como detalhe. Negociar em excesso virou habilidade. Dependência política virou governabilidade. E o contribuinte, claro, segue escalado para o papel de otário premium dessa produção cara e mal dirigida.
Em “Billions”, os personagens manipulam sistemas para vencer. No Brasil, a sensação é pior: o sistema já foi moldado para continuar punindo quem sustenta a máquina e premiando quem aprende a operar dentro dela.
Não há grandeza nisso. Há vício.
Vício em controle.
Vício em arrecadação.
Vício em retórica.
Vício em empurrar para frente o preço de decisões covardes.
Vício em fazer política como quem faz gestão de danos e não construção de futuro.
O mais grave não é o conflito entre Executivo, Congresso, Judiciário, mercado e interesses organizados. Conflito sempre existirá. O mais grave é quando a nação inteira percebe que quase ninguém mais parece interessado em sair do jogo — apenas em ganhar dentro dele.
E quando a política passa a amar mais o jogo do que o país, o país apodrece por dentro.
Porque aí o orçamento deixa de ser ferramenta de desenvolvimento e vira moeda de troca. A tributação deixa de ser instrumento de equilíbrio e vira mecanismo de extração. A articulação deixa de ser coordenação republicana e vira coreografia de conveniência. E a liderança deixa de ser visão para se tornar gerenciamento de crise com discurso de palco.
Isso não é força. Isso é decadência maquiada de sofisticação.
O Brasil não precisa de operadores elegantes do caos. Precisa de gente disposta a cortar privilégios, reduzir a gula estatal, parar de romantizar improviso fiscal e entender que governar não é asfixiar a sociedade enquanto recita frases de efeito sobre responsabilidade.
Porque um país não quebra só quando faltam recursos. Um país começa a quebrar quando perde a vergonha de normalizar abuso, dependência, manipulação e mediocridade institucional.
“Billions”, pelo menos, tem a honestidade de admitir que seus personagensestão viciados em poder. O Brasil, não. Aqui, ainda tentam vender o vício como virtude.
E talvez seja exatamente esse o ponto mais perigoso de todos: quando a máquina já não serve ao povo, mas consegue convencer parte dele de que ser espremido é sinal de maturidade democrática.
No fim, o paralelo é simples e brutal: em “Billions”, o poder é jogado como xadrez. No Brasil atual, também.
A diferença é que, na série, o público desliga a TV no fim do episódio. Aqui, o brasileiro acorda no dia seguinte e continua pagando pela temporada inteira.




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