
Entre a Irritação e a Tristeza: O Peso de Viver no Brasil
- Open Planning

- 27 de mai.
- 2 min de leitura
Confesso que, como brasileiro, muitas vezes navego entre a irritação e a ira; entre a tristeza e o desânimo.
Irritação ao perceber problemas que parecem se repetir década após década.
Ira ao observar desperdícios, corrupção, incompetência, violência, privilégios e decisões que frequentemente parecem desconectadas da realidade da população.
Tristeza ao constatar o potencial extraordinário que o país possui e que tantas vezes permanece subutilizado.
Desânimo ao perceber que mudanças estruturais profundas costumam acontecer em uma velocidade muito menor do que as necessidades da sociedade.
Talvez o sentimento mais difícil não seja a indignação em si. A indignação é um sinal de que ainda existe senso de justiça. O mais perigoso é quando a indignação se transforma em apatia.
Quando a pessoa deixa de acreditar que vale a pena estudar, empreender, participar, construir, questionar ou melhorar aquilo que está ao seu alcance.
O Brasil produz uma estranha tensão emocional em quem pensa criticamente. Ao mesmo tempo em que oferece exemplos diários de desperdício de oportunidades, também apresenta exemplos extraordinários de superação, criatividade, empreendedorismo, solidariedade e capacidade de adaptação.
É um país onde convivem, lado a lado, a excelência e a precariedade.
Onde encontramos empresas competitivas globalmente operando ao lado de estruturas públicas ineficientes.
Onde existem profissionais brilhantes, universidades relevantes, inovação, tecnologia e riqueza natural incomparável, mas também obstáculos que parecem desafiar constantemente qualquer tentativa de avanço coletivo.
Talvez o grande desafio seja não permitir que a realidade nos transforme em pessoas amargas.
Porque a amargura paralisa.
O conformismo acomoda.
E o cinismo destrói qualquer possibilidade de construção.
A crítica é necessária.
A lucidez é necessária.
O inconformismo é necessário.
Mas eles precisam caminhar junto da capacidade de continuar construindo.
Continuar estudando.
Continuar trabalhando.
Continuar empreendendo.
Continuar formando pessoas.
Continuar servindo.
Continuar acreditando que mudanças reais são possíveis, ainda que lentas.
Afinal, a história demonstra que sociedades não são transformadas apenas por governos ou instituições. São transformadas por milhões de pessoas que, mesmo frustradas com a realidade, se recusam a abandonar a responsabilidade de construir algo melhor.
E talvez seja exatamente esse o desafio de ser brasileiro: não perder a esperança sem perder a lucidez.




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