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A Geração que Atravessou o Século: de 1965 à Inteligência Artificial

  • Foto do escritor: Open Planning
    Open Planning
  • 19 de jul.
  • 4 min de leitura

Nascer em 1965 foi chegar ao mundo em um ponto de transição histórica. O planeta ainda carregava as marcas profundas da Segunda Guerra Mundial, vivia sob a tensão da Guerra Fria e assistia à disputa tecnológica entre Estados Unidos e União Soviética. Ao mesmo tempo, a televisão começava a transformar a comunicação, os computadores ainda ocupavam grandes salas e a chegada do homem à Lua parecia uma ambição quase impossível.


Eu, Marcelo Miragaia, nasci em 27 de dezembro de 1965, praticamente na “boca do goldaquele ano. Essa data, além de carregar um significado pessoal, representa uma coincidência histórica interessante: pertenço a uma geração que não apenas acompanhou mudanças tecnológicas, sociais e culturais, mas atravessou uma das maiores acelerações da história da humanidade.


Durante a infância, o mundo ainda era essencialmente analógico. A informação chegava pelo rádio, pelos jornais impressos e por poucos canais de televisão. Fotografias precisavam ser reveladas, cartas levavam dias ou semanas para chegar e ligações telefônicas, principalmente de longa distância, eram caras, limitadas e muitas vezes planejadas com antecedência. O tempo possuía outro ritmo, e a espera fazia parte da vida cotidiana.


Na juventude, acompanhei a popularização da televisão em cores, o crescimento da indústria cultural, a transformação dos costumes e o surgimento de novos movimentos sociais. O mundo se tornava mais conectado, ainda que essa conexão estivesse muito distante da velocidade atual. A comunicação começava a atravessar fronteiras, influenciando comportamentos, consumo, política e identidade.


Na vida adulta, testemunhei a chegada dos computadores pessoais. As máquinas de escrever começaram a perder espaço, os arquivos de papel foram lentamente substituídos por documentos digitais e processos que antes dependiam de tempo, deslocamento e estrutura física passaram a ser executados por meio de telas. A informática deixou de ser um recurso restrito a governos e grandes empresas e passou a integrar escritórios, escolas e residências.


Depois, veio a internet. E com ela, uma ruptura ainda maior.


A informação, que durante séculos foi escassa, tornou-se abundante. O acesso ao conhecimento deixou de depender exclusivamente de bibliotecas, universidades, jornais ou especialistas. O correio eletrônicosubstituiu grande parte das cartas. As redes sociais transformaram cada indivíduo em produtor e distribuidor de conteúdo. A comunicação deixou de ser apenas de um para muitos e passou a ocorrer de todos para todos, em tempo real.


Em seguida, os telefones celulares se tornaram computadores de bolso. Câmeras, mapas, bancos, músicas, livros, agendas, notícias, compras e relacionamentos passaram a caber em um único aparelho. Aquilo que parecia ficção científica tornou-se rotina, e o extraordinário foi rapidamente absorvido pela normalidade.


Agora, aos sessenta anos, encontro-me diante de uma nova ruptura: a inteligência artificial generativa.


Uma geração que começou sua trajetória utilizando papel, caneta, telefone fixo e televisão em preto e branco hoje dialoga com máquinas capazes de produzir textos, imagens, análises, músicas, estratégias e soluções complexas. Não estamos apenas utilizando uma nova ferramenta. Estamos participando do início de uma transformação que poderá alterar a educação, o trabalho, a economia, a criatividade, a ciência e a própria maneira como o ser humano compreende a inteligência.


Essa trajetória revela algo maior do que uma simples evolução tecnológica. Ela mostra a extraordinária capacidade humana de adaptação. Pessoas nascidas em 1965 precisaram aprender, desaprender e reaprender diversas vezes. Viram profissões desaparecerem, outras surgirem e competências antes valorizadas perderem relevância. Precisaram migrar do analógico para o digital, do físico para o virtual e, agora, do uso de máquinas programadas para a convivência com sistemas capazes de aprender e produzir.


Entretanto, a velocidade das transformações também apresenta riscos.


A abundância de informação não produziu necessariamente mais sabedoria. A facilidade de comunicação não gerou automaticamente mais diálogo. A tecnologia aproximou pessoas geograficamente, mas muitas vezes as afastou emocionalmente. A inteligência artificial amplia capacidades, porém também pode ampliar erros, preconceitos, manipulações e desigualdades quando utilizada sem responsabilidade.


Por isso, a grande questão não é apenas até onde a tecnologia poderá chegar, mas que tipo de humanidade chegará com ela.


A geração de 1965 possui uma posição privilegiada nesse debate. Ela conheceu o mundo antes da internet e compreende o valor da presença, da espera, da memória, da conversa e da experiência. Ao mesmo tempo, acompanhou a digitalização e aprendeu a utilizar seus recursos. Essa geração pode funcionar como uma ponte entre dois mundos: o mundo que valorizava o tempo e o mundo que valoriza a velocidade.


Talvez o maior papel de quem atravessou todas essas transformações seja justamente preservar o humano dentro da evolução tecnológica. Ensinar que eficiência não substitui propósito, que informação não substitui discernimento, que conexão não substitui relacionamento e que inteligência, artificial ou humana, sem ética pode se tornar apenas uma forma sofisticada de produzir problemas.


Nascer em 1965 foi assistir ao futuro chegar repetidas vezes.


Foi ver o homem chegar à Lua, o computador chegar às casas, a internet chegar aos bolsos e a inteligência artificial chegar às conversas. Foi atravessar uma distância histórica que poucas gerações anteriores experimentaram em uma única vida.


A curiosa coincidência, portanto, não está apenas em ter nascido no fim de um ano simbólico. Está em perceber que uma vida iniciada em um mundo analógico alcançou uma era em que máquinas escrevem, criam e dialogam.


No entanto, diante de toda essa evolução, permanece uma pergunta essencial: estamos nos tornando apenas mais tecnológicos ou também mais humanos?


A resposta não será dada pelas máquinas.


Será dada pelas escolhas que fizermos com elas.

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