
Eclesiastes: O Relato Mais Honesto Sobre a Natureza Humana
- Open Planning

- 9 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de jun.
O que torna Eclesiastes tão singular é justamente sua honestidade brutal. Diferentemente de outros textos sapienciais que frequentemente apresentam a relação entre virtude e prosperidade de forma mais linear, Salomão parece escrever após ter experimentado praticamente tudo que um ser humano poderia desejar:
Poder.
Riqueza.
Prazer.
Conhecimento.
Prestígio.
Construções monumentais.
Relacionamentos.
Influência política.
E após percorrer todos esses caminhos, ele chega repetidamente à mesma conclusão: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”
A palavra hebraica original (hevel) é ainda mais profunda do que “vaidade”. Ela significa algo como “vapor”, “névoa”, “fumaça que desaparece”. Salomão não está dizendo apenas que as coisas são vaidades; ele está dizendo que são transitórias, escorregadias e impossíveis de serem plenamente controladas.
O livro é quase um estudo filosófico da condição humana:
Trabalhamos e deixamos tudo para outros.
Acumulamos conhecimento e aumentamos nossas preocupações.
Buscamos prazer e ele se torna insuficiente.
Procuramos justiça e encontramos corrupção.
Procuramos segurança e encontramos incerteza.
Procuramos permanência em um mundo marcado pela mortalidade.
Por isso muitos estudiosos consideram Eclesiastes um dos textos mais existencialistas já escritos, séculos antes de filósofos como Søren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche ou Albert Camus.
Mas há um detalhe importante: Salomão não termina no niilismo.
Niilismo é uma corrente filosófica que sustenta que a vida não possui um significado, propósito ou valor objetivo intrínseco.
A palavra vem do latim nihil, que significa “nada”.
De forma simplificada, o niilista questiona:
Existe um propósito universal para a vida?
Existe um sentido objetivo para a existência?
Existe uma moral absoluta?
Existe um valor intrínseco nas coisas?
E responde: não necessariamente.
O filósofo mais associado ao tema é Friedrich Nietzsche. Curiosamente, Nietzsche não defendia o niilismo como um destino desejável; ele o via como uma crise inevitável da civilização ocidental quando antigas crenças perdessem sua força.
Há uma diferença importante entre:
Niilismo passivo
“Nada tem sentido.”
“Nada importa.”
“Portanto, não vale a pena fazer nada.”
Niilismo ativo
“Não existe um sentido pré-determinado.”
“Logo, somos responsáveis por criar significado.”
É justamente aí que Eclesiastes se torna fascinante.
Durante boa parte do livro, Salomão parece caminhar à beira do niilismo:
-> Trabalhei.
-> Acumulei riqueza.
-> Busquei prazer.
-> Busquei sabedoria.
-> E tudo parece vapor.
Mas ele não termina no niilismo.
A conclusão de Eclesiastes não é que a vida não tem sentido.
A conclusão é que o sentido não pode ser encontrado apenas nas conquistas humanas.
Por isso muitos estudiosos enxergam Eclesiastes como uma obra que dialoga com questões existencialistas e niilistas, mas que oferece uma resposta diferente: a existência humana é limitada, transitória e cheia de contradições, porém não é destituída de propósito.
Talvez a pergunta central de Eclesiastes não seja: “Nada tem sentido?”
Mas sim: “Estamos procurando sentido no lugar errado?”.
Depois de desconstruir praticamente todas as ilusões humanas, ele conclui: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem.”
A mensagem final não é que a vida não tem sentido. É que o ser humano frequentemente procura sentido onde ele não pode ser encontrado. Segundo Salomão, riqueza, prazer, status, inteligência e trabalho têm valor, mas não são capazes de sustentar o significado último da existência.
Talvez seja por isso que Eclesiastes continue tão atual. Ele descreve um problema profundamente moderno: uma sociedade que possui mais conforto, informação e opções do que qualquer geração anterior, mas que continua fazendo a mesma pergunta que Salomão fez há quase três mil anos: “Depois de conquistar tudo o que eu queria, por que ainda sinto que falta alguma coisa?”




Comentários