
O Problema Não é apenas a Inflação
- Open Planning

- 25 de mai.
- 4 min de leitura
Pelo IPCA/IBGE, de jan/2022 a abr/2026, a inflação geral acumulada foi perto de +24%. Mas os itens de mercado pesaram mais.
Alimentação e bebidas: aproximadamente +29% acumulado no período. Ou seja: uma compra de R$ 1.000 em 2022 virou algo perto de R$ 1.290 em 2026 só pela inflação média do grupo.
Limpeza: entra em “artigos de limpeza”, dentro de habitação no IPCA. A categoria inclui itens como água sanitária, detergente, sabão em pó, desinfetante, sabão líquido, papel toalha e afins.
Higiene pessoal: aparece dentro de saúde e cuidados pessoais, e em 2026 continuou pressionando o índice; em abril, por exemplo, higiene pessoal subiu 1,32% no IPCA-15.
O dado oficial mais recente do IBGE mostra IPCA de 0,67% em abril/2026 e 4,39% em 12 meses.
Tradução direta: não é impressão sua. O mercado ficou estruturalmente mais caro. E o golpe é mais cruel porque esses itens não são luxo; são sobrevivência básica.
E o aspecto mais interessante é que muitas pessoas sentem que a inflação real do dia a dia foi muito maior do que a inflação oficial.
Isso acontece porque a inflação divulgada pelo IPCA mede uma cesta enorme de produtos e serviços. Porém, o orçamento da maioria das famílias é fortemente concentrado em itens essenciais: comida, higiene, limpeza, energia, transporte e medicamentos. E justamente esses grupos tiveram períodos de forte pressão desde 2022.
Na prática, uma família que gastava em 2022:
R$ 800 com alimentação;
R$ 200 com limpeza;
R$ 200 com higiene pessoal;
R$ 300 com produtos de farmácia;
pode facilmente estar gastando até 40% a mais hoje dependendo dos produtos consumidos, das marcas escolhidas e da região do país. Alguns itens específicos tiveram aumentos muito acima da inflação média, especialmente alimentos, proteínas, leite, café, ovos e produtos industrializados em determinados períodos.
O fenômeno é conhecido por economistas como inflação percebida. O consumidor não compra “a cesta do IBGE”; ele compra aquilo que utiliza toda semana. Quando os itens comprados com maior frequência sobem de preço, a perda de poder de compra é muito maior do que a inflação oficial sugere.
Outro ponto importante é que os salários não acompanharam a mesma velocidade de crescimento de muitos custos essenciais. O resultado é um empobrecimento gradual.
Por isso, quando alguém diz: “Parece que o mercado dobrou de preço desde 2022”, tecnicamente não está correto para a média geral, mas financeiramente tem fundamento, porque a parcela mais visível e frequente do orçamento foi justamente a mais pressionada.
Existe uma narrativa recorrente no debate econômico brasileiro: a de que a inflação é a grande responsável pela perda do poder de compra da população. E, de fato, ela tem um papel importante. Mas limitar a análise apenas à inflação é observar apenas a superfície do problema.
O que realmente pressiona a vida das famílias e das empresas é a combinação de três fatores que se reforçam mutuamente:
1º. Inflação
Quando os preços sobem de forma contínua, o dinheiro perde valor. O consumidor percebe isso imediatamente no supermercado, na farmácia, nos serviços básicos e em praticamente todas as despesas do cotidiano.
2º. Baixa produtividade
Uma economia só consegue gerar riqueza de forma consistente quando produz mais e melhor. Quando a produtividade cresce pouco, empresas encontram dificuldades para aumentar salários, investir, inovar e ganhar competitividade. O resultado é um sistema econômico que se movimenta, mas avança lentamente.
3º. Crescimento fraco da renda real
Não basta o salário aumentar nominalmente. O que realmente importa é o quanto ele consegue comprar. Quando a renda cresce menos do que os custos de vida ou cresce de forma muito lenta, a sensação coletiva é clara: trabalha-se mais para manter o mesmo padrão de vida — ou até mesmo um padrão inferior.
A percepção das pessoas não está errada
Muitas vezes os indicadores oficiais apontam uma inflação controlada, mas a população continua sentindo dificuldades crescentes. Isso acontece porque as famílias não vivem dentro de planilhas estatísticas. Elas vivem no mundo real.
Elas percebem:
O supermercado mais caro.
O aluguel mais pesado.
Os serviços mais caros.
A dificuldade de poupar.
A sensação de que o esforço necessário para manter a mesma qualidade de vida aumenta ano após ano.
Quando produtividade, renda e inflação caminham em direções desfavoráveis, o resultado é exatamente essa percepção: o trabalho parece render menos.
O desafio das PMEs
Para as pequenas e médias empresas, esse cenário é ainda mais complexo.
O consumidor fica mais seletivo. Os custos operacionais aumentam. A margem diminui. A competição se intensifica.
Por isso, sobreviver apenas aumentando preços é uma estratégia limitada. Em algum momento, o mercado deixa de absorver novos reajustes.
Empresas mais resilientes costumam concentrar seus esforços em:
Ganho de produtividade.
Capacitação de equipes.
Melhoria de processos.
Uso inteligente da tecnologia.
Gestão baseada em indicadores.
Fortalecimento do relacionamento com clientes.
A grande questão
Países não enriquecem apenas porque controlam a inflação.
Países enriquecem quando conseguem criar um ambiente onde produtividade, renda e geração de valor crescem de forma sustentável.
Quando isso acontece, o crescimento deixa de ser apenas um número nos relatórios econômicos e passa a ser percebido pelas pessoas em sua vida cotidiana.
Porque, no fim das contas, a economia não é medida apenas pelo que os índices mostram.
Ela é medida pelo que as pessoas conseguem construir, consumir, poupar e sonhar.
O verdadeiro problema não é apenas a inflação. É quando a inflação encontra uma economia que produz pouco e uma renda que cresce devagar. Nesse cenário, o tempo passa, o esforço aumenta e a sensação coletiva é de que a esteira está acelerando mais rápido do que as pessoas conseguem correr.




Comentários