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8% ao mês: quando o lucro rompe com o propósito

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    Open Planning
  • 8 de jul.
  • 4 min de leitura

Cobrar 8% de juros ao mês no cheque especial de uma pessoa físicaaproximadamente 152% ao ano quando considerados os juros compostospode estar dentro dos limites regulatórios. Mas isso não encerra a discussão.


Na realidade, é justamente aí que ela começa.


Quando uma instituição financeira cobra uma taxa dessa magnitude de um cliente que já se encontra em situação de emergência, o problema deixa de ser apenas contratual. Passa a envolver propósito, coerência, responsabilidade e reputação.


O Bradesco construiu parte relevante de sua história como um banco popular, democrático, acessível e próximo das classes menos favorecidas. Essa narrativa ajudou a consolidar sua identidade, ampliar sua presença nacional e conquistar a confiança de milhões de brasileiros.


Mas o que acontece quando a prática atual começa a contrariar os valores que sustentaram essa trajetória?


Entre a origem popular e a realidade do cliente


Toda grande instituição é construída sobre uma promessa.


No caso dos bancos, essa promessa não se limita à guarda do dinheiro, à concessão de crédito ou à execução de operações financeiras. Ela envolve confiança, segurança, proximidade e responsabilidade com a vida econômica das pessoas.


O Bradesco cresceu aproximando-se de públicos que historicamente tinham pouco acesso ao sistema bancário. Pequenos comerciantes, trabalhadores, famílias de menor renda e cidadãos até então ignorados pelas instituições tradicionais passaram a fazer parte de sua base.


Essa inclusão foi importante para o cliente, mas também extremamente lucrativa para o banco.


Portanto, não se trata de romantizar sua origem. O posicionamento popular sempre teve uma dimensão comercial. Ainda assim, ele criou uma expectativa legítima de proximidade e coerência.


O problema surge quando a instituição que se tornou grande graças à confiança das classes populares passa a cobrar delas um dos créditos mais caros do sistema.


O lucro que nasce da urgência


O cheque especial não costuma ser utilizado para financiar projetos, investimentos ou expansão patrimonial.


Na maioria das vezes, ele é acionado quando o salário termina antes do mês, quando surge uma despesa inesperada, quando falta dinheiro para pagar uma conta básica ou quando uma família já não possui outra alternativa imediata.


É, portanto, um crédito ligado à urgência.


Ao cobrar 8% ao mês, a instituição não está apenas precificando o dinheiro. Está cobrando um valor elevado justamente de quem demonstra maior fragilidade financeira.


É evidente que bancos precisam administrar riscos, inadimplência, custos operacionais e exigências regulatórias. Nenhuma instituição financeira existe para conceder crédito gratuitamente ou operar sem lucro.


Mas existe uma diferença entre remunerar o risco e transformar a vulnerabilidade em modelo permanente de rentabilidade.


Quando o banco lucra mais quanto maior é o desespero do cliente, algo está profundamente errado na lógica do relacionamento.


Legalidade não é sinônimo de coerência


Uma cobrança pode ser legal e, ainda assim, ser questionável sob os aspectos ético, social e estratégico.


Cumprir o limite permitido não significa necessariamente cumprir o propósito declarado.


Uma instituição que se apresenta como próxima, inclusiva e comprometida com seus clientes precisa avaliar não apenas aquilo que pode cobrar, mas aquilo que deveria cobrar.


Essa é uma discussão que vai além do Bradesco.


Ela alcança todo um sistema financeiro que frequentemente investe milhões em campanhas sobre proximidade, inclusão e transformação social, enquanto mantém produtos capazes de aprofundar a fragilidade econômica do próprio público que afirma acolher.


A publicidade diz: “Estamos ao seu lado.”


A taxa responde: “Desde que você consiga pagar.”


O problema também pertence ao Estado e à sociedade


Seria simplista responsabilizar somente os bancos.


Juros elevados também são sintomas de um país marcado por desequilíbrio fiscal, insegurança econômica, baixa produtividade, inadimplência, burocracia, concentração bancária e instabilidade institucional.


No âmbito privado, muitas famílias vivem sem planejamento, reservas ou educação financeira adequada.


No âmbito público, o Estado cobra impostos elevados, entrega serviços insuficientes, administra mal seus recursos e contribui para um ambiente econômico de alto risco.


No meio dessa engrenagem está o cidadão.


Ele paga impostos sobre o consumo, sofre com a perda do poder de compra, recebe serviços públicos deficientes e, quando falta dinheiro para concluir o mês, paga juros que podem ultrapassar 150% ao ano.


O banco responsabiliza o risco.


O Estado responsabiliza o cenário internacional.


E o cidadão continua responsável pela conta inteira.


Confiança não aparece no balanço até desaparecer


Uma instituição pode aumentar receitas no curto prazo explorando produtos extremamente rentáveis. O problema é que, ao fazer isso, pode começar a consumir seu ativo mais valioso: a confiança.


E confiança não costuma aparecer imediatamente como prejuízo no balanço trimestral.


Ela desaparece silenciosamente.


Desaparece quando o cliente se sente abandonado.


Quando percebe que o discurso institucional não corresponde à experiência real.


Quando encontra opções mais simples, transparentes e baratas.


Quando deixa de enxergar o banco como parceiro e passa a enxergá-lo como ameaça.


Fintechs e bancos digitais compreenderam essa ruptura. Eles cresceram não apenas por oferecer tecnologia, mas por questionar tarifas, burocracias e práticas que durante décadas foram tratadas como inevitáveis.


O cliente atual possui mais acesso à informação, maior capacidade de comparação e menos disposição para aceitar incoerências embaladas em campanhas publicitárias emocionais.


O custo de abandonar a própria identidade


Uma organização pode continuar grande mesmo depois de abandonar seu propósito.


Pode manter milhares de agências, milhões de clientes, lucros bilionários e presença nacional.


Mas tamanho não significa respeito.


Presença não significa proximidade.


E lucro não significa legitimidade.


Quando uma instituição se distancia dos valores que construíram sua reputação, passa a existir uma diferença perigosa entre aquilo que ela afirma ser e aquilo que realmente entrega.


Essa distância pode não derrubar imediatamente seus resultados. Mas corrói sua identidade, enfraquece sua marca e abre espaço para concorrentes que compreendem melhor as novas expectativas da sociedade.


O lucro sustenta a operação.


A confiança sustenta a permanência.


A pergunta que precisa ser feita


O debate não é sobre impedir que bancos tenham lucro.


Instituições financeiras são empresas, precisam gerar resultados, remunerar acionistas, manter sua estrutura e assumir riscos.


A questão é saber qual é o limite entre rentabilidade e exploração da vulnerabilidade.


Uma taxa de 8% ao mês no cheque especial não representa apenas o preço do dinheiro.


Ela representa o preço da urgência, da desigualdade, da ausência de reservas, da fragilidade econômica e da desorganização pública e privada de uma nação.


Quando uma instituição que construiu sua imagem como banco popular cobra o limite máximo justamente de quem atravessa uma emergência, a contradição não pode ser ignorada.


No fim, a pergunta não é apenas quanto um banco consegue lucrar com seus clientes.


A verdadeira pergunta é:


Quanto de sua história, de seus valores e de sua credibilidade uma instituição está disposta a perder para continuar lucrando?

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