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Vida Longa à Publicidade: O que a Publicidade Brasileira dos Anos 80 e 90 Ainda tem a Nos Ensinar

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 6 de jun.
  • 4 min de leitura

Ao revisitar anúncios das décadas de 80 e 90, surge uma pergunta inevitável: A publicidade brasileira perdeu a capacidade de contar histórias ou nós perdemos a capacidade de ouvi-las?


Vivemos em uma época de abundância de informação, mas escassez de significado. Nunca produzimos tanto conteúdo. Nunca consumimos tanta comunicação. E, paradoxalmente, nunca esquecemos tão rápido.


Enquanto isso, campanhas criadas30 ou 40 anos continuam sendo lembradas, estudadas e discutidas.


Por quê?


Porque não eram apenas anúncios.


Eram histórias.


A Era em que a Publicidade Conversava com as Pessoas


A publicidade brasileira dos anos 80 e 90 foi construída em um ambientemuito diferente do atual.


Havia menos canais, menos distrações e menos estímulos competindopela atenção das pessoas.


Isso obrigava as marcas a serem mais interessantes.


Não bastava aparecer.


Era preciso dizer algo.


Os anúncios tinham conceito.


Tinham humor.


Tinham narrativa.


Tinham personalidade.


E, principalmente, confiavam na inteligência do público.


O consumidor era tratado como alguém capaz de interpretar metáforas, ironias e duplos sentidos.


A publicidade não tinha medo de provocar reflexão.


O Produto Era Importante. Mas a Ideia Era Mais.


Grandes campanhas da época não vendiam apenas características técnicas.


Elas vendiam significados.


O automóvel não era apenas um carro.


Era liberdade.


Era conquista.


Era independência.


O café não era apenas uma bebida.


Era encontro.


Era conversa.


Era afeto.


As marcas entendiam algo fundamental: As pessoas não compram produtos. As pessoas compram histórias que justificam suas escolhas.


Essa lógica continua verdadeira até hoje.


O que mudou foi a forma como a comunicação passou a ser construída.


A Era do Algoritmo


Se os anos 80 e 90 buscavam construir memória, os anos atuais frequentemente buscam construir alcance.


Ontem a pergunta era: Como criar uma campanha que seja lembrada daqui a dez anos?


Hoje, muitas vezes, a pergunta é: Como gerar engajamento nas próximas vinte e quatro horas?


São objetivos completamente diferentes.


O algoritmo recompensa velocidade.


A memória recompensa significado.


O algoritmo valoriza a reação.


A história valoriza a reflexão.


O algoritmo mede cliques.


A cultura mede legado.


O Grande Paradoxo da Modernidade


Talvez a transformação da publicidade seja apenas o reflexo da transformação da sociedade.


Vivemos uma época que se apresenta como a mais livre da história.


Mas também parece ser uma das mais sensíveis a interpretações, símbolos e palavras.


Ao mesmo tempo em que celebramos a diversidade de opiniões, muitas vezes demonstramos menor tolerância à ambiguidade.


Uma metáfora hoje pode gerar mais debates do que compreensão.


Um duplo sentido pode gerar mais julgamento do que curiosidade.


A consequência é que muitas narrativas se tornam mais seguras, mais neutras e, frequentemente, menos memoráveis.


Perdemos a Capacidade de Contar Histórias?


Talvez não.


Talvez tenhamos perdido a disposição para construí-las.


Boas histórias exigem tempo.


Exigem observação.


Exigem escuta.


Exigem profundidade.


E profundidade não combina com pressa.


As campanhas mais marcantes da publicidade brasileira nasceram de observações humanas.


Elas falavam sobre amor.


Sobre família.


Sobre amizade.


Sobre ambição.


Sobre sonhos.


Sobre conquistas.


Falavam sobre gente.


Hoje muitas marcas falam sobre si mesmas.


Mas as pessoas continuam interessadas, principalmente, em suas próprias histórias.


Pessoas Não Expiram


Existe uma diferença importante entre o ser humano e o conteúdo.


Conteúdo expira.


Tendências expiram.


Plataformas expiram.


Pessoas não.


Pessoas envelhecem.


Acumulam experiência.


Memórias.


Histórias.


Sabedoria.


Talvez uma das maiores distorções da era digital tenha sido confundir novidade com valor.


Nem tudo que é novo possui valor.


E nem tudo que possui valor é novo.


Uma boa ideia continua sendo uma boa ideia décadas depois.


Uma boa campanha continua sendo estudada gerações depois.


Uma boa história continua emocionando mesmo quando o contexto muda.


Os Publicitários Eram Criativamente Felizes?


Talvez alguns fossem.


Talvez outros não.


Mas existe uma diferença importante.


Aquela geração vivia em um ambiente onde a ideia ocupava o centro da mesa.


O redator era valorizado pela qualidade do texto.


O diretor de arte era valorizado pela força visual.


O conceito era o ativo mais importante da campanha.


Hoje existem mais ferramentas do que nunca.


Mais dados.


Mais tecnologia.


Mais recursos.


Mas nem sempre existe mais tempo para pensar.


A criatividade contemporânea muitas vezes disputa espaço com relatórios, métricas, dashboards e algoritmos.


O Que Nunca Mudou


Apesar de todas as transformações tecnológicas, existe uma verdade que atravessa décadas: Comunicação continua sendo gente falando com gente.


A ferramenta muda.


O meio muda.


O formato muda.


Mas o ser humano continua procurando exatamente as mesmas coisas:


  • Pertencimento.

  • Reconhecimento.

  • Significado.

  • Afeto.

  • Esperança.

  • Histórias.


Por isso algumas campanhas envelhecem bem.


Porque foram construídas sobre verdades humanas.


E verdades humanas raramente saem de moda.


Conclusão


Quando olhamos para a publicidade brasileira dos anos 80 e 90, não estamos apenas olhando para anúncios antigos.


Estamos olhando para uma época em que as marcas acreditavam que uma boa história poderia mudar a forma como uma pessoa enxergava o mundo.


Talvez a publicidade não precise voltar ao passado.


Mas talvez precise se lembrar de algo que o passado sabia muito bem: Uma campanha pode vender um produto. Uma promoção pode vender uma oportunidade. Mas apenas uma história consegue atravessar gerações.


E talvez por isso ainda façam tanto sentido as palavras: Vida longa à publicidade. E feliz o publicitário que envelheceu.


Porque anúncios passam.


Campanhas passam.


Tecnologias passam.


Mas as histórias permanecem.


E quem conta boas histórias deixa marcas que o tempo não apaga.

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