
A Normalização do Sufoco.
- Open Planning

- 11 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de abr.
O Brasil não está vivendo uma mera crise de endividamento. Está vivendo a normalização de uma pandemia.
Chamam de aquecimento da economia. Chamam de acesso ao consumo. Chamam de democratização do crédito.
Mas, na prática, o que milhões de famílias vivem não é prosperidade. É asfixia parcelada.
O brasileiro não está enriquecendo. Está aprendendo a sobreviver entre boleto, rotativo, limite estourado e renda comprometida. E o mais perverso: estão tentando vender isso como se fosse normal.
Não é normal uma família trabalhar o mês inteiro e continuar devendo. Não é normal transformar crédito em muleta permanente de uma população exausta. Não é normal chamar de inclusão financeira um sistema que lucra com desespero, pressa e falta de fôlego.
Quando o endividamento vira regra, alguma coisa apodreceu no centro da engrenagem.
E aqui está o ponto que muita gente evita tocar: toda gestão pública que flerta com irresponsabilidade fiscal, tolera distorções no crédito e assiste passivamente ao esmagamento da renda real não é apenas incompetente. É cúmplice de um ambiente onde a dívida deixa de ser exceção e passa a ser método.
Porque uma coisa é enfrentar crise. Outra, bem diferente, é governar produzindo dependência. Uma coisa é administrar dificuldades econômicas. Outra é empurrar a população para o financiamento da própria sobrevivência.
O resultado é um país onde a família financia comida, remédio, transporte e dignidade em prestações. Um país onde o salário entra com destino marcado e sai menor do que a necessidade. Um país onde o futuro foi penhorado para pagar o presente.
E então aparece o discurso técnico, frio, higienizado, tentando explicar o colapso com palavras elegantes.
“Recomposição de consumo.”
“Expansão de crédito.”
“Reorganização financeira das famílias.”
Não. O nome disso é sufoco social com embalagem institucional.
Endividamento em massa não é sinal de força econômica. É sintoma de fragilidade estrutural. É o retrato de uma sociedade que perdeu margem de manobra. E quando um povo perde margem, P•E•R•D•E também L•I•B•E•R•D•A•D•E.
Quem precisa parcelar a vida inteira não escolhe. Aceita. Adia. Corta. Renuncia.
Por isso, o debate sério não é sobre estimular mais consumo a qualquer custo. É sobre renda, responsabilidade, previsibilidade e dignidade econômica. É sobre parar de tratar a dívida como motor da economia e voltar a tratar o trabalho, a produção e a estabilidade como base de uma nação minimamente saudável.
Porque quando o endividamento das famílias cresce e a lucidez do poder diminui, o que se instala não é desenvolvimento. É uma epidemia social disfarçada de política econômica.
E epidemias não começam por acaso. Elas prosperam quando a irresponsabilidade vira sistema.




Comentários