
O desafio de deixar de ser incrédulo sem continuar apenas religioso
- Open Planning

- 1 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 2 de jul.
Um dos maiores desafios da minha vida hoje é ser diferente do que fui durante a maior parte da minha existência — seja como incrédulo, seja como religioso “evangélico” ou simplesmente alguém identificado como “crente”.
Durante muito tempo, pude viver distante de Cristo mesmo quando utilizava uma linguagem cristã, frequentava ambientes religiosos ou conhecia conceitos bíblicos. Afinal, é possível abandonar a incredulidade declarada sem, de fato, abandonar a velha maneira de pensar, falar e agir. A religião pode mudar o vocabulário de uma pessoa sem necessariamente transformar seu caráter.
Entregar o governo da vida a Cristo, portanto, não é um ato simbólico, emocional ou meramente institucional. É uma metanoia: uma transformação profunda da mente, dos valores, das intenções e das atitudes. Não se trata apenas de acreditar que Cristo existe, mas de permitir que Ele ocupe o centro das decisões e passe a governar aquilo que antes era conduzido pelo ego, pelo orgulho, pelo medo, pela vaidade e pela necessidade de aprovação.
O desafio se torna ainda maior porque a natureza humana não desaparece automaticamente. Mesmo aquele que foi chamado de nova criatura continua enfrentando impulsos, pensamentos e comportamentos construídos durante anos. A velha criatura não entrega o controle com facilidade. Ela tenta sobreviver nas reações automáticas, nas palavras impensadas, na arrogância disfarçada de convicção e até na religiosidade utilizada como proteção para não reconhecer os próprios erros.
Por isso, a vida cristã exige consciência prática e vigilância diária. Nossos princípios e fundamentos agora são outros, mas precisamos consultá-los continuamente — quase como um sistema on-line, em tempo real. Antes de pensar, falar ou agir, torna-se necessário confrontar nossas escolhas com o caráter de Cristo e com os valores do Evangelho.
Essa comparação, porém, não deve acontecer em relação ao outro. O objetivo não é parecer mais santo, mais correto ou mais espiritual do que alguém. A verdadeira referência é a nossa própria velha criatura. A pergunta essencial não é: “Estou melhor do que os outros?”, mas: “Estou reagindo hoje de maneira diferente daquela pessoa que eu era antes de entregar minha vida a Cristo?”
Essa mudança exige energia, humildade e disposição para reconhecer incoerências. É cansativo vigiar pensamentos, revisar palavras e interromper comportamentos que durante anos pareciam naturais. Mais difícil ainda é perceber que algumas atitudes antigas foram apenas revestidas por uma linguagem religiosa. O orgulho pode se tornar “defesa da verdade”; a intolerância pode ser apresentada como “firmeza”; a vaidade pode se esconder atrás de um discurso de propósito.
Ser nova criatura não significa alcançar uma perfeição instantânea. Significa viver em um processo consciente de transformação, no qual a velha natureza já não possui autoridade absoluta sobre nossas decisões. A fé deixa de ser apenas uma identidade pública e passa a se manifestar nas escolhas privadas, nas relações familiares, no ambiente profissional e na forma como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca.
Confesso que esse é um dos maiores desafios da minha vida. Desejo não apenas fazer a diferença, mas ser diferente em cada palavra, atitude e decisão. Não diferente por excentricidade, superioridade moral ou oposição ao mundo, mas diferente porque Cristo passou a ser a referência daquilo que penso, falo e faço.
Em um mundo tão caótico, talvez o testemunho cristão mais poderoso não esteja nos discursos, nos títulos religiosos ou nas aparências de piedade. Talvez esteja na capacidade de responder de uma maneira que a nossa antiga natureza jamais responderia.
A verdadeira transformação começa quando deixamos de utilizar Cristo apenas como parte da nossa identidade religiosa e permitimos que Ele se torne, de fato, o governo da nossa vida.




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