
O cliente financia o banco — e as fintechs provaram que ele não precisa pagar para existir
- Open Planning

- 7 de jul.
- 4 min de leitura
O sistema bancário brasileiro construiu, durante décadas, um modelo de rentabilidade que vai muito além da concessão de crédito. Antes mesmo de emprestar dinheiro, o banco já pode lucrar com a simples manutenção da relação com o correntista. Pacotes de serviços, tarifas mensais, anuidades, taxas administrativas e encargos formam uma receita recorrente, previsível e altamente escalável.
No caso analisado, uma conta de pessoa física vinculada à Cesta Exclusive do Bradesco custa R$ 87,00 por mês, totalizando R$ 1.044,00 por ano. Já uma conta empresarial associada ao pacote Max Empresarial 1 custa R$ 183,60 mensais, alcançando R$ 2.203,20 por ano.
Somadas, as duas contas representam uma despesa anual de R$ 3.247,20 apenas para que uma pessoa física e uma empresa mantenham seus relacionamentos bancários.
E relevante ressaltar que a renda média de todas as fontes do brasileiro em 2025 foi de aproximadamente R$ 3.367,00 (incluindo trabalho, aposentadorias, pensões, benefícios e outras), segundo o dado mais recente do IBGE.
Quando esses valores são multiplicados por uma ampla carteira de correntistas, aquilo que parece uma pequena cobrança mensal transforma-se em uma poderosa fonte de faturamento. Existe até a afirmação, repetida há anos, de que a receita obtida com tarifas bancárias seria suficiente para pagar uma vez e meia a folha salarial dos colaboradores dos grandes bancos.
Sem dados públicos específicos e auditáveis, essa comparação deve ser tratada como uma provocação, não como um fato comprovado. No entanto, ela revela uma percepção difícil de ignorar: os bancos tradicionais arrecadam grandes volumes antes mesmo de assumir qualquer risco relevante de crédito.
A situação torna-se ainda mais favorável às instituições financeiras quando essa receita é somada ao spread bancário — a diferença entre o custo de captação dos recursos e os juros cobrados dos clientes.
O banco remunera pouco o dinheiro de quem deposita, mas cobra caro de quem precisa tomá-lo emprestado. O cliente paga para manter a conta, paga para utilizar determinados serviços e, quando precisa de crédito, encontra taxas capazes de comprometer sua renda pessoal ou sufocar o fluxo de caixa da empresa.
Durante muito tempo, esse modelo foi apresentado como inevitável. A estrutura física, as agências, os caixas eletrônicos, os sistemas, a segurança e o quadro de funcionários eram usados como justificativa para a cobrança permanente de tarifas.
Então surgiram as fintechs (ex: Nubank).
Empresas financeiras digitais passaram a oferecer contas sem tarifa mensal, cartões sem anuidade, transferências gratuitas e serviços bancários básicos sem cobrar do cliente simplesmente pelo direito de permanecer na instituição.
As fintechs não trabalham gratuitamente e tampouco são entidades filantrópicas. Elas também buscam lucro, cobram juros, oferecem seguros, comercializam investimentos, recebem receitas sobre transações e vendem serviços financeiros. A diferença está no modelo.
Em vez de cobrar antecipadamente pela existência da conta, muitas delas procuram ganhar dinheiro quando o cliente realmente utiliza produtos que geram valor ou risco: crédito, financiamento, seguros, investimentos, serviços premium e soluções empresariais.
Esse contraste desmonta a ideia de que toda tarifa bancária seria indispensável para sustentar uma instituição financeira. Se empresas digitais conseguem oferecer grande parte dos serviços básicos sem cobrança mensal, torna-se legítimo questionar por que os bancos tradicionais continuam cobrando valores tão elevados pela manutenção de contas.
A resposta não está apenas nos custos operacionais. Está também na tradição, na concentração do mercado, na inércia dos consumidores e no poder comercial de instituições que construíram carteiras com milhões de clientes.
Muitos correntistas permanecem nos bancos tradicionais por hábito, recebimento de salário, histórico de crédito, financiamento imobiliário, relacionamento empresarial ou dificuldade para transferir toda a sua vida financeira. Essa dependência reduz a pressão competitiva e permite que tarifas permaneçam mesmo quando alternativas mais baratas já estão disponíveis.
É evidente que bancos tradicionais possuem estruturas mais complexas do que muitas fintechs. Mantêm redes físicas, atendem segmentos diversos, operam grandes sistemas de crédito e suportam custos regulatórios, tecnológicos e trabalhistas significativos.
Contudo, reconhecer esses custos não significa aceitar qualquer cobrança como necessária, justa ou proporcional.
O crescimento das fintechs demonstra que tecnologia, automação e concorrência podem reduzir custos e devolver ao consumidor parte da eficiência criada pelo sistema financeiro. Elas obrigaram os bancos tradicionais a rever tarifas, modernizar aplicativos, simplificar processos e melhorar serviços que durante anos permaneceram caros, lentos e burocráticos.
Por outro lado, também seria ingênuo imaginar que toda fintech representa automaticamente uma vantagem. Algumas compensam a ausência de tarifas com juros elevados, limites baixos, serviços restritos ou cobranças em produtos específicos. Conta gratuita não significa crédito barato, atendimento eficiente ou relacionamento justo.
A verdadeira discussão, portanto, não é uma disputa infantil entre bancos maus e fintechs boas. Trata-se de comparar modelos de negócio e perguntar quem realmente se beneficia da evolução tecnológica.
Quando a digitalização reduz drasticamente o custo de uma operação, essa economia será repassada ao cliente ou transformada apenas em mais margem para a instituição?
Os lucros elevados dos bancos brasileiros não podem ser analisados somente como resultado de eficiência administrativa. Eles também refletem tarifas recorrentes, spreads elevados, concentração bancária e uma profunda desigualdade de poder entre quem oferece o dinheiro e quem precisa dele.
As fintechs entraram nesse mercado e provaram algo incômodo: em muitos casos, cobrar pela manutenção de uma conta não era uma necessidade operacional absoluta. Era uma escolha comercial sustentada pela falta de alternativas.
No sistema tradicional, o cliente entrega seus recursos ao banco, ajuda a financiar suas operações e ainda paga para permanecer dentro dele.
Nas fintechs, ao menos em tese, a conta deixa de ser o produto cobrado e passa a ser a porta de entrada para outros serviços.
O banco tradicional chama a tarifa de relacionamento.
A fintech chama a gratuidade de estratégia.
E o consumidor deveria chamar ambos pelo nome correto: modelos de negócio disputando o seu dinheiro.




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